         Tess Gerritsen
         Chamada  Meia Noite



                                                Sinopse: 

Um telefonema  meia noite despertou a recm-casada Sarah Fontaine. Em vez de ouvir a voz de
                                             seu marido, que estava em Londres, ouviu a de um
                                            desconhecido chamado Nick O'Hara, que lhe dizia que
                                            Geoffrey havia morrido em um incndio num hotel de
                                             Berlim. Convencida de que seu marido estava vivo,
                                            Sarah decide investigar por sua conta, com a ajuda de
                                               Nick. Havia muitas perguntas sem resposta, e as
                                                       respostas poderiam ser fatais...




                                           RESENHA BIBLIOGRFICA
                                              Tess Gerritsen

         Presena habitual nas listas dos mais famosos autores de best-sellers do New York Time,
        Tess Gerritsen  uma mulher com muito talento e uma historia pessoal muito interessante.
            Graduada pela Universidade de Stanford e tendo exercido sua carreira como mdica,
           escolheu, sem dvida, dedicar-se por completo  criao literria durante sua licena
         maternidade. Em 1987 publicou seu primeiro romance, Chamada  Meia Noite (Call After
         Midnight), um suspense romntico, que se seguiram outros oito livros. Tambm escreveu
           o roteiro Adrift (1993) para a CBS. Seu primeiro thriller mdico, Doadores (Harvest) foi
        publicado em 1996 e com ele se estreou nas listas de best-sellers do New York Time. A ele
         se seguiram LifeSupport (1997), Bloodstream (1998), Gravity (1999), The Surgeon (2001),
             The Apprentice (2002), The Sinner (2003), Body Double (2004), Vanish (2005), The
                                Mephisto Club (2006), e The Bone Garden (2007).
          Seus livros j foram traduzidos para 31 idiomas e foram vendidos mais de 15 milhes de
                               cpias, sendo nmero um nas listas de vrios pases.
            Vencedora do premio Nero Wolf (por Vanish) e do premio RITA (por the Surgeon), os
                         crticos a esto chamando de "a rainha do suspense mdico".
         Durante anos morou no Hava, e agora vive em Camden, no Maine, com seu esposo, que
                                       tambm  mdico, e seus dois filhos.
              Prlogo


             Berlim

              Vinte segundos de presso na cartida so suficientes para deixar um homem
        inconsciente. Dois minutos mais e a morte  inevitvel. Simon Dance no precisava ler
        esses dados em um livro mdico... ele os conhecia por experincia. Tambm sabia que no
        deveria haver falhas no garrote. Se a corda no estivesse tensa, se permitisse que algumas
        gotas de sangue chegassem ao crebro da vtima, a agonia se prolongava. A operao se
        tornava torpe, inclusive perigosa. No h nada to selvagem quanto um moribundo.
              Dance, agachado na escurido, apertou o garrote nas mos e olhou o mostrador
        luminoso de seu relgio. Fazia duas horas que tinha apagado as luzes. Seu assassino era
        sem dvida um homem cauteloso, que queria certificar-se de que dormia profundamente.
        Se fosse um profissional, saberia que o sonho das duas primeiras horas  o mais pesado. E
        esse era o momento de atacar.
        No corredor exterior cruzou um sapato. Dance se tornou rgido, se levantou lentamente e
        esperou na escurido ao lado da porta. Ignorou os batimentos de seu corao e sentiu a
        injeo familiar de adrenalina movendo seus reflexos. Apertou o garrote nas mos.
              Algum enfiou uma chave na fechadura. Dance ouviu o som metlico dos dentes
        roando o metal. A chave girou e a fechadura cedeu com um barulho suave. Ao abrir-se, a
        porta deixou a luz do corredor entrar no quarto. Uma sombra cruzou o umbral e se voltou
        para a cama, onde um homem parecia repousar. A sombra levantou o brao. Uma pistola
        com silenciador disparou trs balas nas almofadas. Dance atacou quando caiu a terceira.
              Colocou o garrote ao redor do pescoo do intruso e apertou a corda, que se
        posicionou em torno da parte mais visvel da cartida, perto do ngulo com a mandbula. A
        pistola caiu ao cho. O homem se moveu violentamente, como um peixe no anzol e puxou
        com fora o garrote. Esticou o brao para trs e tentou cravar as unhas no rosto de Dance.
        Seus braos e pernas se moviam sem controle em todas as direes. Logo, pouco a pouco,
        as pernas cederam e os braos se estenderam uma ltima vez antes de ficarem inertes.
        Enquanto Dance contava os minutos, sentiu os ltimos espasmos do corpo, provocados
        pelas clulas moribundas do crebro. Continuou apertando.
              Quando se passaram trs minutos, soltou o garrote e o corpo caiu ao cho. Dance
        acendeu a luz e olhou o homem que acabara de matar.
              O rosto lhe parecia vagamente familiar. Talvez o tivesse visto nas ruas ou num trem,
        mas no sabia seu nome. Revistou sua roupa, mas encontrou apenas dinheiro, chaves de
        carro e algumas ferramentas de seu trabalho: cartuchos de reserva, uma navalha de bolso,
        uma gazua. Dance pensou que se tratava de um profissional annimo e se perguntou por
        um momento quanto lhe teriam pago.
              Arrastou o corpo at  cama e afastou as almofadas que tinha colocado sob os
        cobertores. Calculou que o corpo mediria perto de um metro e oitenta. Igual a ele. Trocou
        sua roupa com a do cadver. Certamente no seria preciso, mas ele era um homem
        consciente. Depois retirou a aliana e tentou coloc-lo no dedo do morto, mas no
        conseguiu que o anel passasse pelas articulaes. Foi ao banheiro, ensaboou a aliana e
        por fim conseguiu enfi-la no dedo do cadver. Depois se sentou e fumou alguns cigarros.
        Tentou pensar nos detalhes que poderia ter deixado passar.
              As trs balas, por exemplo. Procurou nas almofadas e conseguiu recuperar duas. A
        terceira certamente se encontraria escondida em algum ponto do colcho. Comeou a
        procur-la quando ouviu passos no corredor. Teria o assassino algum cmplice? Dance
        pegou a pistola, apontou para a porta e esperou. Os passos transpuseram diretos e se
        perderam no corredor. Alarme falso. De qualquer modo, devia apressar-se. Seria um erro
        permanecer ali por mais tempo.
              Tirou uma garrafa de metanol da gaveta da cmoda. Queimaria rapidamente e no
        deixaria rastros. A esvaziou sobre o corpo, a cama e o tapete ao lado desta. O quarto no
        tinha alarmes anti-incndios nem aspersores automticos. Tinha escolhido um hotel velho
        por esse motivo.
              Deixou o cinzeiro ao lado da cama e recolheu os pertences do defunto, que enfiou
        em um saco de lixo, junto com a garrafa de metanol. A seguir, ateou fogo  cama.
        As chamas no tardaram a envolver o corpo. Dance esperou o suficiente para certificar-se
        de que no ficaria nada reconhecvel.
              Saiu do quarto com o saco de lixo, fechou a porta e desceu pelo corredor at o
        alarme de incndio. No via motivos para matar pessoas inocentes, assim quebrou o vidro
        e acionou o alarme. Em seguida, desceu as escadas at o andar de baixo.
              Da rua em frente observou as chamas que saam da janela. Evacuaram o hotel e a rua
        se encheu de pessoas sonolentas envolvidas em cobertores. Em menos de dez minutos
        chegaram trs caminhes de bombeiros. Nesse momento, o prdio havia se tornado um
        inferno.
        Demoraram uma hora para apagar o fogo. Uma multido de curiosos se uniu aos hspedes
        do hotel e Dance estudou seus rostos, guardando-os na memria. Se voltasse a ver algum
        deles, tomaria cuidado.
              Entre um grupo de pessoas viu uma limusine preta que descia lentamente pela rua.
        Reconheceu o homem que ocupava o assento de trs. Ento a CIA estava ali. Interessante.
              J tinha visto o suficiente. Era tarde e teria que regressar a Amsterd.
              Trs quarteires  frente jogou o saco do lixo numa caamba. Assim, encerrou aquele
        captulo. Havia terminado o que tinha ido fazer em Berlim. Tinha matado Geoffrey
        Fontaine. Tinha chegado o momento de desaparecer. Afastou-se assobiando na escurido.
        
        Amsterd
        
        Acordaram o velho s trs da manh com a notcia.
         Geoffrey Fontaine est morto.
         Como?  perguntou.
         Um incndio em um hotel. Dizem que estava fumando na cama.
         Um acidente? Impossvel. Onde est o corpo?
         No necrotrio de Berlim. Muito desfigurado.
        O velho no se surpreendeu que o corpo estivesse irreconhecvel. Simon Dance tinha
        voltado a encobrir seu rastro muito bem. E ele o havia perdido de novo.
        Mas ainda tinha uma carta para jogar.
         Me disse que ele tinha uma esposa americana. Onde ela mora?
         Em Washington.
         Quero que a sigam.
         Por qu? J lhe disse que ele est morto.
         No est morto. Est vivo. Estou certo disso. E essa mulher sabe onde ele est. Quero
        que a vigiem.
         Farei que meus homens...
         No. Enviarei um dos meus. Algum, em quem eu possa confiar.
        Houve uma pausa.
         Lhe darei o seu endereo.
        Quando desligou o telefone, o velho no conseguiu voltar a dormir. Levara cinco anos
        buscando... somente, para tornar a falhar quando j estava to perto. Agora, tudo
        dependeria do que descobrisse sobre aquela mulher em Washington.
        Teria que ser paciente e esperar que se denunciasse. Enviaria Kronen, um homem que no
        havia lhe falhado nunca. Kronen tinha mtodos prprios para extrair informaes...
        mtodos aos quais era difcil resistir. Depois de tudo, esse era seu maior talento: a
        persuaso.
        
        
             Um
        
        
             Washington
        
        
              Era mais de meia noite quando o telefone tocou.
        Sarah o ouviu atravs da pesada cortina de sono. O barulho parecia muito distante, como
        uma sirene, que soava numa casa fora de seu alcance. Lutava para acordar, mas se
        encontrava presa num mundo entre o sono e a viglia. Teria que atender ao telefone. Sabia
        que a chamada era de seu esposo Geoffrey. Havia esperado por toda a noite para ouvir sua
        voz. Era quarta-feira e Geoffrey, em suas viagens mensais a Londres, sempre telefonava
        para casa nesse dia.
              Hoje, contudo, ela havia se deitado cedo, tossindo e chorosa, vitimada pelo ultimo
        vrus da gripe que atacara Washington, uma estirpe especialmente virulenta proveniente
        de Hong Kong, que compartilhava com a metade de seus companheiros de trabalho no
        laboratrio de microbiologia. Havia passado uma hora lendo na cama, lutando
        valentemente para manter-se acordada. Mas a combinao de medicamentos antigripais e
        o Jornal de Microbiologia mostraram-se mais eficazes que qualquer sonfero, e acabou
        adormecendo.
              Acordou sobressaltada e descobriu que o abajur, na mesa de cabeceira, continuava
        aceso e ainda mantinha a revista sobre o peito. Enxergava o quarto fora de foco.
        Colocou os culos e olhou o relgio sobre a mesa. Meia noite e meia. O telefone estava
        silencioso. Teria sido um sonho?
              Assustou-se quando voltou a tocar. Levantou o fone com rapidez.
               Senhora Sarah Fontaine?  perguntou uma voz masculina.
             No era Geoffrey. Preocupada, se sentou na cama rapidamente, completamente
        desperta.
              Sim,  ela.
              Senhora Fontaine, meu nome  Nicholas O'Hara, do Departamento de Estado.
        Lamento cham-la a esta hora, mas...  fez uma pausa  temo ter ms notcias.
             Sarah sentiu que a garganta se contraa.
             Queria gritar, mas s conseguiu emitir um sussurro.
              Sim. Estou ouvindo.
              Se trata de seu esposo. Houve um acidente.
             A mulher fechou os olhos. Tudo aquilo parecia irreal.
              Ocorreu h cerca de seis horas  prosseguiu a voz. Houve um incndio no quarto de
        hotel de seu esposo  outra pausa. Senhora Fontaine? A senhora ainda est a?
              Sim. Por favor, continue.
             O homem clareou a garganta.
              Sinto dizer-lhe isto, senhora Fontaine. Seu esposo... Est morto.
             Ele permitiu um momento de silncio, momento em que ela lutou para controlar sua
        dor.
             Um ato de orgulho estpido e irracional a levou a apertar a mo sobre a boca para
        reprimir um soluo. Aquela dor era muito ntima para ser compartilhada com um
        desconhecido.
              Senhora Fontaine?  perguntou a voz, com gentileza. A senhora est bem?
             Finalmente, ela conseguiu recuperar o flego.
              Sim  sussurrou.
              No tem que se preocupar com nada. Eu coordenarei todos os detalhes com nosso
        consulado em Berlim. Haver atrasos, suponho, mas to logo as autoridades alems
        entreguem o corpo, no creio que...
              Berlim?  ela interrompeu.
              Tero que investigar, claro. Haver um relatrio completo quando a polcia de
        Berlim...
              Mas isso no  possvel!
             Nicholas O'Hara se esforava para ser paciente.
              Sinto muito, senhora Fontaine. Sua identidade foi confirmada. No h nenhuma
        dvida de que...
              Geoffrey estava em Londres  ela gritou.
             Seguiu-se um grande silncio.
              Senhora Fontaine  disse ele, com uma voz irritantemente tranquila. O acidente
        ocorreu em Berlim.
              Esto cometendo um erro. Geoffrey estava em Londres. No poderia estar em
        Berlim.
        Houve outra pausa, maior desta vez. Sarah apertava o fone contra o seu ouvido. Tinha que
        haver um erro. Geoffrey no podia estar morto. O imaginou rindo da notcia absurda de
        sua morte. Sim, iriam rir juntos quando ele voltasse. Se voltasse.
              Senhora Fontaine  disso o homem por fim. Em que hotel ele se hospedou em
        Londres?
              No Savoy. Tenho o nmero do telefone em alguma parte. Tenho que ir busc-lo...
               No  preciso. J o encontrei. Permita-me que d alguns telefonemas. Talvez seja
        melhor v-la pela manh  falava com cautela, com o tom montono de um burocrata que
        havia aprendido a no revelar nada. Pode passar pelo meu escritrio?
               Como... Como o encontrarei?
               Vir de carro?
               No, no tenho carro.
               Lhe enviarei um.
                um erro, no ? Quero dizer... Vocs cometem erros, no?  apenas pedia um
        pouco de esperana. Um fio pequeno a que se agarrar. Era o mnimo que lhe podia dar.
              Mas ele se limitou a dizer:
               Falaremos pela manh, senhora Fontaine. Aps as onze.
               Espere, por favor! Perdoe-me, no posso pensar. Como disse que se chamava?
               Nicholas O'Hara.
               Onde fica seu escritrio?
               No se preocupe. O motorista a trar aqui. Boa noite.
               Senhor O'Hara?
              Ouviu o toque de chamada e compreendeu que j havia desligado. No mesmo
        instante, discou o nmero do hotel Savoy em Londres. Um telefonema e tudo se
        esclareceria.
               Hotel Savoy  atendeu uma mulher a meio mundo de distncia.
              A mo de Sarah tremia com tal violncia que apenas conseguia sustentar o fone.
               Ol. Poderia transferir para o quarto do senhor Geoffrey Fontaine, por favor.
               Desculpe, senhora  disse a voz. O senhor Fontaine deixou o hotel h dois dias.
               Deixou o hotel?  gritou Sarah  Mas para onde ele foi?
               No nos deixou seu destino. Mas se deseja enviar-lhe uma mensagem poderemos
        retransmiti-la a seu endereo residencial...
              Sarah olhou o telefone como se fosse um objeto estranho, que nunca tivesse visto.
        Desceu lentamente o olhar at o travesseiro de Geoffrey. A enorme cama parecia
        estender-se at ao infinito. Ela sempre se acomodava em uma pequena parte. E no se
        movia de seu lugar nem sequer quando Geoffrey estava fora e dormia sozinha.
              E agora, talvez ele nunca voltasse.
              E ela ficaria sozinha numa cama imensa e num apartamento demasiado silencioso.
              Estremeceu e uma pontada de dor formou um n em sua garganta. Desejava chorar,
        mas as lgrimas negaram-se a formar nos seus olhos. Deixou-se cair sobre a cama com o
        rosto contra o travesseiro. Cheirava a Geoffrey. Cheirava a sua pele, seu cabelo e seu
        sorriso. O apertou nos braos e se sentou no meio da cama, no lugar em que seu marido
        sempre dormia. Os lenis estavam muito frios.
              Geoffrey podia nunca voltar para casa. E tinham-se casado h apenas dois meses.
        
        
             Nick O'Hara tomou sua terceira xcara de caf e afrouxou a gravata. Depois de duas
        semanas de frias, em que s havia usado trajes de banho, a gravata pareceu-lhe o n de
        um enforcado.
             Fazia apenas trs dias que retornara a Washington, e j estava estressado. Supunha-
        se que as frias tm a funo de ajudar a recarregar as baterias. Por isso, tinha ido s
        Bahamas. Havia passado duas semanas gloriosas sem fazer nada, deitado seminu ao sol.
        Precisava estar sozinho, fazer a si prprio algumas perguntas difceis e procurar as
        respostas.
               Mas s havia chegado  concluso de que no era feliz.
               Depois de oito anos no Departamento de Estado, estava farto de seu trabalho.
               Movia-se em crculos, como um barco sem leme. Sua carreira estava estagnada, e a
        culpa era inteiramente sua. Havia perdido pouco a pouco a pacincia como os jogos
        polticos. No estava com humor para jogar. Mas aguentava ali porque acreditava em seu
        trabalho, no valor intrnseco deste. Tinha feito caminhadas pela paz na sua juventude, e
        passado por mesas de negociao da paz na idade adulta.
               Mas os ideais no levaram a parte alguma. A diplomacia no se baseava em ideais,
        mas em protocolos e programas de partidos polticos, como tudo o mais. E ainda que
        tivesse dominado o protocolo, no lhe ocorria o mesmo com a poltica. E no era porque
        no pudesse. Era porque no o queria.
               Nesse sentido, sabia que no era um bom diplomata. Para seu azar, seus superiores
        pareciam mostrar-se de acordo com ele. Por isso o tinham enviado quela agncia
        consular, para comunicar ms notcias s vivas recentes. Era uma bofetada no muito
        sutil. Certo que poderia ter recusado o posto. Poderia voltar a ensinar, em seu antigo cargo
        na Universidade Americana. Teria que pensar nisso. Por isso necessitava duas semanas
        sozinho nas Bahamas.
               E no precisava deparar-se com aquilo  sua volta.
               Abriu com um suspiro a pasta que levava a etiqueta de Fontaine, Geoffrey H. Havia
        algo que o inquietara toda a manh. Havia estado desde uma hora da madrugada sentada
        em frente ao computador tirando toda informao possvel dos arquivos do Governo.
        Tambm havia passado meia hora falando ao telefone com seu amigo Wes Corrigan, do
        consulado de Berlin. A frustrao o havia levado inclusive a consultar algumas fontes
        pouco usuais. O que tinha comeado com uma chamada de rotina para dar os psames a
        uma viva, estava tornando-se algo mais complicado, um quebra-cabea do qual faltavam
        algumas peas.
               Na realidade, excetuando-se os detalhes da morte de Geoffrey Fontaine, apenas
        havia peas com que brincar. Nick no gostava de quebra-cabeas incompletos. O
        deixavam louco. Quando se tratava de buscar mais informaes, mais fatos, ele podia
        tornar-se insacivel. E nesse momento, com a pasta de Fontaine entre os dedos, se sentia
        como se segurasse um balo de ar: nada substancial, a no ser um nome. E uma morte.
               Os olhos ardiam; se recostou na cadeira e bocejou. Quando era um jovem na
        universidade, conseguia passar metade da noite em p. Mas aos trinta e oito anos,
        somente se tornava irritado. E faminto. s seis da manh j tinha devorado trs donuts. A
        injeo de acar e o caf o haviam mantido em ao. E agora sentia muita curiosidade
        para deixa-lo. Os quebra-cabeas sempre lhe causavam esse efeito. E no estava certo de
        que gostasse disso.
               A porta abriu-se e o fez levantar os olhos. Seu amigo, Tim Greenstein, entrou por ela.
                Bingo! O encontrei!  disse.
               Deixou uma pasta sobre a mesa e lhe dedicou um de seus famosos sorrisos,
        normalmente dedicados ao computador. Tim era um "pau-para-toda-obra", o homem que
        todos procuravam quando os dados no estavam onde deveriam estar. culos espessos,
        consequncia de cataratas na infncia, distorciam seus olhos. Uma barba negra escurecia
        grande parte de seu rosto, com exceo da testa plida e do nariz.
                Eu disse que o encontraria  observou, sentando-se em frente a Nick.  Pedi ajuda a
        meu amigo do FBI e no encontramos nada. Ento, procurei por minha conta e... No foi
        fcil retirar isso da informao classificada. Algum idiota novato que insiste em fazer o seu
        trabalho.
               Nick franziu a testa.
                Teve que obter esses dados da segurana?
                Sim. H mais, mas no pude ver. Descobri que os agentes da inteligncia possuem
        uma pasta sobre o seu homem.
               Nick abriu a pasta e olhou com incredulidade. O que via trazia mais perguntas do que
        nunca, perguntas para as quais no parecia haver respostas.
                Que diabo significa isso?  murmurou.
                Por isso no podia encontrar nada sobre Geoffrey H. Fontaine  disse Tim. At um
        ano atrs ele no existia.
               Nick apertou a mandbula.
                Pode me conseguir mais coisas?
                Bem... Creio que estejamos pisando em territrio de outros. E os rapazes da CIA
        podem ficar zangados.
                Eles que se metam comigo  comentou Nick, que no se intimidava mais com a CIA
        desde que conhecera muitos agentes incompetentes.  Alm do mais, s estou cumprindo
        meu dever. No se esquea da viva.
                Mas esse assunto pode-se complicar bastante.
                Nada que voc no possa cuidar.
               Tim sorriu.
                Que ? Est se tornando detetive?
                No, apenas estou curioso  olhou o monte de papis sobre sua mesa. A maioria
        lixo burocrtico. O veneno de sua existncia... Mas teria que faz-lo. O caso Fontaine
        deveria distra-lo.
               Olhou o amigo.
                Por que no procura algo sobre a viva? Sarah Fontaine. Pode ser que isso nos leve
        a algum lugar.
                Por que no o faz voc?
                Porque voc  quem tem acesso aos computadores.
                Sim, mas voc  quem est com a mulher.  Tim apontou para a porta. Sua
        secretria estava anotando seu nome. Sarah Fontaine est sentada em sua sala de espera
        neste momento.
        
             A secretria era uma matrona de cabelos grisalhos, olhos azuis e uma boca que
        parecia formar constantemente linhas retas. Levantou a vista da mquina de escrever
        apenas pelo tempo necessrio para anotar o nome de Sarah e indicar-lhe um sof prximo.
             Sobre uma mesinha ao lado do sof havia um monte de revistas; alguns exemplares
        de Assuntos Exteriores e a Revista Imprensa Mundial, todas etiquetadas com o nome de
        seu destinatrio: Dr. Nicholas O'Hara.
              A secretria prosseguiu datilografando e Sarah afundou-se nas almofadas do sof,
        olhando para as mos que colocara no colo. No estava restabelecida da gripe e se sentia
        triste e com frio. Mas nas ltimas dez horas se havia formado um vazio ao seu redor, um
        escudo protetor que fazia com que tudo o que visse lhe parecesse muito distante. At a
        dor fsica parecia estranhamente atenuada. Esta manh tinha ferido um dedo no banheiro
        e apenas havia sentido um latejar distante. Na noite anterior, a dor a tinha vencido ao
        desligar o telefone. Agora somente estava aturdida. Baixou a vista e notou pela primeira
        vez o quanto estava mal vestida. As roupas no combinavam entre si. Sem dvida,
        inconscientemente, havia optado por peas que a consolavam: sua saia de l cinza favorita,
        um pulver velho, sapatos marrons para andar. A vida se havia mostrado terrvel de
        repente e precisava do consolo de coisas familiares.
              O interfone da secretria tocou e se ouviu uma voz.
               Angie? Faa entrar a senhora Fontaine.
               Sim, senhor O'Hara.  Angie fez um sinal para Sarah. J pode entrar.
              A jovem colocou os culos, ps-se de p e entrou depressa. Ao cruzar a porta, se
        deteve sobre o grosso tapete e olhou com calma o homem do outro lado da mesa.
              Estava de p em frente  janela, por onde entrava um sol ofuscante, que a princpio
        deixou entrever apenas sua silhueta. Era alto e esbelto, e seus ombros se inclinavam
        levemente para frente; parecia cansado. Afastou-se da janela e foi ao seu encontro. Sua
        camisa azul estava amassada e havia afrouxado a gravata.
               Senhora Fontaine  disse  Sou Nick O'Hara.
        Estendeu a mo em um gesto que Sarah achou demasiadamente automtico, formalidade
        que sem dvida dirigia a todas as vivas. Mas seu aperto era firme.
              Voltou-se para a janela e a luz caiu em seu rosto. A jovem viu traos longos, delgados,
        uma mandbula angulosa e uma boca sria. Calculou que teria perto dos quarenta anos.
        Seu cabelo castanho escuro estava tornando-se grisalho nas tmporas. Sob seus olhos
        castanhos se viam olheiras.
              Sentou-se na cadeira que lhe indicava e viu pela primeira vez que havia uma terceira
        pessoa na sala, um homem de culos e barba escura que estava sentado, em silncio. No
        o tinha visto passar antes pela recepo.
              Nick se apoiou na borda da mesa e a olhou.
               Sinto muito por seu marido, senhora Fontaine.  disse com gentileza. Uma notcia
        terrvel, eu sei. A maioria das pessoas no acredita quando telefonamos. Gostaria de
        encontr-la porque tenho algumas perguntas pendentes. E suponho que este senhor
        tambm  apontou o homem de barba com a cabea. No se importa que o senhor
        Greenstein nos oua, no ?
              A jovem encolheu os ombros.
               Ns dois somos funcionrios  continuou Nick.  Eu, em assuntos diplomticos e ele
        na diviso de apoio tcnico.
               Entendo  estremeceu. Voltou a ter calafrios e a garganta estava dorida. Perguntou-
        se porque fazia tanto frio nos escritrios do Governo.
               A senhora est bem?
              A mulher olhou Nick com ar miservel.
               Est frio aqui.
               Gostaria de uma xcara de caf?
               No, obrigado. Por favor, apenas quero saber de meu marido. Ainda no posso
        acreditar, senhor O'Hara. No deixo de pensar que h um engano.
              O homem assentiu, compreensivo.
                uma reao comum.
               Realmente?
               Negao. Todos passam por isso.
               Mas o senhor no pede a todas as vivas que venham ao seu escritrio, no ? Tem
        que haver algo diferente com Geoffrey.
               Sim.  admitiu. Realmente h.
              Voltou-se e pegou numa pasta sobre a mesa.
              Dela tirou uma pgina coberta de anotaes.
               Depois de falar com a senhora, contatei nosso consulado em Berlim, senhora
        Fontaine. O que me disse  noite me impulsionou a comprovar de novo os dados.  fez
        uma pausa e ela o olhou em expectativa. Falei com Wes Corrigan, nosso cnsul em Berlim.
        E isto foi o que ele me disse  olhou suas anotaes. Ontem s vinte horas um homem
        chamado Geoffrey Fontaine chegou ao hotel Regina. Pagou com cheques de viagem e
        mostrou seu passaporte. Umas quatro horas depois,  meia noite, os bombeiros
        responderam a uma ligao do hotel. O quarto de seu esposo estava em chamas. Quando
        conseguiram controlar o fogo, o hotel estava completamente destrudo. A explicao
        oficial foi que ele tinha dormido enquanto fumava na cama. Temo que o corpo de seu
        marido tenha ficado irreconhecvel.
               Ento, como podem estar seguros de que era ele?  perguntou Sarah, que at
        ento ouvia tudo num desespero crescente.  Algum pode ter roubado seu passaporte.
               Deixe-me terminar, senhora.
               Mas acaba de me dizer que no puderam identificar o corpo.
               Tentemos ser lgicos.
               Eu sou lgica.
               Veja,  normal que as vivas se agarrem a qualquer possibilidade, mas...
               Entretanto no estou convencida de ser viva.
              O homem ergueu as mos, frustrado.
               Certo, certo, examinemos as provas. Primeiro, no quarto encontraram uma maleta.
        Era de alumnio, resistente ao fogo.
               Geoffrey no tinha nada assim.
               O contedo resistiu ao incndio. O passaporte de seu marido estava l dentro.
               Mas...
               Logo, est no relatrio forense, a altura do corpo  a mesma que a de seu esposo.
               Isso no significa nada.
               E, por fim...
               Senhor O'Hara...
               E, por fim,  continuou ele, com uma firmeza repentina  temos uma ltima prova.
        Algo que encontraram no corpo. Uma aliana. A inscrio dizia: Sarah, 14-2  levantou a
        vista da pgina.  a data de seu casamento, correto?
              Os olhos dela se encheram de lgrimas. Baixou a cabea em silncio. Os culos
        escorregaram pelo seu nariz e caram no seu colo. Nick O'Hara lhe estendeu uma caixa de
        Kleenex.
              Use o que precisar  disse com suavidade.
             A observou assuar o nariz. Sarah, sob seu exame, se sentia entorpecida e estpida.
        At os dedos se negavam a funcionar bem. Os culos escorregaram para o cho. Levantou-
        se da cadeira, desejosa de sair dali.
              Por favor, senhora, sente-se. Ainda no terminei.  disse ele.
             Sarah voltou a sentar-se como uma criana obediente. Olhou o cho.
              Se for pelo funeral...
              No, j se ocupar disso quando chegar o corpo. Preciso perguntar-lhe algo sobre a
        viagem de seu esposo. Por que foi para a Europa?
              Negcios.
              Que tipo de negcios?
              Era representante do Banco de Londres.
              E viajava muito?
              Sim, ia todos os meses a Londres.
              Apenas a Londres?
              Sim.
              Digam-me, por que estaria na Alemanha, senhora Fontaine?
              No sei.
              Tinha o costume de lhe dizer onde ia?
              No.
              E por que estaria na Alemanha? Havia alguma razo que no fossem os negcios?
        Outra...?
        A mulher levantou a cabea bruscamente.
              Outra mulher?  isso que quer me perguntar, no ?  Nick no contestou.
               uma hiptese razovel.
              No com Geoffrey.
              Com todo mundo  olhou-a nos olhos. Tinham dois meses casados  disse-lhe.
        Conhecia muito bem seu marido?
              Conhec-lo? Eu o amava, senhor O'Hara.
              Eu no falo de amor, seja l o que isso signifique. Eu pergunto se o conhecia bem.
        Se sabia quem ele era, o que fazia. H quanto tempo se conheciam?
              Desde... fazem seis meses. O conheci numa lanchonete perto de meu trabalho.
              Onde trabalha?
              No Instituto Nacional da Sade. Sou microbiloga investigadora.
             O homem estreitou os olhos.
              Que tipo de investigao?
              Genomas de bactrias... Separamos a DNA... Qual o motivo destas perguntas?
               um trabalho de investigao secreto?
              Ainda no compreendo o que...
              ?
              Sim. Algumas partes sim.
             O homem assentiu e tirou outra folha da pasta.
              Pedi ao senhor Corrigan que comprovasse o passaporte de seu marido. Quando se
        entra em um pais novo, colocam uma data e um selo do pas. O passaporte de seu marido
        tem vrios selos. Londres, Schiphol, perto de Amsterd e Berlim. Todos na ltima semana.
        Alguma explicao sobre o motivo que o levou a esses lugares?
              Sarah negou com a cabea.
               Quando falou com ele pela ltima vez?
               Faz uma semana. Desde Londres.
               Pode assegurar que ele estava em Londres?
               No. Telefonou em uma chamada direta.
               Seu marido tinha seguro de vida?
               No que eu saiba. Nunca disse nada a respeito.
               Algum beneficiaria com sua morte? Economicamente, me refiro.
               No acho.
              Nick franziu o cenho. Cruzou os braos e apertou a vista um momento. Sarah quase
        podia v-lo assimilando os dados, juntando as partes do enigma. Estava to perplexa
        quanto ele. Aquilo no fazia sentido. Geoffrey havia sido seu marido. E de repente
        comeava a perguntar-se se Nick O'Hara no teria razo, quando disse que nunca o tinha
        conhecido. Que apenas haviam compartilhado uma casa e uma cama, mais seus coraes.
              No, isso seria trair a sua memria. Ela acreditava em Geoffrey. Por que fazer caso
        deste desconhecido?
               Se j terminou...  disse, fazendo meno de levantar-se.
              Nick a olhou sobressaltado, como se tivesse esquecido-se de sua presena.
               No, ainda no.
               No me sinto bem. Gostaria de ir para casa.
               Tem uma foto de seu marido?  perguntou bruscamente.
              Sarah, tomada de surpresa, abriu a bolsa e tirou uma foto de sua carteira. Era uma
        boa foto de Geoffrey, tirada na Flrida durante a lua de mel. Seus olhos azuis olhavam
        diretamente para a cmera. Seu cabelo era dourado e brilhante e a luz do sol caa-lhe em
        ngulo, provocando sombras em seus traos atraentes. Sorria. Sarah tinha sido atrada
        desde o princpio por aquele rosto, no apenas por sua beleza, mas tambm pela fora e
        inteligncia que havia visto em seus olhos.
              Nick O'Hara estudou a foto sem comentrios. Sarah pensou que era muito diferente
        de Geoffrey. Cabelo escuro e rosto srio. Perguntou-se em que pensaria ele neste
        momento.
              Seus olhos eram de um cinza impenetrvel. Passou por um momento a foto ao
        senhor Greenstein e ele logo a devolveu em silncio.
              A jovem fechou a bolsa e o olhou.
               Por que me pergunta tudo isto?
               Tenho que faz-lo. Sinto muito, mas  necessrio.
               Para quem?  perguntou ela, tensa. Para voc?
               Para a senhora tambm. E talvez para Geoffrey.
               Isso no tem sentido.
               Tomara que tenha quando conhecer as circunstncias de usa morte.
               O senhor disse que foi um acidente.
               Disse que parecia um acidente  a observou com ateno.  Quando falei depois
        com o senhor Corrigan, j tinham mais detalhes. Durante a investigao do fogo,
        encontraram uma bala entre os restos do colcho.
             A jovem o olhou incrdula.
              Uma bala? Quer dizer...
             Nick assentiu.
              Acreditam que ele foi assassinado.
        
        
             Dois
        
        
              Sarah queria falar, mas a voz no lhe obedecia. Permaneceu quieta em sua cadeira,
        como uma esttua, incapaz de movimentar-se ou fazer outra coisa que no fosse olhar
        para ele, fixamente.
               Pensei que deveria saber disso  disse Nick. Teria que dizer, porque precisamos de
        sua ajuda. A polcia de Berlim quer informaes sobre as atividades de seu marido, seus
        inimigos... A possvel causa de sua morte.
              A jovem balanou a cabea.
               No me ocorre... No sei se... Meu Deus!  sussurrou.
              O leve toque da mo em seu ombro a sobressaltou. Levantou a vista e viu que ele a
        olhava com preocupao. Pensou que ele temia que ela desmaiasse e afastou a mo dele
        com raiva. No precisava da compaixo fingida de ningum. Queria estar sozinha... Longe
        dos burocratas e suas pastas impessoais. Levantou-se com as pernas bambas.
              Nick a tomou pelo brao e gentilmente f-la sentar-se.
               Por favor, senhora Fontaine. S preciso de um minuto mais.
               Deixe-me ir.
               Senhora Fontaine...
               Deixe-me ir!
              A fora de sua voz o surpreendeu. A soltou, mas no se afastou.
               Sinto muito  disse. No era minha inteno aborrec-la. Temi que...
               Sim?  olhou seus olhos cinza e algo, que encontrou neles, fez com que de repente
        quisesse acreditar nele, apesar de tudo. No vou desmaiar  disse. Por favor, dei-me ir
        para minha casa.
               Claro, com toda certeza. Mas ainda tenho algumas perguntas.
               No tenho mais nenhuma resposta. No entende isso?
              O homem ficou em silncio por um momento.
               Entrarei em contato com a senhora mais tarde  disse por fim. Temos que decidir
        sobre o corpo.
               Ah, sim, o corpo  se ps de p, pestanejando para reprimir as lgrimas.
               Pedirei que o carro a leve em casa  se aproximou dela devagar, como se temesse
        assust-la. Sinto muito por seu esposo. De verdade. No hesite em me telefonar se quiser
        fazer alguma pergunta.
              Sarah sabia que aquelas palavras no eram sinceras. Nicholas O'Hara era um
        diplomata que dizia o que lhe haviam ensinado a dizer. Certamente tinha repetido o
        mesmo a uma centena de vivas diferentes.
              Parecia que ele esperava alguma resposta, e ela lutou para recuperar a compostura e
        estendeu a mo, agradecendo. Em seguida, se voltou e saiu pela porta.
               Acredita que ela saiba de algo?
              Nick olhou a porta que acabava de se fechar atrs de Sarah Fontaine.
               O que?  perguntou a Tim.
               Que seu marido era um espio?
               Isso ns no podemos afirmar.
               Vamos, Nick. Tudo isto cheira a espionagem. Geoffrey Fontaine no existia at
        cerca de um ano. Logo, aparecer seu nome num nmero de seguro social, certido de
        casamento, um passaporte e sabe-se l o que mais. O FBI nada sabe a respeito. Mas os
        agentes da Inteligncia possuem arquivos sobre ele. Acha que sou ingnuo?
               O maior ingnuo sou eu  grunhiu Nick, aproximando-se de sua cadeira e sentando-
        se.
        Que demnio era Geoffrey Fontaine?
              Inclinou a cabea para trs. Estava esgotado. Mas no podia tirar o caso da mente.
              Quando viu Sarah entrar em seu escritrio, ficou surpreso. Esperava uma mulher
        mais sofisticada. Seu marido era um viajante de primeira classe, um tipo que se movia
        entre Londres, Berlim e Amsterd. Os homens assim tinham esposas esbeltas e elegantes.
        Mas Sarah era uma criatura magra e nervosa, e no podia-se dizer que fosse bonita. Seu
        rosto era muito anguloso, mas altas e salientes, nariz estreito, testa quadrada suavizada
        pela franja. Seu cabelo longo tinha uma cor marrom exuberante. Seus culos de aro de
        chifre eram engraados. Emolduravam os olhos mbar, que eram o trao mais atraente de
        seu rosto. Sem maquiagem e de compleio delicada, parecia muito mais jovem que seus
        trinta anos.
              No, no era exatamente bonita. Mas durante a entrevista, Nick se surpreendera
        olhando seu rosto e pensando em seu casamento. E nela. Tim se ps de p.
               Bem, isso tudo me deixou faminto. Vamos  lanchonete.
               No, vamos embora. Passei toda a manh sentado aqui e vou acabar ficando louco
         Nick pegou seu palet e saram juntos at a escada.
              Um vento primaveril afagou seus rostos quando saram para a rua. As cerejeiras
        comeavam a florir. Mais uma semana e toda a cidade estaria coberta de flores rosas e
        brancas. Era a primeira primavera que Nick passava em Washington em oito anos e, tinha-
        se esquecido como era charmoso passear entre as rvores. Enfiou as mos nos bolsos e se
        inclinou um pouco contra o vento.
               Onde vamos?  perguntou Tim.
               Ao Mary Jo's.
               O restaurante de saladas? Est de regime?
               No, mas esse  um lugar tranquilo. No quero muito barulho.
              Pouco depois estavam sentados no restaurante. A garonete serviu as suas saladas.
        Tim olhou a alface da sua e suspirou.
               Isto  comida para coelhos. Prefiro mil vezes um hambrguer sangrento  olhou o
        amigo. Vamos. O que o preocupa? Seu novo cargo j o deixou deprimido?
                uma bofetada.  disse o outro. Terminou seu caf e acenou para a garonete
        servir-lhe outro. Deixar de ser o nmero dois em Londres e passar a mexer com papelada
        em Washington.
               E por que no se demite?
               Talvez o faa. Desde o fiasco em Londres, minha carreira no vale muito. E agora
        tenho que suportar este bastardo do Ambrose.
               Continua fora?
               Mais uma semana. At ento pude trabalhar do meu jeito. So tantas tolices
        burocrticas. Juro que se voltar a trocar um de meus relatrios para adequarmos as
        "normas da administrao", vou vomitar.
               Seu problema  que voc  competente e no  de rodeios como os demais. Eles
        no gostam de quem no conseguem entender. Alm disso, voc  liberal.
               Voc tambm.
               Mas eu sou o monstrinho da informtica. E se no me tolerassem, lhes fecharia os
        computadores.
              Nick soltou uma gargalhada. Fazia muito tempo que conhecia Tim. Quatro anos
        dividindo o dormitrio na universidade haviam formado vnculos fortes.
               Que vai fazer com o caso Fontaine?  perguntou seu amigo quando comearam a
        comer a sobremesa.
               Investigar um pouco.
               Vai comunicar isso a Ambrose? Ele gostaria de saber. E tambm a CIA, se  que j
        no sabem.
               Que descubram sozinhos. Esse  meu caso.
               A mim, soa a espionagem. Isso no  exatamente um assunto diplomtico.
              Mas Nick no gostava da ideia de entregar Sarah Fontaine a um agente da CIA. Ela lhe
        parecia muito frgil.
                meu caso  repetiu.
              Tim sorriu.
               Ah, a viva. Ser que ela faz seu tipo? Ainda no entendo a atrao. O que no
        entendo, na verdade,  como conseguiu esse marido. Ele era um Apolo loiro. No  o tipo
        de homem que fique com mulheres de culos. Eu deduzo que se casou por ela por razes
        que no as normais.
               E quais as razes normais? Amor?
               No. Sexo.
               Que diabo quer dizer?
               Humm. Que sensvel. Voc gostou dela, hein?
               Sem comentrios.
               Me parece que sua vida amorosa tem estado muito deserta, desde o divrcio.
              Nick colocou a xcara de caf na mesa bruscamente.
               Para qu tantas perguntas?
               Apenas quero ver onde est com a cabea. No compreende? Agora precisamos
        que os homens confiem uns nos outros.
              Nick suspirou.
               No me diga. Voc est fazendo outro desses cursos para aumentar a sensibilidade.
               Sim. So locais estupendos para se conhecer mulheres. Deveria experimentar.
               No, obrigado. A ltima coisa que preciso  unir-me a um grupo cheio de mulheres
        neurticas.
              Tim olhou o amigo com pena.
               Tem que fazer alguma coisa. No pode continuar solteiro o resto de sua vida.
               Por que no?
              Tim soltou uma gargalhada.
               Porque ns dois sabemos que voc nunca foi, necessariamente, um santo.
              Claro que ele tinha razo. Nos quatro anos desde sua separao com Lauren, Nick
        tinha evitado qualquer relao ntima com mulheres, e isso comeou a mudar seu jeito.
        Estava cada vez mais irritadio. Havia tentado salvar o que restava de sua carreira, mas
        tinha descoberto que o trabalho era um pobre substituto para o que realmente queria: um
        corpo quente e suave para abraar; sorrisos  noite; pensamentos compartilhados na
        cama. Havia aprendido a viver sem tudo isso para no expor-se a sofrer novamente. Era o
        nico modo de conservar a sanidade. Mas seus velhos instintos de homem no morriam
        facilmente. No, ele no era nenhum santo.
               Tem noticias de Lauren?  perguntou Tim.
              Nick fez um trejeito.
               Sim. Ms passado. Disse que sente a minha falta. Acho que ela sente a falta  da
        vida nas embaixadas.
               Bem, ela te telefonou. Parece promissor. Pode haver reconciliao.
               Sim? Pois para mim pareceu que sua ltima aventura no ia muito bem.
               Mas parece que ela lamenta o divrcio. Ficou com ela?
               No. No tive vontade.
              Tim tornou a rir.
               Quatro anos chorando por seu divrcio e agora me diz isso.
               Olha, sempre que algo vai mal, ela procura o bom Nick. J no posso suportar mais.
        Disse-lhe que j no estava disponvel. Nem para ela, nem para ningum.
              Tim sacudiu a cabea.
               Voc renunciou as mulheres. Isso  um pssimo sinal.
               Nunca ningum morreu disso  resmungou Nick. Deixou algumas notas sobre a
        mesa e se levantou. No queria pensar em mulheres neste momento.
              Embora, uma vez fora, passeando entre as cerejeiras, se surpreendeu pensando em
        Sarah Fontaine. No na viva, mas na mulher.
              Afastou-a de seus pensamentos. Era a ltima mulher em Washington em quem
        deveria pensar. A objetividade era necessria em seu trabalho. E tinha que preserv-la.
        
        Amsterd
        
        
             O velho gostava de rosas. Gostava do perfume de suas ptalas, que esmiuava entre
        os dedos. Frias e cheirosas... E no como as inspidas tulipas que seu jardineiro plantara
        perto do tanque de peixes. As tulipas eram totalmente cor e pouca personalidade. Mas as
        rosas persistiam, inclusive no inverno, nuas e com espinhos, como velhas raivosas
        encolhidas contra o frio.
        Se deteve entre as roseiras e respirou fundo, desfrutando o aroma da terra molhada. Uma
        semana mais e abririam as flores. Como sua esposa tinha amado aquele jardim.
              Est frio  disse uma voz em holands.
             O velho olhou para o homem jovem de cabelos loiros que avanava entre os
        arbustos.
              Kronen. Finalmente chegou.
              Desculpe. No pude vir antes  Kronen tirou os culos e olhou o cu. Como de
        costume, evitava olhar diretamente o rosto do velho. Desde o acidente, todos evitavam
        olh-lo, e isso o irritava. Havia cinco anos que ningum o olhava nos olhos. At Kronen, a
        quem havia chegado a considerar um filho, se esforava para olhar para o outro lado.
        Todavia, os jovens da gerao de Kronen sempre davam demasiada importncia ao
        aspecto fsico.
              Suponho que tudo correu bem em Basra  disse o velho.
              Sim. Um pequeno atraso, nada mais. Soube de problemas com o ltimo
        carregamento... Os chips eletrnicos no mecanismo de navegao. Um dos msseis no
        funcionou.
              Embaraoso.
              Sim. Mas j falei com o fabricante.
             Seguiram por um atalho entre as rosas at o tanque dos patos. O velho apertou o
        cachecol ao redor do pescoo para proteger-se do ar frio.
              Tenho um trabalho para voc.  disse. Uma mulher.
             Kronen se deteve com o interesse transparecendo em seu olhar. Seu cabelo parecia
        quase branco sob os raios do sol.
              Quem ?
              Se chama Sarah Fontaine. A esposa de Geoffrey Fontaine. Quero que descubra
        aonde ela te levar.
             Kronen franziu a testa.
              No compreendo senhor. Disseram-me que Fontaine foi morto.
              Siga-a, de qualquer maneira. Meu informante americano me disse que tem um
        apartamento simples em Georgetown.  microbiloga, trinta e dois anos. Apesar de seu
        casamento, no parece ter relao com a espionagem, mas nunca se pode ter certeza.
              Posso falar com esse informante?
              No. Sua posio  muito... Delicada.
             Kronen assentiu. Continuaram andando pelas margens do tanque. O velho tirou um
        pedao de po do bolso, jogou um punhado de migalhas na gua e observou os patos
        aproximarem-se. Quando sua esposa Nienke era viva, vinha todas as manhs dar de comer
        aos patos. Preocupava-se que os mais dbeis no comessem o bastante.
             E agora ele dava comida aos patos, no que se importasse, mas apenas porque ela
        gostava deles. Terminou de jogar o po na gua e sacudiu as mos.
             O tanque havia adquirido um tom cinza. Onde tinha se metido o sol?
              Quero saber mais sobre essa mulher  disse, sem olhar Kronen. Logo.
               claro.
              Deve tomar cuidado em Washington. Sei que existem muitos criminosos ali.
              Kronen soltou uma gargalhada.
              Tot ziens, meneer.
             O velho assentiu.
              At breve.
              O laboratrio em que Sarah trabalhava estava imaculado. Os microscpios estavam
        limpos, as bancadas e pias foram minuciosamente desinfetadas, as cmaras de incubao
        eram limpas duas vezes ao dia. Seu trabalho requeria uma grande higiene. Mas nesse dia,
        ao sentar-se em seu banco, teve a impresso de que a sua vida estava esterilizada como
        tudo aquilo.
              Tirou os culos e piscou com cansao. Havia ao inoxidvel por todo lado. As luzes
        eram duras e fluorescentes. Nem janelas, nem raios de sol. L fora tanto poderia ser dia
        quanto noite, e ela no notaria a diferena. Excetuando-se o zumbido do frigorfico, o
        laboratrio estava silencioso.
        Tornou a por os culos e se inclinou at o microscpio. Do corredor chegou o som de
        saltos. A porta se abriu.
               Sarah? Que faz aqui?
              A jovem olhou sua amiga Abby Hicks, que, com o seu jaleco tamanho 44, ocupava
        quase todo o umbral.
               Apenas quero colocar algumas coisas em dia.  respondeu. Acumulou-se tanto
        trabalho desde que no estou...
               Oh, por tudo que  sagrado. O laboratrio pode arranjar-se sem voc umas
        semanas. J so oito horas. Vou revisar as culturas. Volte para casa.
               No sei se quero  murmurou Sarah.  Est to silenciosa. Quase prefiro estar aqui.
               Pois isso  to animado quanto uma tumba...  Abby mordeu o lbio e corou.
        Apesar de seus 55 anos, podia ruborizar como uma colegial.  Desculpe.
              Sarah sorriu.
               No  nada.
              Ficaram em silncio um momento. Sarah se levantou e abriu a incubadora para
        guardar a bandeja de amostras na qual estivera trabalhando.
               Como est?  perguntou Abby com gentileza.
              Sarah se voltou para a amiga.
               Levando, suponho.
               Todos sentimos a sua falta. At o velho Grubb disse que isto no  o mesmo sem
        voc e sua garrafa de desinfetante. Creio que todos tm receio de lhe telefonar. Suponho
        que no saibam como tratar com a dor. Mas nos importamos, Sarah.
              A jovem assentiu, agradecida.
               Sim, eu sei. E agradeo a todos os assados, os cartes e flores. Agora tenho que
        voltar  normalidade.  olhou ao redor com tristeza.  Pensei que precisava voltar a
        trabalhar.
               Certas pessoas precisam da velha rotina. Outros tm que afastar-se por um tempo.
         Talvez devesse fazer isso. Sair de Washington um tempo. Afastar-me de todos os lugares
        que me fazem lembrar ele.  engoliu e tentou sorrir.  Minha irm pediu que eu v ao
        Oregon. Faz anos que no vejo meus sobrinhos. J devem estar crescidos.
               Pois v. Ainda no se passaram duas semanas. Tem que se dar algum tempo. Visite
        sua irm. Chore um pouco mais.
               Levei muitos dias chorando. Entretanto, no pude suportar ver sua roupa
        pendurada no armrio.  moveu a cabea. No  s perd-lo que me di.  todo o resto,
        tambm.
               A parte de Berlim.
               Sim. No quero pensar demais, por isso vim aqui essa noite.  olhou ao redor. Mas
         estranho. Antes adorava esse lugar. Agora me pergunto como pude aguentar seis anos.
        Todos esses armrios frios e pias de ao. Sinto que no posso respirar.
               Mas sempre gostou de seu trabalho. Deve ser outra coisa.
               No posso imaginar-me trabalhando aqui a vida toda. Geoffrey e eu passamos
        pouco tempo juntos. Trs dias de lua de mel e nada mais. Logo tive que voltar correndo
        para terminar aquele maldito projeto. Sempre estvamos ocupadssimos, sem tempo para
        frias. Agora no teremos outra oportunidade.  aproximou-se do seu banco e apagou a
        lmpada do microscpio.  E nunca saberei por que...  sentou-se sem terminar a frase.
               Ouviu algo mais do Departamento de Estado?
               Esse homem me telefonou ontem. A polcia de Berlim liberou finalmente o corpo.
        Chegar amanh.  seus olhos se encheram de lgrimas.  O enterro ser sexta-feira. Voc
        ir?
               Claro que sim. Iremos todos. Eu te levarei, certo?  se aproximou e colocou uma
        mo em seu ombro  Ainda est tudo muito recente. Tem todo o direito do mundo de
        chorar.
               Existem tantas coisas que eu nunca entenderei sobre a sua morte!
               No ficaram muito tempo casados. Meu marido e eu passamos trinta anos juntos,
        antes de nos separarmos, e nunca cheguei a conhec-lo. No me surpreende que voc no
        saiba tudo sobre Geoffrey.
               Mas era meu marido.
              Abby ficou em silncio um momento.
               Sabe  disse, hesitante  sempre houve algo nele que... Sempre tive a sensao de
        que nunca chegaria a conhec-lo.
               Era tmido.
               No era s isso. Era como se... No quisesse se trair. Como se...  olhou para Sarah.
        Oh, no importa.
              Mas sua amiga pensava que existia algo muito preciso naquela observao. Geoffrey
        nunca falava muito de si mesmo. Sempre parecia mais interessado nela, em seu trabalho,
        seus amigos. Quando se conheceram, esse interesse fora lisonjeiro. Era o primeiro homem
        que conhecia que a escutava de verdade.
              Pensou em Nick O'Hara e o modo como a havia observado. Sim, ele tambm
        escutara. Mas esse era o seu trabalho. E no queria pensar nele. No desejava voltar a v-
        lo.
              Colocou a capa plstica sobre o microscpio.
               Acho que vou para casa.
              Abby aprovou com a cabea.
               Bom. No tem sentido se enterrar aqui. Esquea o trabalho por um tempo.
               Est certa de que segura as pontas sem mim?
               Claro.
              Sarah tirou a bata branca e a pendurou atrs da porta.
               Talvez me d um tempo livre depois do funeral. Uma semana mais. Ou talvez um
        ms.
               Nem tanto  disse Abby. Queremos voc de volta.
              Sarah olhou ao redor mais uma vez.
              Voltarei  disse. Mas no sei quando.
        
        
              O caixo deslizou pela rampa e aterrou na plataforma com um rudo surdo que fez
        Nick estremecer.
               Senhor O'Hara? Assine aqui, por favor.
              Um homem com uniforme da empresa area lhe estendia alguns papis. Nick
        examinou os documentos, os assinou e os devolveu. Olhou quando carregaram o caixo
        at ao carro fnebre. No queria pensar em seu contedo, mas s vezes no conseguia
        evit-lo. Um corpo irreconhecvel?
              Afastou de si a imagem. Precisava de uma bebida. J podia ir para casa. O carro
        fnebre partiria at uma funerria e Sarah Fontaine estava encarregada a partir dali.
        Pensou que talvez deveria lhe telefonar uma ltima vez. Mas para que? Mais
        condolncias? J havia cumprido sua parte. No restava nada a dizer.
              Quando chegou ao seu apartamento, jogou sua maleta sobre o sof e foi para a
        cozinha, onde se serviu de uma dose generosa de usque e colocou o jantar preparado no
        forno. A campainha do interfone o assustou. Deu-se conta de que precisava de companhia.
        Qualquer companhia. Pegou no aparelho.
               Nick?  Tim. Abra.
               Certo. Suba.
              Abriu a porta. Procurou no congelador e ficou aliviado ao encontrar mais dois pratos
        congelados. Colocou outro no forno. Foi at a porta e esperou que o elevador se abrisse.
               Preparado?  perguntou Tim, logo que o viu.  Adivinha o que descobri com meus
        amigos do FBI.
              Nick suspirou.
               Tenho medo de perguntar.
               Lembra-se de Geoffrey Fontaine? Pois ele est morto, sim.
               E o que tem isso de novo?
               No, me refiro ao verdadeiro Geoffrey Fontaine.
               Oua  disse Nick. Praticamente encerramos este caso. Mas se quiser ficar e
        jantar...
              Tim o seguiu para dentro do apartamento.
               O verdadeiro Geoffrey Fontaine morreu faz quarenta e dois anos.
              Nick se voltou e o olhou diretamente nos olhos.
               Sim  exclamou Tim. Sabia que isso atrairia sua ateno.
        
        
             Trs
        
              O dia cheirava a flores. Sobre a grama, aos ps de Sarah, havia um monte de cravos,
        gladolos e lrios. Este cheiro lhe provocaria nuseas pelo resto da vida.
              Sempre lhe recordariam aquela colina, as lpides entre a relva e a nvoa que cobria o
        vale abaixo. Sobretudo, recordar-se-ia da dor. Tudo o mais... As palavras do ministro, o
        aperto da mo de Abby no seu brao, as gotas da chuva fria sobre o rosto... Apenas o
        sentia.
              Forou-se a olhar o buraco escuro na terra a seus ps e, fixou o olhar na colina do
        outro lado do vale. Atravs da neblina adivinhava-se um leve tom rseo. As cerejeiras
        estavam em flor. Mas a viso a entristeceu ainda mais. Geoffrey no veria aquela
        primavera.
              A voz do ministro se tornou num zumbido irritante. A chuva embaciou os culos de
        Sarah; a neblina se tornava mais forte, afastando-a do mundo. Um movimento repentino
        de Abby a devolveu  realidade. Haviam descido o caixo. Viu que todos a olhavam,
        esperando. Eram seus amigos, mas com a dor apenas os reconhecia. At Abby lhe parecia
        uma estranha neste momento.
        Agachou-se automaticamente e tomou um punhado de terra. Estava molhada e cheirava a
        chuva. Atirou-a no tmulo. O barulho sobre o caixo lhe causou um sobressalto. Os rostos
        passaram perante ela como fantasmas na nvoa. Seus amigos falavam suavemente, mas
        ela no prestava ateno. O cheiro das flores invadia seus sentidos, e no teve conscincia
        de mais nada, at que olhou ao redor e viu que todos haviam ido. Apenas ela e Abby
        ficaram em frente ao tmulo.
               Est comeando a chover mais forte  disse sua amiga.
              Sarah ergueu os olhos e viu as nuvens que desciam sobre elas como um manto frio de
        prata. Abby lhe passou um brao pelos ombros e conduziu-a at ao estacionamento.
               Ns duas precisamos de uma xcara de ch  disse. Era seu remdio preferido para
        tudo. Havia sobrevivido a um divrcio e a ida de seus filhos para a universidade,  base de
        Earl Grey.  Uma xcara de ch e poderemos conversar.
               Eu gostaria de um ch.  confessou Sarah.
              Continuaram a andar de braos dados.
               Sei que agora isso no significa nada para voc  disse Abby  mas a dor passar. Eu
        garanto. As mulheres so fortes quanto a isso. Temos que ser.
               E se eu no for?
               Voc . No h dvidas.
              Sarah balanou a cabea.
               Agora duvido de tudo. E de todos.
               No de mim, espero.
              A jovem olhou o rosto rechonchudo de Abby e sorriu.
               No. De voc no.
               Fico feliz. Quando chegar  minha idade, ver que tudo ...  se deteve de repente.
        Sarah seguiu a direo de seu olhar.
              Um homem se aproximava delas atravs da nvoa.
              Sarah olhou seu cabelo escuro e seu casaco cinza molhado. Era evidente que andara
        ao ar livre, certamente desde o funeral. O frio havia enrijecido seu rosto.
               Senhora Fontaine?
               Ol, senhor O'Hara.
               Sei que  um pssimo momento, mas levei dois dias tentando falar com a senhora.
        No respondeu minhas chamadas.
               No.
               Tenho que lhe falar. Ocorreu algo que creio que deveria saber.
               Sarah, quem  esse homem?  perguntou Abby.
              Nick voltou-se para ela.
               Nick O'Hara. Sou do Departamento de Estado. Se no se importa, gostaria de falar a
        ss, por um momento, com a senhora Fontaine.
               Talvez ela no queira falar com o senhor.
              O homem olhou para Sarah.
                importante.
              A jovem vacilou.
               Por favor, senhora Fontaine.
              Sarah assentiu.
               Estarei bem  disse a Abby.
               Mas no podem conversar aqui. Dentro em pouco chover a cntaros.
               Posso lev-la para casa  ofereceu Nick. Viu o olhar duvidoso de Abby   srio. No
        sou m pessoa. A tratarei bem.
              Abby abraou a amiga.
               Ligarei para voc esta noite. E tomaremos caf da manh juntas amanh.
              Seguiu de m vontade at ao seu carro.
               Parece uma boa amiga  comentou Nick.
               Trabalhamos juntas h anos no mesmo laboratrio.
              Nick olhou o cu, que estava escuro pelas nuvens.
               Sua amiga tem razo. Vai chover bastante. Vamos. Meu carro est logo ali.
              Tocou seu brao com delicadeza e ela se adiantou mecanicamente, deixando-se guiar
        at ao assento dianteiro do carro. Nick sentou-se a seu lado e fechou a porta.
              Permaneceram um momento em silncio. O veculo era um volvo velho, prtico e um
        modelo feito para transporte e nada mais. De alguma forma, combinava com ele. No
        interior fazia calor e os culos de Sarah embaciaram-se. Ela os tirou e voltou-se para olh-
        lo. Viu que seu cabelo estava molhado.
               Deve estar com frio.  disse ele. Irei lev-la para casa.
              Ligou o carro e uma rajada de ar saiu do sistema de aquecimento.
               Pela manh fazia um timo tempo  comentou a mulher, vendo a chuva cair.
                imprevisvel. Como tudo o mais.
              Guiou o carro at a estrada em direo  cidade. Era um motorista tranquilo, de mos
        firmes. Dos que sabem correr poucos riscos. Sarah se recostou no assento, desfrutando o
        ar quente.
               Por que no me ligou?  perguntou ele.
               Foi uma grosseria de minha parte. Me desculpe.
               No respondeu minha pergunta. Por qu?
               Porque no queria ouvir mais especulaes sobre Geoffrey nem sobre sua morte.
               Nem mesmo os dados?
               O senhor no me deu dados, senhor O'Hara. Apenas suposies.
              O homem olhava a estrada com ar sombrio.
               Agora tenho dados, senhora Fontaine. S me falta um nome.
               De que est falando?
               Seu marido. Disse que o conheceu h seis meses em uma lanchonete. Comearam a
        namorar e se casaram quatro meses depois. No  isso?
               Sim.
              No sei como dizer-lhe isto, mas o verdadeiro Geoffrey Fontaine morreu h
        quarenta e dois anos. Ainda criana.
             Sarah no pode acreditar no que ouvia.
              No compreendo...
             Nick no olhou para ela; continuou falando com os olhos fixos na estrada.
              O homem com quem se casou roubou o nome de uma criana morta.  muito fcil.
        Procura o nome de um bebe que morreu aproximadamente no mesmo ano que voc
        nasceu. Solicita uma cpia da certido de nascimento e com ela pode solicitar um carto
        de identidade e, o mesmo se faz com outros documentos. Transforma-se aquela criana
        num adulto. Uma nova identidade. Uma nova vida.
              Mas... Como sabe tudo isso?
              Atualmente, pode-se rastrear tudo com os computadores. Depois de algumas
        investigaes, descobri que Geoffrey Fontaine no fez o Servio Militar obrigatrio, nem
        frequentou nenhuma escola. Nem jamais teve qualquer conta bancria at um ano atrs,
        quando seu nome apareceu de repente numa dezena de lugares diferentes.
             Sarah ficou sem ar.
              Ento, quem ele era?  sussurrou por fim. Com quem me casei?
              No sei.
              Por qu? Por que quis comear uma vida nova?
              Tenho muitas teorias. A primeira coisa que pensei foi que o procuravam por algum
        crime. Mas passei suas digitais nos computadores do FBI e ele no era listado.
              Ento no era um criminoso.
              No havia provas de que fosse. Outra possibilidade era que estivesse em algum
        programa de proteo de testemunhas e lhe tivessem dado esse nome para proteg-lo.
        Para mim  difcil comprovar isso. Os dados so muito secretos. Ainda que isso nos desse
        um motivo para seu assassinato.
              Quer dizer que pode encontrar as pessoas contra quem ele testemunhou?
              Correto.
              Mas ele teria me dito.
              Por isso estou mais inclinado por outra possibilidade. Talvez voc pudesse
        confirm-la.
              Continue.
              E se o novo nome e vida de seu marido fossem parte de seu trabalho? Talvez no
        quisesse, mas foi enviado aqui.
              Quer dizer que ele era um espio  disse ela suavemente.
             Nick olhou-a e concordou com a cabea. Seus olhos eram to cinzas quanto as nuvens
        tempestuosas do lado de fora.
              No acredito.  disse ela. No acredito nisso.
               verdade. Garanto a voc.
              E por que me conta isso? Como sabe que no sou cmplice?
              Acredito que est limpa, senhora Fontaine. J pesquisei sua ficha...
              Oh! Tambm eu tenho uma ficha?
              Tiveram que investig-la para assumir seu cargo, lembra-se? Devido a isso, tem
        uma ficha.
              Claro.
               Mas isso no  apenas o que me faz pensar que est inocente. Tambm minha
        intuio. Convena-me de que estou certo.
               Como? Quer que eu passe pelo detector de mentiras?
               Comece falando-me sobre voc e Geoffrey. Eram apaixonados?
               Claro que ramos.
               Ento foi um casamento de verdade? Tinham... Relaes?
              A jovem enrubesceu.
               Sim. Como qualquer casal normal. Quer saber tambm com que frequncia?
        Quando?
               No a estou julgando. Estou arriscando meu pescoo por voc. Se no gosta de
        meus mtodos, talvez prefira a CIA.
               Nada foi dito a eles?
               No  ergueu o queixo em um gesto de afronta.  No gosto do jeito deles
        atuarem. Posso ser punido por isso.
               E por que se arrisca?
              Nick encolheu os ombros.
               Curiosidade. E talvez uma oportunidade para ver o que posso fazer sozinho.
               Ambio?
               Suponho que sim, em parte. Alm disso...  a olhou e seus olhos se cruzaram.
              Ficou em silncio.
               Alm disso, o qu?  perguntou ela.
               Nada
              A chuva deixava listras no para-brisa. Nick deixou a estrada e entrou no trfego da
        cidade. Sarah ficava nervosa de viajar pela cidade em horrios de pico, mas nesse dia
        sentia-se estranhamente segura. Tudo naquele homem transmitia segurana... A firmeza
        de suas mos no volante, o calor de seu carro, o timbre baixo de sua voz. Era fcil imaginar
        o quanto uma mulher devia se sentir confortada em seus braos.
               Mas j posso ver que teremos muitas perguntas sem respostas  disse ele. Talvez
        voc conhea algumas respostas.
               No tenho respostas.
               Comearemos pelo que sabe.
              A jovem balanou a cabea, confusa.
               Estive casada com ele e nem sequer conheo o seu verdadeiro nome!
               Todos, incluindo os melhores espies, cometem erros. Teve que baixar a guarda em
        algum momento. Talvez tenha dito algo que no conseguisse explicar. Pense.
              Sarah mordeu o lbio. No pensava em Geoffrey, e sim em Nick. Ele a havia
        balanado.
               Ainda que houvesse algo, certamente no lhe dei importncia.
               Por exemplo?
               Oh, creio que algumas vezes me chamou de Eve. Mas logo em seguida desculpou-
        se. Disse que era o nome de uma antiga namorada.
               E famlia? Amigos? Falava deles?
               Dizia que, nasceu em Vermont e cresceu em Londres. Seus pais eram gente de
        teatro. Esto mortos. Nunca falava de outros parentes. Sem parecia... Autossuficiente. No
        tinha amigos ntimos. Pelo menos, nunca me apresentou a ningum.
               Investiguei o seu trabalho. Aparecia na relao de funcionrios do Banco de
        Londres. Teria uma mesa em algum escritrio. Mas ningum se lembra do que ele fazia,
        exatamente.
               Ento talvez nem isso fosse real.
               Parece ser isso.
              Sarah afundou-se mais no assento. Queria chegar ao seu apartamento e tomar uma
        xcara de ch. Olhou pela janela. Connecticut Avenue brilhava sob a chuva. O vento havia
        arrancado metade das flores das cerejeiras; o primeiro sopro de primavera no havia
        durado muito.
              Pararam em frente ao seu prdio e Nick rodeou o carro para abrir-lhe a porta. Era um
        gesto curioso, igual aos de Geoffrey, galante e pouco prtico. Quando entraram no saguo
        estavam ambos encharcados. A chuva escorria pelos cabelos dele em riscos escuros na
        testa.
               Suponho que tenha mais perguntas  suspirou ela, avanando para a escada.
               Se est me perguntando se quero subir, a resposta  sim.
               Para tomar um ch ou para me interrogar?
              O homem sorriu.
               Um pouco dos dois. Custou tanto encontr-la que tenho que aproveitar.
              Chegaram ao segundo andar. A jovem estava a ponto de dizer algo, mas ficou
        paralisada. A porta de seu apartamento estava aberta.
              Recuou instintivamente, assustada com o que pudesse haver l. Tombou com Nick e
        lhe apertou um brao, sem palavras. O homem olhou a porta aberta com o rosto tenso. Da
        porta aberta escapava a luz do corredor.
              Nick fez-lhe sinal para permanecer onde estava e se aproximou da porta com
        cuidado. Sarah comeou a segui-lo, mas ele lhe lanou um olhar de advertncia, e ela
        recuou.
              O homem permaneceu alguns segundos no umbral, olhando o apartamento  frente.
        Depois, entrou.
              Sarah esperou no corredor, assustada pelo silncio absoluto. Que ocorria l dentro?
        Uma sombra apareceu no umbral, e a olhou com terror at que descobriu, aliviada, que se
        tratava de Nick.
               No h ningum aqui.  disse.
              A jovem entrou atrs dele. Parou na sala de estar, surpreendida pelo que via. Tinha
        esperado encontrar vazios os lugares onde estava a televiso e o aparelho de som. Mas
        no haviam tocado em nada. At o relgio antigo continuava em seu lugar na estante.
              Correu ao quarto com Nick atrs. Foi diretamente ao porta-joias na cmoda. Ali,
        sobre o veludo vermelho, estavam as suas prolas, como sempre. Fechou a caixa e
        examinou o quarto, a cama de casal, o criado com o abajur chins, o armrio.
              Olhou Nick, confusa.
               Que falta?  perguntou ele.
               Nada. Ser que eu deixei a porta aberta?
              O homem saiu do quarto para o corredor. Sarah o encontrou examinando o portal.
               Olhe  mostrou lascas de madeira e fragmentos de tinta branca.  Foi forada.
               Mas isso no faz sentido. Por que entrar em um apartamento e no levar nada?
               A menos que no tenham tido tempo  colocou-se de p. Voc parece abalada.
        Voc est bem?
               Estou... Surpresa.
              O homem tocou-lhe na mo.
               Est gelada.  preciso que troque essa roupa molhada.
               Estou bem, senhor O'Hara. De verdade.
               Vamos. Tire seu casaco  insistiu ele.  E sente-se enquanto dou uns telefonemas.
              Algo em seu tom de voz a levou a obedecer. Deixou que tirasse seu casaco e se
        sentou no sof. Tinha a sensao de haver perdido o controle de suas aes. De que, Nick
        O'Hara havia se apoderado de sua vida assim que entrou em seu apartamento.
              Ergueu-se em protesto e se dirigiu  cozinha.
               Sarah?
               Vou fazer um ch.
               No se incomode...
               No  incomodo. Creio que ambos precisamos disso.
              Da porta da cozinha o viu digitar um nmero. Quando colocou a gua para ferver,
        ouviu-o dizer:
               Quem ? Com Tim Greenstein, por favor.  Nick O'Hara. Sim, aguardo.
              A pausa que se seguiu pareceu eterna. Nick comeou a andar de um lado a outro,
        como um animal enjaulado. Primeiro tirou o sobretudo e depois afrouxou a gravata.
              Sua agitao parecia despropositada numa sala to pequena e organizada.
               No deveria chamar a polcia?  perguntou ela.
               O farei em seguida. Primeiro gostaria de ter uma conversa informal com o FBI. Se
        conseguir chegar a eles.
               Por qu?
               Tem algo nisso tudo que...
              O apito da chaleira abafou suas ltimas palavras. Sarah encheu o bule e levou a
        bandeja para a sala, onde Nick seguia esperando, ao telefone.
               Maldio!  murmurou para si.  Onde, diabos, estar Greenstein?
               Aceita um ch?
               Humm?  voltou-se para a xcara que ela lhe estendia.  Sim. Obrigado.
              A jovem sentou-se no sof com outra xcara.
               O senhor Greenstein trabalha para o FBI?  perguntou.
               No, mas tem um amigo que... Quem fala? Tim? J era tempo. Por que no atendia
        ao telefone?
              No silncio que se seguiu, o rosto de Nick e a tenso que seus ombros e costas
        disseram a Sarah que algo ia mal. Ele havia empalidecido.
               Com que diabos Ambrose soube de tudo?  perguntou, afastando-se de Sarah.
              Outro silncio. A mulher olhou suas costas, perguntando-se que tipo de catstrofe
        podia irritar tanto Nick O'Hara. At ento, parecia-lhe ser um homem no controle de suas
        emoes. Agora no. Sua fria a surpreendeu, ainda que, de certa maneira, tambm
        mostrava que ele era humano.
               Est bem  disse ao telefone.  Chegarei em meia hora. Oua, Tim, aconteceu algo
        mais. Arrombaram o apartamento de Sarah. No, no tocaram em nada. Pode me dar o
        nmero de telefone de seu amigo do FBI? Sim, sinto envolv-lo nisso, mas  virou-se para a
        jovem, preocupado.  Certo. Meia hora. Te vejo no escritrio de Ambrose  desligou com
        um sorriso.
               Que aconteceu?  perguntou ela.
               Assim terminaram oito anos gloriosos com o Departamento de Estado  murmurou
        ele. Pegou no seu palet com raiva e andou at  porta.  Tenho que ir. Entretanto, ainda
        tem o ferrolho. Use-o. Ou melhor, ainda, fique com uma amiga esta noite e chame a
        polcia. Ligarei quando puder.
              A mulher o seguiu at ao corredor.
               Mas...
               Mais tarde  gritou ele, por sobre o ombro.
              Atirou-se escada abaixo e Sarah fechou a porta, colocou o ferrolho e olhou ao redor.
              Os exemplares de Avanos em Microbiologia continuavam amontoados na mesa de
        centro. Na estante estava o vaso com ptalas de rosa. Tudo estava como sempre.
              No, nem tudo. Havia algo diferente. Mas no podia definir o que era.
              Demorou um pouco a descobrir. Havia um espao vazio na estante. Faltava a foto de
        seu casamento.
              Um grito de raiva saiu de sua garganta. Pela primeira vez, desde que entrara, sentiu
        raiva por terem invadido a sua casa. Era apenas uma fotografia, dois rostos felizes sorrindo
        para a cmera, mas era o seu bem mais importante. O nico que ficara de Geoffrey. Ainda
        que seu casamento tivesse sido mera iluso, no queria jamais esquecer como o havia
        amado. De todas as coisas que havia no apartamento, por que ser que algum levaria a
        fotografia?
              A campainha do telefone a assustou. Certamente seria Abby, que tinha prometido
        telefonar. Levantou o fone.
               Al?
               Venha, Sarah. Quero voc.
              Um grito brotou em sua garganta. A sala girava e estendeu um brao em busca de
        apoio. O fone caiu-lhe das mos no tapete. No podia ser! Geoffrey estava morto...
              Agachou-se no cho, procurando o telefone, empenhada em ouvir a voz que somente
        poderia pertencer a um fantasma.
               Al? Al? Geoffrey!  gritou.
              O eco distante havia sumido. Somente o silncio e, segundos depois, o rudo de
        desligado.
        Mas tinha ouvido o suficiente. Tudo o que aconteceu nas ltimas semanas se apagou,
        como se fosse um pesadelo recordado  luz do dia. Nada disso tinha sido real. A voz que
        acabara de ouvir... Uma voz que conhecia muito bem, isso sim era real.
              Geoffrey estava vivo.
        
        
             Quatro
        
              J estou cheio, O'Hara!  Charles Ambrose estava de p, diante da porta fechada de
        seu escritrio, e apontou para o seu relgio  E ainda se atrasa vinte minutos!
             Nick tirou seu casaco, imperturbvel.
              Sinto muito. No tive como evitar. Est chovendo muito.
               Sabe quem est me esperando agora em meu escritrio? Tem ideia?
               No. Quem?
               Um filho da...  Ambrose baixou bruscamente a voz.  A CIA! Um cara chamado Van
        Dam. Esta manh ligou para me perguntar sobre o caso Fontaine. E eu no sabia do que
        ele estava falando. Ele teve de explicar-me o que acontece no meu prprio departamento.
        Pelo amor de Deus, que diabos acha que est fazendo?
              Nick retribuiu calmamente seu olhar.
               Meu trabalho.
               Seu trabalho era dar os psames  viva e entregar o corpo. Nada mais. E Van Dam
        disse que est bancando o James Bond com Sarah Fontaine.
              Ambrose se voltou e abriu a porta de seu escritrio.
               Venha aqui, O'Hara.
              Nick o seguiu sem pestanejar.
              As cortinas estavam abertas e a ltima luz do dia caa sobre os ombros de um homem
        sentado  mesa de Ambrose. Um homem de quarenta e tantos anos, alto e de olhos to
        claros quanto o dia. Tinha as mos dobradas em postura de orao. No havia nem rastro
        de Tim Greenstein. Ambrose fechou a porta e se sentou ao lado. O fato de ter sido expulso
        de sua prpria cadeira, dizia bastante sobre a importncia do usurpador.
               Sente-se, senhor O'Hara  disse este.  Sou Jonathan Van Dam.
              Nick obedeceu.
              Van Dam o observou por um momento em silncio com seus olhos incolores. Depois,
        pegou numa pasta... O histrico de todo o trabalho de Nick.
               Espero que no esteja nervoso. No tem importncia  olhou um papel.  Voc
        trabalha h oito anos no Departamento de Estado.
               Oito anos e dois meses.
               Dois anos em Honduras, dois no Cairo e quatro em Londres. Todos em consulados.
        Um bom histrico, com exceo dos relatrios pessoais negativos. Aqui diz que em
        Honduras o senhor se mostrou muito... Simptico com os problemas dos nativos.
               Porque a nossa poltica ali no aborrece.
              Van Dan sorriu.
               Acredite, o senhor no  o primeiro que diz isso.
              O sorriso pegou Nick de surpresa. Olhou com suspeita para Ambrose que, sem
        dvida, esperava uma execuo e parecia decepcionado.
              Van Dam recostou-se na cadeira.
               Senhor O'Hara, este  um pas com liberdade de expresso. Eu respeito os homens
        que pensam por si mesmos, homens como o senhor. Infelizmente, o pensamento
        independente no  algo que sirva ao servio do Governo. Foi isso que originou este
        segundo relatrio?
               Suponho que se refere ao incidente em Londres.
               Sim. Poderia explic-lo?
               Estou certo que Roy Potter lhes enviou um relatrio com sua verso da histria.
               Conte-me a sua.
              Nick recostou-se na cadeira. As lembranas do incidente bastavam para ressuscitar
        novamente sua raiva.
                Ocorreu na semana em que o nosso cnsul, Dan Lieberman, estava fora e eu o
        substitura. Um homem chamado Vladimir Sokolov procurou-me uma noite. Era agregado
        da embaixada russa em Londres. Eu o conhecia de vista em festas. Sempre me parecera
        um homenzinho nervoso, preocupado. Falou-me em particular numa recepo em honra
        do embaixador. Queria pedir-me asilo. Tinha informaes para entregar, informaes que
        me pareceram boas. Imediatamente, levei o assunto a Roy Potter  Nick olhou Ambrose. 
        Potter era o chefe do servio de inteligncia da nossa delegao em Londres.  voltou o
        olhar para Van Dam.  Potter se mostrou ctico. Primeiro, queria usar Sokolov como um
        agente duplo. Tentei convenc-lo de que aquele homem corria um perigo real. E tinha
        famlia em Londres, esposa e dois filhos. Mas Potter decidiu esperar antes de conceder-lhe
        asilo.
                Compreendo suas razes. Sokolov tinha fortes vnculos com a KGB. Eu tambm
        teria questionado seus motivos.
                Sim? Se no o tivesse denunciado  KGB, seus filhos no o teriam encontrado morto
        dias mais tarde. Nem mesmo os soviticos matam seus agentes sem um bom motivo. Seu
        pessoal o abandonou  prpria sorte.
                 um trabalho perigoso, senhor O'Hara. Essas coisas acontecem.
                Estou certo disso. Mas eu sentia uma responsabilidade pessoal neste caso. E no
        pensava permitir que Roy Potter esquecesse a sua.
                Aqui diz que brigaram aos gritos nas escadas da embaixada  Van Dam sacudiu a
        cabea e soltou uma gargalhada.  O senhor chamou o senhor Potter de uma variedade
        de... Coisas interessantes. Deus meu, tem uma que nunca ouvi antes. E diante de
        testemunhas.
                Disso declaro-me culpado.
                O senhor Potter tambm afirma que o senhor se mostrou... Cito textualmente
        "completamente descontrolado e  beira da violncia".
                No estive  beira da violncia.
               Van Dam fechou a pasta e sorriu compreensivo.
                Sei o que se sente, senhor O'Hara, quando algum se v rodeado de
        incompetentes. Deus sabe que no se passa um nico dia sem que me pergunte como 
        possvel que este pas continue de p. E no falo apenas do mundinho da Inteligncia, mas
        de tudo. Sou vivo, sabe, e minha esposa me deixou uma casa enorme para manter. No
        encontro uma governanta ou um jardineiro que conserve vivas as azleas. s vezes, no
        trabalho, tenho vontade de mandar tudo  merda, esquecer algumas normas e fazer as
        coisas a meu modo. No sente o mesmo? Acredito que sim. Vejo que  um inconformado
        com tudo isto.
               Nick comeou a sentir que se havia deixado aprisionar numa conversa estranha.
        Aonde queria chegar exatamente aquele homem?
                Vejo que trabalhou na Universidade Americana antes de entrar no Departamento
        de Estado  disse Van Dam.
                Fui professor adjunto de lingustica.
                E j na Universidade o senhor era bastante independente. Essas coisas no mudam.
        O senhor Ambrose disse que voc no se encaixa neste departamento. Suponho que s
        vezes deve sentir-se sozinho.
                O que quer dizer, senhor Van Dam?
               Que um homem solitrio pode achar... Tentador associar-se com outros
        inconformistas. Que, se est furioso, podem convenc-lo a cooperar com outros
        interesses.
              Nick ficou rgido.
               No sou um traidor, se  isto que est insinuando.
               No, no. Eu no disse nada disso. No gosto dessa palavra, traidor.  to
        imprecisa! Alm de tudo, a definio de traidor varia com a orientao poltica de cada um.
               Eu sei o que  um traidor, senhor Van Dam. E ainda que, no esteja de acordo com
        grande parte de nossa poltica, isso no me torna um.
               Ento talvez possa me explicar sua participao no caso Fontaine.
              Nick obrigou-se a respirar fundo. Afinal haviam chegado ao que importava.
               Geoffrey Fontaine morreu na Alemanha h duas semanas. Minha tarefa de rotina
        seria avisar a viva. Certas coisas que ela me disse me preocuparam. Introduzi o nome de
        Fontaine no computador... Uma comprovao de rotina. E encontrei muitas lacunas.
        Chamei um amigo...
               O senhor Greenstein  interviu Van Dam.
               Escute, no o meta nisso. Apenas me fez um favor. Tem um amigo no FBI que
        procurou o nome de Fontaine. No encontrou nada. Eu tinha mais perguntas que
        respostas e fui ver a viva.
               Por que no nos procurou?
               No sabia que a autoridade de vocs se estendia por todo o nosso pas. Legalmente
        falando, claro.
              Pela primeira vez surpreendeu um brilho de irritao no olhar de Van Dam.
               Compreende que pode ter causado um dano irreparvel?
               No compreendo.
               Teramos tudo sob controle. Agora, temo que o senhor a tenha advertido.
               Advertido? Mas Sarah est to no escuro quanto eu.
               Essa  a concluso de um espio amador?
                um palpite.
               O senhor conhece todas as implicaes...
               Quais so as implicaes?
               Que a morte de Geoffrey Fontaine  duvidosa. Que sua esposa pode saber mais que
        o senhor acredita. E que neste caso, h mais coisas em jogo do que voc imagina.
              Nick o olhou atnito. Que significava aquilo? Geoffrey Fontaine poderia estar vivo?
        Sarah seria to boa atriz para t-lo enganado?
               Que h em jogo neste caso?  perguntou.
               Digamos que pode haver repercusses internacionais.
               Geoffrey Fontaine era um espio?
              Van Dam apertou os lbios. No disse nada.
               Olhe  continuou Nick.  J estou farto disto. Por que me interrogam por um
        assunto consular de rotina?
               Senhor O'Hara, eu vim para fazer perguntas, no para contest-las.
               Perdoe-me por interferir em seus procedimentos operativos.
               s vezes o senhor pode mostrar-se muito pouco diplomtico  Van Dam olhou
        Ambrose.  No sei se ele est limpo. Mas estou de acordo com seu plano de ao.
              Nick franziu a testa.
               Que plano de ao?
              Ambrose pigarreou.
               Estivemos revisando seu histrico, e depois dessa ltima... Indiscrio, penso que
        dever tirar uma licena, por tempo indefinido, do departamento. Temos que reavaliar a
        sua situao, e estar afastado at que comprovemos se est envolvido em algo
        subversivo. Se encontrarmos provas de algo mais grave que uma mera indiscrio, tornar
        a ter notcias do senhor Van Dam. E agora, certamente, tambm do Departamento de
        Justia.
              Nick no precisava de traduo. Acabara de ser considerado um traidor. A resposta
        lgica seria defender sua inocncia e demitir-se ali mesmo. Mas no tinha a inteno de
        faz-lo diante de Jonathan Van Dam.
              Ps-se de p.
               Compreendo.  tudo, senhor?
                tudo, senhor O'Hara.
              Nick saiu do escritrio. Depois de oito anos no Departamento de Estado, um pouco
        de curiosidade tinha conseguido despedi-lo.
              E o mais engraado era que, com exceo da parte em que eles o consideravam um
        traidor, no lhe preocupava em absoluto perder o emprego.
              De fato, quase sentia como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Estava livre.
        Haviam tomado por ele a deciso que levara tanto tempo para decidir. De certa maneira,
        tinha sido inevitvel.
              Agora poderia comear uma nova vida. Havia economizado o suficiente para viver
        uns seis meses sem precisar fazer nada. Talvez voltasse para a Universidade. Os ltimos
        oito anos lhe haviam fornecido uma grande dose de realidade; seria melhor professor do
        que antes. Quando comeou a recolher suas coisas, estava sorrindo.
              Esvaziou as gavetas, uma a uma, colocando numa caixa o lixo acumulado naqueles
        meses. Depois, guardou suas dezenas de jornais. Surpreendeu-se ao ouvir-se assobiar.
        Seria uma noite espetacular para embebedar-se. Ou pensando melhor, poderia evitar a
        ressaca. Tinha muitas coisas para fazer, muitas respostas que buscar. Poderia suportar
        perder o trabalho, mas no iria permitir que questionassem sua lealdade. Isso teria que
        esclarecer. E para isso teria que ver novamente Sarah Fontaine.
              A ideia no o desagradou. A necessidade de v-la tornou-se urgente. Ele deixou a
        caixa sobre a mesa e discou o nmero dela. Como sempre, a secretria eletrnica
        respondeu. Desligou com um palavro, e recordou a sua sugesto para que ela ficasse com
        a sua amiga.
               Nick.
              Tim Greenstein entrou na sala.
               Que est fazendo aqui?
              Nick o olhou surpreso.
               Que acha? Estou limpando minha mesa.
               Esvaziando sua... Quer dizer que o demitiram?
               Mais ou menos. Pediram-me para que tirasse umas frias no remuneradas bem
        longas.
               Puxa, sinto muito  Tim estava muito plido, como se tivesse recebido uma m
        notcia.
               Onde voc estava?  perguntou Nick.  Pensei que nos fssemos encontrar no
        escritrio de Ambrose.
               Atrasei-me com o meu supervisor. E com o FBI. E com a CIA. No foi agradvel.
        Inclusive ameaaram cancelar a minha permisso para usar os computadores. Que
        crueldade!
              Nick balanou a cabea e suspirou.
                minha culpa, certo? Sinto muito. Parece que entramos em terreno proibido.
        Tambm incomodaram seu amigo do FBI?
               No. O curioso  que ele pode sair lucrando com isso. Suas investigaes
        prejudicaram a CIA e no FBI isso  premiado.  Tim comeou a rir, mas sem vontade.
               Que foi?  perguntou Nick.
               No gosto disso. Metemos-nos num vespeiro.
               Bem, essa no  a primeira vez que lidamos com espies. Que h de especial em
        Geoffrey Fontaine?
               No sei. E no quero saber mais nada do que j sei.
               Perdeu a curiosidade?
               Desde agora. E voc tambm deveria.
               Eu tenho um interesse pessoal no caso.
               Deixe disso, Nick. Para seu prprio bem. Arruinar sua carreira.
               Minha carreira j est arruinada. E quero passar mais um tempo com Sarah
        Fontaine.
               Nick, como seu amigo, lhe peo que a esquea. Est se enganando com ela. No 
        to inocente quanto parece.
              -Isso  o que todos dizem, mas eu sou o nico que esteve com ela.
               Olhe, est enganado com ela, ok?
              O tom agudo de Tim confundiu Nick. Que acontecia ali? Olhou seu amigo nos olhos.
               Que est tentando dizer-me?  perguntou.
              Tim parecia infeliz.
               Riram de voc, Nick. Meu amigo do FBI tem seguido seus passos e seus contatos. E
        acaba de me telefonar para me dizer...
               O que?
               Ela sabe de algo.  a nica explicao.
               Maldio, Tim. Que est acontecendo?
               Pouco depois de sair de seu apartamento, ela tomou um txi at o aeroporto e
        pegou um avio.
              Nick o olhou, incrdulo.
               Aonde ela foi?
              Tim o olhou, pesaroso.
               Para Londres.
        
        
             Londres
              Era o lugar mais lgico para comear. Londres havia sido a cidade predileta de
        Geoffrey, uma cidade de parques verdes e ruas pavimentadas, de ruas onde homens de
        roupas escuras e chapus altos se misturavam com hindus de turbantes.
              Ele havia falado da Catedral de So Paulo, erguendo-se muito acima dos telhados; das
        tulipas vermelhas e amarelas que cobriam o Regent Park; do Soho, onde imperava o riso e
        a msica. Ela havia escutado tudo aquilo e agora, olhando pela janela do txi, sentia a
        mesma emoo que Geoffrey deveria ter sentido sempre que ia a Londres. Via ruas amplas
        e limpas, e guarda-chuvas negros cobrindo as caladas. Nos parques, se abriam as
        primeiras flores da primavera. Era a cidade de Geoffrey. Ele a conhecia e amava. E se
        estivesse em apuros, seria o lugar que escolheria para esconder-se.
              O txi a deixou em frente ao Savoy. A recepcionista, uma mulher de rosto amvel, a
        recebeu com um sorriso e confirmou que havia quartos livres. A temporada turstica ainda
        no tinha comeado.
              Sarah estava preenchendo o formulrio de registro quando lhe ocorreu dizer:
               Meu esposo esteve aqui h duas semanas.
               De verdade?  ela conseguiu olhar seu nome na pgina.  Oh,  a senhora
        Fontaine? Seu marido era Geoffrey Fontaine?
               Sim. Se lembra dele?
               Claro, senhora. Seu esposo  um cliente regular. Um homem muito agradvel. Mas
         estranho... Nunca imaginei que fossem americanos. Sempre pensei...  interrompeu-se.
         Seu marido se juntar  senhora?
               No, creio que no.  Sarah fez uma pausa.  A verdade  que espero alguma
        mensagem dele. Pode ver se h algo?
              A mulher olhou os escaninhos do correio.
               No vejo nada.
               E poderia me informar se houve alguma chamada para ele ou para mim?
               No. Sinto muito.
              Sarah ficou em silncio um momento. Que mais poderia fazer?
               De toda forma  continuou a recepcionista  se tivesse existido uma mensagem,
        teramos a encaminhado para seu endereo de Margate.  o que sempre nos pediu que
        fizssemos.
              Sarah piscou, surpresa.
               Margate?
              A recepcionista escrevia algo num papel e no ergueu o olhar.
               Sim.
              Que casa em Margate? Teria Geoffrey uma residncia na Inglaterra e nunca lhe tinha
        falado nela?
              A recepcionista continuava escrevendo. Sarah apoiou as mos no balco e rezou para
        poder mentir convincentemente.
               Espero... Espero que no tenham o endereo errado  disse. Moramos em Margate,
        mas nos mudamos no ms passado.
               Oh, certo  suspirou a recepcionista. Dirigiu-se at ao escritrio localizado atrs
        dela.  Vou verificar se eles alteraram o endereo.
              Um instante depois, tornou a sair com uma pasta na mo.
               Whitstable Lane, 25. Este  o endereo antigo ou atual?
             Sarah, no respondeu. Estava muito ocupada memorizando o endereo.
              Senhora Fontaine?
              Est tudo bem  pegou na sua mala e se dirigiu ao elevador.
              Senhora Fontaine, no precisa levar isso. Chamarei um bagageiro...
             Mas Sarah entrou no elevador.
              Whitstable Lane, 25.  murmurou quando a porta se fechou  -Whitstable Lane...
        Ser que ali encontraria Geoffrey?
        
        
              O mar golpeava as areias brancas. Do caminho de terra por onde seguia, Sarah podia
        ver as ondas chocarem contra as rochas inferiores. Sua violncia a assustava. O sol tinha
        aparecido atravs da nvoa matinal e os jardins das casas espalhadas, floresciam apesar do
        ar salgado e do p da areia.
              Encontrou a casa que procurava no final de Whitstable Lane. Era pequena, escondida
        atrs de uma cerca branca. No pequeno jardim frontal misturavam-se rosas, petnias e
        accias. O barulho de uma tesoura de poda a levou a um dos lados da casa, onde um
        ancio podava as plantas.
               Ol?  chamou do outro lado da cerca.
              O velho a olhou.
               Procuro por Geoffrey Fontaine  disse a jovem.
               Ele no est em casa, senhorita.
              As mos de Sarah comearam a tremer.
               Onde posso encontr-lo?  perguntou.
               No sei.
               Sabe quando ele voltar para casa?
              O velho encolheu os ombros.
               Nem ele, nem a sua senhora, me contam sobre suas idas e vindas.
               Senhora?  repetiu Sarah.
               Sim. A senhora Fontaine.
               Refere-se a ... Sua esposa?
              O velho a olhou como se fosse uma idiota.
               Claro que sim. Claro que, com um pouco de imaginao, algum poderia pensar que
        talvez ela fosse sua me, mas eu diria que  muito jovem para isso  soltou uma
        gargalhada.
              Sarah apertava a cerca com tanta fora que as pontas se cravaram em suas mos. Em
        seus ouvidos havia um rugido estranho, como se uma onda a envolvesse e a erguesse do
        solo. Procurou no seu bolso e tirou uma foto de Geoffrey.
               Este  o senhor Fontaine?  perguntou com a voz rouca.
               Claro. Tenho uma boa vista para rostos.
              Sarah tremia tanto que apenas pode voltar a guardar a foto em seu bolso. Agarrou-se
         cerca, tentando assimilar o que acabara de ouvir. Aquilo a pegara de surpresa e a dor era
        maior do que poderia suportar.
              Outra mulher. No lhe tinham perguntado sobre aquilo? No se recordava. Oh, sim,
        tinha sido Nick O'Hara. E ela tinha-se aborrecido com ele. Mas ele tinha razo, e ela havia
        sido uma estpida.
              No soube quanto tempo ficou ali, entre as rosas e petnias. Havia perdido a noo
        do tempo e do espao. Estava atordoada. Sua mente recusava-se a aceitar mais dor. Se o
        fizesse, talvez ficasse louca.
              Apenas ouviu quando o velho a chamou pela terceira vez.
               Senhorita? Senhorita? Precisa de ajuda?
              Sarah o olhou aturdida.
               No, no, estou bem.
               Tem certeza?
               Sim. Por favor... Preciso encontrar os Fontaine.
               No sei, senhorita. A senhora fez as malas e partiu h duas semanas.
               Para onde foi?
               Ela no tem por costume deixar outros endereos.
              Sarah buscou um papel em seu bolso e anotou seu nome e o hotel.
               Se algum deles voltar, por favor, pea para me telefonarem imediatamente. Por
        favor.
               Sim, senhorita  o velho dobrou o papel sem olhar e o colocou no bolso.
              Sarah virou-se para a rua como uma bbada. No comeo de Whitstable Lane viu uma
        fila de caixas de correio. Olhou para trs e viu que o velho continuava podando os
        canteiros.
              Olhou no interior do nmero 25 e encontrou apenas um catlogo de vendas, por
        reembolso postal, de grandes lojas de departamento de Londres. Era remetido  senhora
        Eve Fontaine.
              Eve.
              Geoffrey a havia chamado por aquele nome mais de uma vez.
              Devolveu o catlogo  caixa de correios e seguiu, chorando pelo caminho, para a
        estao do trem.
        
        
              Seis horas depois, Sarah entrava no seu quarto de hotel cansada, vazia e faminta. O
        telefone tocava.
               Al?
               Sarah Fontaine?  era uma voz rouca de mulher.
               Sim.
               Geoffrey tinha uma marca de nascimento no ombro esquerdo. Qual a forma dela?
               Mas...
               Qual a forma?
               Uma... uma meia lua. Voc  Eve?
               No "Cordeiro e a Rosa". Dorset Street. Nove horas em ponto.
               Espere... Eve?
              Clic.
              Sarah olhou seu relgio. Tinha meia hora para chegar a Dorset Street.
             Cinco
        
        
               O txi parou em frente da porta do Cordeiro e a Rosa. O condutor pegou o dinheiro
        que Sarah lhe estendia, grunhiu algo ininteligvel e se afastou. A moa estava sozinha na
        rua escura.
        Do pub vinha o som de riso e do tilintar de copos. As janelas emitiam um brilho amarelo
        suave. Ela atravessou a rua de paraleleppedos e empurrou a porta.
               Dentro ardia o fogo na lareira. Dois homens inclinavam-se sobre canecas de cerveja
        no bar de mogno brilhante. Eles a olharam por um momento e tornaram a erguer seus
        copos. Sarah parou para se aquecer frente ao fogo, enquanto observar a sala. A garonete,
        atrs do balco, olhou-a nos olhos e fez um sinal apontando a sala de trs.
               Sarah concordou sem palavras e seguiu na direo indicada. Vrios reservados de
        madeira se alinhavam ao longo da parede. Um casal se olhava nos olhos no primeiro deles.
        Um homem mais velho de casaco de camura tomava um usque no segundo. Antes de
        chegar ao terceiro, sups que Eve estaria sentada ali. Uma coluna de fumaa de cigarro
        subia por entre as sombras. A mulher a olhou ao v-la aproximar-se. Seus olhos se
        encontraram e ambas compreenderam aquele olhar.
               Apesar da luz tnue do interior do pub, cada uma delas via a dor na outra.
               Sarah se sentou no banco em frente a Eve. Esta deu uma tragada nervosa em seu
        cigarro e sacudiu as cinzas sem deixar de observ-la. Era esbelta e loira, de olhos
        esverdeados que pareciam cansados. Movia constantemente as mos. A cada poucos
        segundos olhava a porta do pub, como se esperasse ver algum entrar. A fumaa do
        cigarro se enrolava entre elas como uma serpente.
                Voc no  como eu esperava  disse Eve. Sarah reconheceu a voz rouca do
        telefone. O sotaque era levemente continental, mas no ingls.   mais bonita do que eu
        esperava e mais jovem do que ele disse. Quantos anos tem? Vinte e sete? Vinte e oito?
                Trinta e dois.
                Ah. Ento ele no me mentiu.
                Geoffrey lhe falou de mim?
               Eve deu outra tragada e assentiu.
                Claro. Tinha que faz-lo. Foi ideia minha.
               Sarah abriu muito os olhos?
                Ideia sua? Mas por qu?
                Voc no sabe nada de Geoffrey, no ?  os olhos verdes apunhalaram Sarah com
        crueldade.  No disse com um assomo de satisfao.  evidente que no. Mas parece que
        me encontrou sozinha. E eu precisava v-la por mim mesma.
                Por qu?
                Chame de curiosidade mrbida. Masoquismo. Odiava imagin-los juntos. Eu o
        quero tanto!  levantou o queixo numa fraca tentativa de parecer indiferente. Diga-me, foi
        feliz com ele?
               Sarah assentiu, a ponto de chorar.
                Sim  sussurrou. Fomos..., eu pelo menos, felizes. E quanto a Geoffrey, j no sei
        nada. J no sei nada.
                Com que frequncia faziam amor? Todas as noites? Uma vez por semana?
               Sarah apertou a boca.
                No acho que isso seja da sua conta. Tudo era parte de seu plano no?
               Os olhos da outra se suavizaram, mas apenas por um instante.
                Voc tambm o amava, no ?  perguntou.  E ns duas o perdemos, no? Teria
        que acontecer um dia.  o normal neste trabalho.
                Que trabalho?
               Eve recostou-se.
                 melhor que no saiba. Mas quer ouvir, no ? Em seu lugar, esqueceria tudo isso
        e iria para casa. Enquanto ainda  tempo.
                Quem  Geoffrey?
               Eve inalou a fumaa com fora e olhou para algo distante.
                Eu o conheci faz dez anos, em Amsterd. Ento ele era um homem diferente 
        sorriu, divertida por alguma piada secreta.  Se chamava Simon Dance.
               Naquele momento ns dois trabalhvamos para o Mossad, o Servio Secreto de
        Israel. Simon, outra mulher que era nossa chefe e eu formvamos uma grande equipe.
        Aqueles do Mossad so os melhores. E longo Simon e eu nos apaixonamos.
                Eram espies?
                Suponho que poderia chamar-nos assim. Sim, deixemos assim  olhou pensativa a
        figura que se formava no ar com a fumaa do cigarro.  S estvamos h um ano juntos
        quando uma de nossas misses deu errado. Ns preocupvamo-nos demais um com o
        outro e isso no  bom nesse mundo. O trabalho tem que ser tudo ou as coisas comeam a
        dar errado. E foi o que aconteceu. O velho escapou.
                Escapou? Qual era sua misso? Prender algum?
               Eve riu.
                Prender? Em nosso trabalho no nos preocupamos em prender. Acabamos com
        eles.
               Sarah sentiu a mo fria. No era possvel que estivessem falando do mesmo homem.
                O velho continuou vivo. Magus, assim o chamvamos. Para ns, era algo mais que
        um nome em cdigo. De certa maneira era um mago. Aquele caso acabou conosco. 
        apagou o cigarro e acendeu outro, para o que precisou tentar trs vezes, j que as mos
        tremiam muito. Suspirou.  Depois daquilo, todos deixamos o trabalho. Simon e eu nos
        casamos. Vivemos um tempo na Alemanha e depois na Frana. Trocamos duas vezes de
        nome. Mas sentamos que estavam a ponto de nos encontrar. Sabamos que tinham
        colocado as nossas vidas a premio. Magus, com certeza. Decidimos deixar a Europa.
                E escolheram a Amrica.
               Eve assentiu.
                Sim.  muito simples. Ele procurou um novo nome e um cirurgio plstico.
        Aumentaram suas bochechas e estreitaram seu nariz. A diferena era tal que ningum o
        havia reconhecido. Tambm trocaram meu rosto. Ele foi em frente com a Amrica. 
        preciso tempo para estabelecer uma nova base, outra identidade. Eu teria que segui-lo.
                Por que ele se casou comigo?
                Precisava de uma esposa americana. Precisava de sua casa, sua conta bancria, a
        cobertura que voc poderia oferecer. Eu no poderia fazer-me passar por norte americana.
        Meu sotaque, minha voz. No podia troc-los. Mas Simon... Ah, ele podia falar como uma
        dezena de personagens distintos.
                Por que me escolheu?
               Eve encolheu os ombros.
                Convenincia. Voc estava sozinha, no era muito bonita. No tinha namorados.
        Sim, era vulnervel. Apaixonou-se logo por ele, no?
               Sarah concordou, reprimindo um soluo. Sim, havia sido vulnervel. Antes de
        Geoffrey, passava os dias no trabalho e a maioria das noites sozinha em casa.
               Ansiava por uma relao com um homem, a intimidade e o carinho que seus pais
        haviam tido. Mas tinha uma profisso exigente e havia ficado muito tempo sozinha; as
        probabilidades de casar-se diminuam a cada ano que passava.
               At que apareceu Geoffrey e preencheu o vazio. Apaixonou-se em seguida. E sem
        dvida, ele a havia escolhido por convenincia. Olhou com raiva a outra mulher.
                A nenhum de vocs importava a quem pudessem prejudicar, no?
                No tnhamos escolha. Tnhamos nossa vida...
                E o que aconteceria com a minha vida?
                Baixe a voz.
                Minha vida, Eve. Eu o queria. E voc fica a sentada e justifica o que fizeram!
                Por favor, baixe a voz. Podem ouvi-la.
                Tanto faz.
               Eve comeou a levantar-se.
                Creio que j disse o suficiente.
                No, espere  Sarah pegou sua mo.  Por favor  disse com suavidade.  Sente-
        se. Tenho que ouvir o resto. Preciso saber.
               Eve deixou-se cair lentamente no banco. Guardou silncio por um momento.
                A verdade  que ele no a amava. Ele queria a mim. Suas viagens para Londres
        eram apenas para me ver. Registrava-se no Savoy e logo tomava o trem para Margate.
        Poucos dias depois regressava a Londres para lhe telefonar ou enviar uma carta. Eu odiei
        t-lo compartilhado com voc esses dois ltimos meses. Mas era necessrio e
        temporariamente. Tnhamos que sobreviver. At...  apertou a vista. Os olhos se encheram
        de lgrimas.
                Que aconteceu, Eve?
               A mulher pigarreou e ergue a cabea com valentia.
                No sei. S sei que ele saiu de Londres h duas semanas. Tinha-se juntado a uma
        operao contra Magus. Logo, algo deu errado. O seguiam. Algum colocou explosivos em
        seu quarto de hotel. Telefonou de Berlin e me disse que tinha decidido desaparecer. Que
        iria se esconder. Quando chegasse o momento, viria me buscar. Mas na noite anterior ao
        sair de Margate tive uma premonio. Tentei lhe telefonar em Berlin. E ento soube de sua
        morte.
                Mas ele no est morto  exclamou Sarah.  Est vivo!
               As mos de Eve tremeram de tal modo que esteve a ponto de soltar o cigarro.
                Como?
                Telefonou-me h dois dias. Por isso estou aqui. Disse-me que fosse ter com ele, que
        me queria...
                Mentira.
                Verdade  gritou Sarah.  Conheo a sua voz.
               Uma gravao talvez... Um truque.  fcil imitar uma voz. No, no pode ser ele.
        No telefonaria para voc  retrucou Eve, friamente.
              Sarah ficou em silncio. Por que iria algum usar a voz de Geoffrey para atra-la para
        a Europa? Ento se lembrou de algo mais, outra pea do quebra-cabea que no tinha
        sentido. Olhou Eve.
               No dia em que sa de Washington entraram em meu apartamento. Apenas levaram
        uma fotografia e ainda no compreendo...
               Uma fotografia de Geoffrey?  perguntou Eve.
               Sim. A foto de nosso casamento.
              A mulher empalideceu. Apagou o cigarro, pegou na sua bolsa e no seu casaco.
               Aonde vai?  perguntou Sarah.
               Tenho que voltar. Ele est me procurando.
               Quem?
               Geoffrey.
               Mas voc disse que ele est morto!
              Os olhos de Eve brilharam de repente, como joias.
               No. No, est vivo. Tem que estar. No entende? No conhecem seu rosto e por
        isso roubaram sua foto. Isso significa que eles tambm o esto procurando. Colocou seu
        casaco e correu para a porta.
               Eve!  Sarah saiu atrs dela, mas quando chegou  rua, a encontrou vazia.
              Havia apenas a neblina.
               Eve?  perguntou.
              No obteve resposta.
              Eve havia desaparecido.
        
              Eve no foi muito longe. Correu, cheia de esperana, pela Dorset Street at a estao
        do metro. No parou para escutar se ouvia passos. No tomou as precaues que se tinha
        habituado a tomar durante seus anos no Mossad. Simon estava vivo... E isso era a nica
        coisa que importava.
        Estava vivo e a esperava. No tinha pacincia para caminhar em zig-zag para parar em
        portais e confirmar se estava sozinha. Seguia um caminho reto desde a estao de metr.
              Depois de correr por duas quadras, sua respirao se tornou ofegante. Sabia que
        eram os cigarros. Muitos anos fumando deixavam a sua marca. Mas se obrigou a seguir
        avanando, at que lhe doeu o peito e soube que tinha que parar por um momento. A dor
        era um problema antigo que tinha desde criana. No era grave.
              Diminuiria um pouco e ela poderia continuar.
              Parou e se apoiou em um poste. A dor diminuiu pouco a pouco. Fechou os olhos e
        respirou fundo. Um som to suave, que quase no ouviu, penetrou em sua conscincia.
        Ficou rgida e abriu os olhos. A pouca distncia se ouviam passos. Mas em que direo?
              Olhou a nvoa e tentou ver um rosto, uma figura, mas nada se via. Tirou do bolso a
        pistola que sempre levava consigo. O ao frio logo a tranquilizou.
              Deu-se conta de que o poste era como um foco, e ela estava justamente debaixo
        dele. Entrou nas sombras. A escurido havia sido sua aliada. Outro rudo a fez apontar a
        pistola em sua direo. Quando se deu conta de que havia sido um truque, era tarde
        demais. Algo a golpeou por trs. Antes que se pudesse voltar e disparar, caiu ao cho. A
        pistola saltou de sua mo e quase no mesmo instante sentiu uma lmina apertada contra
        sua garganta.
              Um rosto lhe sorria. O reconheceu. Seu cabelo claro brilhava como prata, mesmo na
        escurido.
               Kronen  sussurrou.
              Sentiu que a lmina deslizava por sua pele com a suavidade de uma carcia. Queria
        gritar mas o terror lhe fechava a garganta.
               Pequena Eva  murmurou Kronen. Soltou uma risada suave, e Eve compreendeu
        que no sobreviveria quela noite.
        
             O mundo era diferente a dez mil metros de altura. Nem luzes de neon, nem trfego,
        nem cimento, apenas o cu negro interminvel salpicado de estrelas. Nick apoiou a cabea
        com cansao e desejou poder dormir. Quase todos os passageiros do voo 201 para Londres
        pareciam roncar tranquilamente. Era uma da manh, hora de Washington e ele continuava
        completamente desperto, com o cobertor da companhia area dobrada no colo.
             Estava muito desgostoso para dormir. No parava de pensar em quo inocente e
        vulnervel parecia Sarah. Que grande atriz. Sua interpretao era digna de um Oscar. E
        tambm havia despertado os instintos que ele tinha esquecido que possua. O desejo de
        abra-la e proteg-la.
             Agora j no sabia o que lhe queria fazer. Mas a proteo no teria muito a ver.
             Por sua culpa estava sem trabalho, duvidavam de seu patriotismo e, pior ainda,
        sentia-se um idiota. Van Dam tinha razo. Como espio, no era mais que um amador.
        Quanto mais pensava em como tinha sido enganado, mais se aborrecia. Jurou que, quando
        chegasse a Londres, lhe arrancaria a verdade.
             Sabia onde encontr-la. Uma ligao telefnica havia confirmado que se hospedara
        no Savoy, o hotel habitual de seu marido. Queria ver a cara que faria quando o visse ali.
             Mas misturada a sua raiva havia outra emoo, mais profunda e complicada. No
        deixava de imagin-la olhando-o com aqueles olhos suaves. E a confuso de seus
        sentimentos o estavam deixando louco. No sabia se queria beij-la ou estrangul-la.
             Talvez as duas coisas.
             Uma coisa era certa. Tomar aquele avio para Londres devia ser a maior loucura que
        tinha feito. Em toda a sua vida tinha tomado decises bem pensadas. E nessa noite havia
        metido a roupa numa maleta, tomado um txi at Dulles e deixado um carto de crdito
        no balco da British Airways. No era prprio dele, fazer algo to impulsivo. Esperava que
        no fosse o comeo de uma nova tendncia.
        
              O velho no estaria satisfeito.
              Enquanto Kronen limpava o sangue da mulher de sua navalha, pensou em retornar o
        telefonema outra hora, outro dia. Ao menos at que tivesse tomado um bom caf da
        manh e tomado algumas cervejas. Mas o velho ficaria furioso com a notcia e no queria
        faz-lo esperar muito. O velho no tolerava muito as frustraes. Desde a tragdia se
        mostrava impaciente e facilmente irritvel. E no era muito inteligente aborrec-lo.
              Mesmo assim, Kronen no tinha medo. Sabia que o velho precisava muito dele.
              O velho o havia tirado das latas de lixo de Dublin h oito anos e tomara conta dele.
        Talvez fosse o cabelo quase branco do menino que atraiu sua ateno; ou talvez o vazio de
        seus olhos, sinal de um grande vazio interior. Certamente reconheceu, desde ento, que
        algum dia seria perigoso. Um menino sem alma no precisava de amor e em adulto
        poderia voltar-se contra o seu guardio.
              Mas um menino sem alma tambm poderia ser muito til. O velho o adotou, deu-lhe
        comida, ensinou-o, talvez gostasse dele um pouco, mas nunca confiou nele totalmente.
              Kronen percebia a sua desconfiana desde muito jovem. E em vez de se aborrecer
        lutava por venc-la. Fazia tudo o que o velho queria. E depois de trinta anos cumprindo a
        sua vontade, havia se tornado automtico. Mas Kronen gostava de seu trabalho. Dava-lhe
        a sensao de prazer e satisfao. Sobretudo quando tinha a ver com mulheres.
              Como esta noite.
              Infelizmente, a mulher no tinha falado. Nisso se mostrara mais forte que os homens
        que havia encontrado. Nem sequer uma hora de suas tcnicas mais persuasivas havia
        conseguido algo. Tinha gritado muito, o que o havia irritado e excitado, mas no lhe deu
        nenhuma informao. E depois tinha morrido quando menos esperava.
              Isso era o que mais o incomodava.
              No tinha pretendido mat-la. Pelo menos por enquanto. Que m sorte descobrir
        demasiado tarde que sua vtima tinha um corao fraco. Parecia bastante saudvel.
              Terminou de limpar a lmina. Gostava de limpeza, sobretudo em sua navalha
        predileta. Guardou-a em sua bainha e olhou o telefone. No tinha sentido protelar mais o
        assunto. Discou o nmero de Amsterd.
               Eva no falou  disse quando atenderam.
              O silncio do velho foi bastante eloquente.
               Est morta?
               Sim  respondeu Kronen.
               E a outra?
               Continuo vigiando-a. Dance no se aproximou dela.
              O velho emitiu um som de impacincia.
               No posso esperar eternamente. Temos que obrig-lo a sair.
               Como?
               Sequestre-a.
               Mas a CIA a est seguindo.
               Cuidarei de que se ocupem deles amanh. Ento poder levar a mulher.
               E agora?
               Descubra se sabe algo. Se no for assim, tambm poderemos us-la. Lanaremos
        um ultimato. Se Dance est vivo, responder.
              Kronen no estava to seguro. Diferente do velho, ele no tinha f em algo to
        ridculo como o amor. Ademais, tinha visto Sarah Fontaine e no acreditava que nenhum
        homem  certamente nem Simon Dance  viria em seu resgate. No, era absurdo arriscar a
        vida por uma mulher. E estava certo de que Dance no seria to estpido.
              Ainda assim, seria uma experincia interessante. E quando terminasse, o velho
        permitiria que se ocupasse dela. Seu corao seria mais forte que o de Eve Fontaine.
        Duraria muito mais. Sim, seria uma experincia interessante. Dava-lhe algo com que
        sonhar.
             Sarah sonhou que corria atrs de Geoffrey gritando o seu nome. Ouvia os seus passos
        adiante, mas no o via, e permanecia sempre fora de seu alcance. Logo, os passos
        mudavam. Estavam atrs. E no era a perseguidora, e sim a perseguida. Corria na nvoa e
        os passos se aproximavam cada vez mais. O corao batia com fora e as pernas se
        negavam a movimentar-se. Lutava para seguir em frente.
             Uma mulher de olhos verdes bloqueou-lhe o caminho. Uma mulher que se ria dela,
        no meio da rua. Os passos aproximaram-se. Sarah virou-se.
             O homem que avanou sobre ela era algum que ela conhecia, algum de olhos
        cinzentos e cansados. Saiu, depressa, da neblina. E o medo dela se evaporou quando o viu.
        Seus passos ressoavam na rua de pedras...
             Sarah acordou empapada em suor. Algum batia  sua porta. Acendeu a luz. Eram
        quatro da manh.
             Voltaram a chamar, agora com mais fora.
              Senhora Fontaine?  disse uma voz de homem.  Abra, por favor.
              Quem ?
              Polcia.
             Saiu da cama, colocou um roupo e abriu a porta. L fora estavam dois agentes de
        uniforme acompanhados por um mensageiro do hotel.
              Senhora Sarah Fontaine?
              Sim. Que houve?
              Lamento incomod-la, senhora, mas  preciso que nos acompanhe at  Delegacia.
              No entendo. Por qu?
              Estamos prendendo-a.
             A jovem agarrou-se com ambas as mos  porta e os olhou, surpresa.
              A mim? Por qu?
              Por assassinato. O assassinato da senhora Eve Fontaine.
        
        
             Seis
        
        
              Sarah pensou que aquilo no podia estar acontecendo.
              Tinha de ser um pesadelo que emergiu dos recantos mais escuros de seu
        inconsciente. Estava sentada numa cadeira dura de madeira, diante de uma mesa de
        madeira nua. Luzes fluorescentes caam sobre ela desde o teto e iluminavam todos os seus
        movimentos. Fazia frio na sala e ela, vestida apenas de camisola e robe, sentia-se meio
        nua. Um detetive, de frios olhos azuis, fazia-lhe uma pergunta atrs da outra sem deixar-
        lhe terminar uma frase. Deixaram que usasse o banheiro depois de ter pedido uma dezena
        de vezes, e somente acompanhada por uma policial.
              De volta  sala de interrogatrios, teve um momento a ss para pensar na sua
        situao. Poderia ser presa, acusada de assassinar uma mulher que conhecera na noite
        anterior!
              Deixou a cabea repousar sobre as mos e sentiu que seus olhos se enchiam de
        lgrimas. Esforava-se tanto para no chorar que, apenas se deu conta de que a porta se
        abriu e tornou a fechar-se.
              Mas ouviu a voz que pronunciava o seu nome. E essa nica palavra foi como um raio
        de sol. Ergueu o olhar.
              Nick O'Hara estava de p na sua frente. Algum milagre o tinha transportado atravs
        do oceano e estava ali... O nico amigo que tinha em Londres.
              Mas seria um amigo?
              Em seguida notou que algo estranho acontecia. Tinha os lbios apertados e os olhos
        inexpressivos. Procurou algum calor, algum consolo em seu rosto, mas somente viu raiva.
        Pouco a pouco percebeu outros detalhes: a camisa amarrotada, a gravata solta, a etiqueta
        da British Airways na maleta. Acabara de chegar do avio.
              Deixou a maleta sobre a mesa e a olhou com fria.
               Senhora, voc est bem encrencada  grunhiu.
               Eu sei  sussurrou ela, com lamento na voz.
               No pode dizer mais nada?
               Vai tirar-me daqui?  sussurrou ela.
               Isso depende.
               Do qu?
               Do que voc tenha feito ou no.
               Claro que no o fiz!
              Nick pareceu surpreso pela violncia de seu grito. Guardou silncio um momento.
        Cruzou os braos e se apoiou irritado na borda da mesa.
              Sarah apertou as mos sobre a mesa. No gostou de v-la naquela situao, e menos
        ainda que tivesse trado a sua confiana como amigo.
               O que est fazendo em Londres?  murmurou.
               Eu poderia perguntar o mesmo. E desta vez espero a verdade.
               A verdade?  ergueu os olhos.  Eu nunca lhe menti.
               Oh, vamos!  rugiu ele. Comeou a andar agitado pela sala.  No me olhe com essa
        cara inocente, senhora Fontaine. Deve acreditar que sou muito tolo. Primeiro insiste em
        que no sabe de nada e logo depois foge para Londres. Acabo de falar com o inspetor.
        Agora quero sua verso. Voc conhecia Eve, no ?
               Absolutamente. A conheci ontem. E foi voc quem me mentiu, senhor O'Hara.
               Sobre o qu?
               Geoffrey. Voc me disse que estava morto e eu acreditei. E voc sabia disso o
        tempo todo.
               Do que est falando?
               Geoffrey est vivo!
              O olhar incrdulo do rosto dele era demasiado autntico. Perguntou-se se seria
        possvel que Nick no soubesse que Geoffrey estava vivo.
               Creio que ser melhor que se explique  disse ele.  E quero que no me omita
        nenhum detalhe, porque j pode imaginar que est numa grande encrenca. As provas...
               Todas as provas so circunstanciais.
               As provas so estas: encontraram o corpo de Eve Fontaine perto da meia noite num
        beco deserto a poucas quadras do "O Cordeiro e a Rosa". No descreverei o estado do
        corpo; apenas direi que  evidente que algum a odiava. A garonete do pub se lembra de
        t-la visto com uma mulher americana... Voc. Tambm se recorda que discutiram. Eve
        saiu correndo e voc a seguiu.
               A perdi na porta do "O Cordeiro e a Rosa"!
               Tem testemunhas?
               No.
               Uma pena. A polcia telefonou para a casa de Eve em Margate e falou com o
        jardineiro. O homem se lembra de voc e deu a Eve a sua mensagem por telefone. E ainda
        h o bilhete de papel com seu nome e o do hotel.
               Eu o dei para que ela me pudesse telefonar.
               Para a polcia voc tem um motivo evidente. Vingana. Descobriu que Geoffrey
        Fontaine era bgamo e decidiu vingar-se. Essas so as provas.
               Mas eu no a matei!
               No?
               Tem que acreditar em mim.
               Por qu?
               Porque ningum mais acredita  o medo e a solido a envolveram de repente como
        a mar.  Ningum acredita em mim...
              Nick a observou com uma mistura de emoes. Parecia to assustada! Viu um pedao
        de camisola azul atravs do roupo aberto. O cabelo avermelhado caiu-lhe pelo rosto. Era
        a primeira vez que o via solto e era muito charmoso. Toda a raiva que sentia dela se
        evaporou de repente. Tinha-a magoado e sentia-se como um monstro. Tocou na sua
        cabea com suavidade.
               Sarah. Sarah. Tudo se esclarecer  murmurou.  Correr tudo bem.
              Ele se abaixou e puxou o rosto dela para seu ombro. Seu cabelo era suave, sedoso...
        O aroma quente e feminino de sua pele parecia intoxic-lo. Sabia que o que sentia nesse
        momento era perigoso, mas no podia evitar. Desejava tir-la dali, proteg-la e dar-lhe
        calor. E no podia mostrar-se objetivo.
              Afastou-se de m vontade.
               Fale-me Sarah. Conte-me por que acredita que seu marido esteja vivo.
              A mulher respirou fundo e o mirou com os olhos midos.
               Ele me telefonou h dois dias.  disse. Na tarde do funeral.
               Espere. Ele telefonou?
               Me disse que fosse ter com ele. Foi muito rpido... Nem sequer disse quem era...
               Foi a longa distncia?
               Estou certa que sim.
               E por isso pegou um avio? Mas por que Londres?
               Um pressentimento. Esta era sua cidade. Tinha que estar aqui.
               E quando soube sobre Eve?
               Quando cheguei aqui. A recepcionista do hotel me deu um endereo que Geoffrey
        deixara. Era a casa de Eve em Margate.
              Nick assimilava os novos dados com uma sensao crescente de confuso. Sentou-se
        numa cadeira e a olhou com ateno.
               Essa chamada de Geoffrey parece to absurda que comeo a pensar que est
        dizendo a verdade.
               Estou dizendo a verdade. Quando vai acreditar em mim?
               Est bem. Darei a voc o benefcio da dvida. Por enquanto.
              Comeava a acreditar nela. E isso significava muito para ela. Comeou a chorar.
        Sacudiu a cabea irritada.
               O que voc tem, senhor O'Hara?  perguntou.  Sempre que estou com voc
        comeo a chorar.
               No importa  respondeu ele.   tpico das mulheres. Suponha que seja parte de
        sua essncia.
              Sarah o olhou e viu que sorria. Que transformao surpreendente! De estranho a
        amigo. Havia esquecido o quanto ele era atraente. No s fisicamente. Em sua voz havia
        uma gentileza nova que no sabia explicar.
              Inclinou-se para ela e a jovem estremeceu. Nick tirou o palet e o colocou em seus
        ombros. Cheirava a ele; parecia quente como uma manta. Apertou-a contra si, e a
        envolveu uma calma especial: a sensao de que nada de ruim poderia acontecer
        enquanto estivesse com o palet de Nick O'Hara sobre os ombros.
               Tiraremos voc daqui quando chegar o nosso homem do consulado  disse ele.
               Mas voc no cuida disso?
               Temo que no. Este no  o meu territrio.
               Mas ento, o que est fazendo aqui?
              A porta se abriu antes que ele pudesse responder.
               Nick O'Hara!  disse um homem baixo.  Que diabos faz voc aqui?
              Ele se voltou para a porta.
               Ol, Potter  disse, depois de uma pausa incomoda.  Quanto tempo.
               No o suficiente.
              Potter entrou na sala e examinou Sarah com um olhar crtico da cabea aos ps.
        Jogou o chapu sobre a pasta de Nick.
               Ento voc  Sarah Fontaine.
              A jovem olhou confusa para Nick.
               O senhor Roy Potter  disse com secura.  Ele... Como lhe chamam agora? Adido
        poltico da Embaixada?
               Terceiro secretrio  comentou Potter.
               Encantador. Onde est Dan Lieberman? Pensei que ele viria.
               Temo que nosso cnsul no tenha podido vir. Venho em seu lugar  Potter
        estendeu a mo a Sarah.  Espero que a estejam tratando bem, senhora. Sinto que tenha
        que passar por isto, mas corrigiremos tudo em breve.
               Como?  perguntou Nick com suspeita.
              Potter voltou-se para ele.
               Talvez devesse ir embora. Seguir com as suas... Frias.
               No. Creio que vou ficar.
               Isto  um assunto oficial. E se no estou enganado, j no est conosco, no ?
               No entendo  Sarah franziu a testa.  Como j no est com vocs?
               Significa que me deram frias indeterminadas  declarou Nick, calmamente.  Vejo
        que as notcias viajam depressa.
               Quando se trata de assuntos de segurana nacional, sim.
              Nick fez um gesto com a mo.
               No sabia que eu era to perigoso.
               Digamos que seu nome est numa lista pouco lisonjeira. E em seu lugar procuraria
        no manch-lo mais. Quero dizer, se quiser conservar seu posto.
               Olha, vamos ao ponto. O caso de Sarah, lembra?
              Potter olhou a jovem.
               Falei com o inspetor Appleby. Disse que as provas contra voc no so to slidas
        como ele gostaria. Est disposto a deix-la sair, desde que eu assuma a responsabilidade
        por sua conduta.
              Sarah o olhou, atnita.
               Estou livre?
               Sim.
               E no h nada que...?
               Esto retirando as acusaes  estendeu-lhe a mo.  Felicidades, senhora
        Fontaine. Est livre.
              A mulher a apertou com fora.
               Muitssimo obrigada, senhor Potter.
               De nada. Mas no se meta em mais encrencas, ok?
               De acordo.  olhou Nick com alegria, esperando ver um sorriso em seu rosto. Mas
        ele no sorria. Parecia estar bem receoso.  Algo mais?  perguntou a Potter.  Algo que
        eu deva saber?
               No, senhora. Pode sair daqui agora mesmo. Na verdade, a levarei pessoalmente ao
        Savoy.
               No se preocupe  interveio Nick.  Eu a levo.
              Sarah se aproximou mais dele.
               Obrigado, senhor Potter, mas irei com o senhor O'Hara. Somos... Somos como
        velhos amigos.
              Potter franziu a testa.
               Amigos?
               Me ajudou muito desde que Geoffrey morreu.
              Potter pegou no seu chapu.
               Certo. Boa sorte, senhora Fontaine  olhou para Nick.  Oua, O'Hara, enviarei um
        relatrio a Van Dam, em Washington. Asseguro que lhe interessar saber que est em
        Londres. Pensa em voltar logo para casa?
               Pode ser que sim, ou pode ser que no.
              Potter se dirigiu para a porta, mas voltou-se no ltimo momento para olhar com
        dureza para Nick.
               Olha, tem tido uma carreira decente. No estrague tudo agora. Eu, em seu lugar,
        teria muito cuidado.
               Sempre tenho  respondeu Nick.
               Que histria  essa de frias indefinidas?  perguntou Sarah a caminho do hotel
              Nick sorriu sem humor.
               Digamos que no  uma promoo.
               O despediram?
               Mais ou menos.
               Por qu?
              O homem no respondeu. Parou num semforo com um suspiro de cansao.
              Nick?  murmurou ela.  Foi por minha culpa?
             Ele assentiu.
              Em parte. Parece que colocaram em dvida o meu patriotismo por sua causa. Oito
        anos de trabalho nada significam para eles. Mas no se preocupe. Creio que ao nvel do
        subconsciente estava h tempos querendo deix-lo.
              Sinto muito.
              No sinta. Pode ser o melhor que me aconteceu h muito tempo.
        
             O semforo mudou e se misturaram com o trfego matutino. Eram dez horas e havia
        muitos carros. Um nibus os ultrapassou pela direita e Sarah sentiu um momento de
        pnico. O fato de se dirigir pela esquerda a perturbava. At Nick parecia um pouco
        nervoso, olhando pelo espelho retrovisor.
             Forou-se a relaxar e ignorar o trnsito.
              No posso acreditar em tudo o que se passou  disse.   uma loucura. E quanto
        mais tento entender, menos...  olhou para Nick, que tinha o cenho franzido.  Que
        houve?
              No olhe para trs, mas parece que estamos sendo seguidos.
             Sarah reprimiu o desejo de voltar a cabea e concentrou a sua ateno na rua mida
        por onde avanavam.
              Que ir fazer?  perguntou com medo.
              Nada.
              Nada?
              Exato. Faremos como se no tivssemos percebido nada. Passamos pelo seu hotel,
        voc se veste, faz as malas e acerta a conta. Depois, vamos tomar caf. Estou morto de
        fome.
              Tomar caf? Mas acaba de dizer que esto nos seguindo!
              Olhe, se procuravam sangue, poderiam ter conseguido na noite passada.
              Como fizeram a Eve?  sussurrou ela.
              No. Isso no ocorrer  olhou pelo espelho.  Segure-se. Vamos ver se so bons.
             Virou em uma rua estreita, passou por uma fila de lojas e cafs e travou. O carro atrs
        deles parou de repente, com o para choques a poucos centmetros do seu.
              Est bem?
             Sarah, muito assustada para falar, concordou com a cabea.
              Est tudo bem  disse ele. J vi esse pessoal antes  colocou uma mo pela janela e
        fez um gesto obsceno para o carro que os seguia, que respondeu de igual maneira.
             Nick soltou uma gargalhada.
              No  nada. So da CIA.
              Da CIA?  perguntou ela, aliviada.
              No comemore ainda. Eu no confio neles. E voc to pouco deveria.
             Mas o medo dela desaparecera por momentos. Por que iria temer a CIA? No
        estavam todos do mesmo lado? Perguntou-se desde quando a seguiam. Se fosse desde
        que chegara a Londres, teriam que ter visto quem matou Eve...
             Olhou para Nick.
              Que aconteceu a Eve?  perguntou.
              Alm de a terem matado?
               Antes disse algo que... No se limitaram apenas a mat-la, no ?
               No  respondeu ele, sem olh-la.  No foi s isso.
              O semforo estava vermelho. Gordas gotas de chuva comeavam a cair sobre o para-
        brisa. Os onipresentes guarda-chuvas negros cobriam os passos dos pedestres.
              Nick olhava a rua, imvel.
               A encontraram num beco com as mos atadas a uma barra de ferro  disse. 
        Estava amordaada. Deve ter gritado muito, mas ningum a ouviu. Quem fez o trabalho
        dedicou-lhe o seu tempo. Uma hora ou talvez mais. Sabia usar uma navalha. No foi... Uma
        morte agradvel.
              Olhou-a nos olhos. Sara estava consciente de sua proximidade, do cheiro de seu
        palet sobre seus ombros. Haviam torturado uma mulher. Um carro os seguia. E sem
        dvida, sentia-se segura com ele. Sabia que Nick no era nenhum salvador, mas um
        homem comum, algum que certamente passara a vida atrs de uma mesa. Nem sequer
        sabia por que estava ali, mas estava e ela sentia-se agradecida.
              O carro detrs deles tocou a buzina. O semforo havia trocado para verde. Nick
        voltou a sua ateno para o trnsito.
               Porque a mataram assim?  murmurou Sarah.
               A polcia disse que parecia obra de um manaco. Algum que gosta de causar dor.
               Ou algum que busca vingana  acrescentou ela.  Magus  disse, recordando o
        nome.   um nome de cdigo  explicou.  Um homem a quem chamam de Mago. Eve
        me falou ele.
               J falaremos disso  disse ele.  O Savoy est adiante. E ainda nos seguem.
        
               Uma hora e meia mais tarde comiam ovos com bacon num caf do Strand. Sarah
        comeava a sentir-se humana novamente. Tinha o estmago cheio e uma xcara de ch
        quente nas mos. E usava uma blusa e um casaco cinza. Dava-se conta de que havia sido
        uma boa estratgia policial deix-la de camisola e robe. Assim se sentia mais indefesa e
        disposta a confessar.
               E a confuso ainda no havia terminado; os seus problemas apenas tinham
        comeado.
               Nick havia comido com rapidez, escutando sua histria sem perder a porta de vista.
                E Eve concordou que Geoffrey estava vivo?  perguntou, quando ela terminou de
        falar.
                Sim. O roubo da foto a convenceu.
                Certo. Segundo Eve, algum quer matar Geoffrey. Algum que no conhece seu
        rosto mas sim seu novo nome, Fontaine. Geoffrey descobre que o seguem. Vai a Berlin,
        telefona a Eve e diz que se esconda. Em seguida, organiza sua prpria morte.
                Isto no explica porque  que a torturaram.
                No explica muitas coisas. De quem era o corpo que enterramos, por exemplo.
        Mas, pelo menos explica o roubo da foto. Se Simon Dance fez uma cirurgia plstica para
        mudar seu aspecto, quem o persegue poderia no reconhec-lo.
                E porque  que seguem a ns? Acreditam que os levaremos at ele?
               Nick assentiu.
                O que leva a outro detalhe que me preocupava: sua liberao. No acredito na
        histria de falta de provas. Quando eu falei com o inspetor Appebly, parecia disposto a
        prend-la por toda a vida. Em seguida, chega Potter e tudo est arranjado. Creio que
        algum tenha pressionado o inspetor e que a ordem veio de cima. E esto esperando seu
        prximo movimento.
              A fadiga deixara sombras em seu rosto. Sarah sentiu o impulso de acarici-lo, mas se
        limitou a roar sua mo com timidez. Nick pareceu se sobressaltar com a carcia e ela se
        ruborizou. Tratou de afastar a mo, mas ele a segurou. O calor de sua pele parecia subir
        pelo seu brao, at invadir todos os poros de seu corpo.
               Voc acredita que Geoffrey est vivo, no ?  murmurou.
              O homem concordou.
               Creio que esteja vivo.
              Sarah olhou para as suas mos unidas sobre a mesa.
               Eu nunca acreditei que estivesse morto  sussurrou.
               E agora que sabe mais coisas, que sente por ele?
               No sei. J no sei nada  o olhou com intensidade.  Eu acreditava nele. Talvez
        fosse ingnua, mas todos temos sonhos que queremos que se tornem realidade. E quando
        se tem trinta e dois anos, no se  bonita e est sozinha, quando um homem diz que lhe
        quer, deseja acreditar nele.
               Se engana  disse com gentileza.   muito bonita.
              Sabia que o dizia para se mostrar amvel. Que pensaria dela na verdade? Que
        somente uma mulher feia poderia ser to crdula? Afastou a mo e pegou a xcara de caf.
              Certamente pensava que Geoffrey havia escolhido bem o alvo.
               Foi um casamento de mentira  disse.  E tenho a sensao de ter sonhado com
        tudo. Como se nunca tivesse me casado.
              Nick concordou.
               Eu, s vezes, sinto o mesmo.
               Esteve casado?
               Pouco tempo. Trs anos. Estou divorciado h quatro.
               Sinto muito.
              Ficaram um instante em silncio.
               Sejam quais forem os seus sentimentos por Geoffrey, sabe que  um grande risco
        continuar em Londres. Se algum o persegue, vigiaro voc.  evidente que a seguem. J
        os levou at Eve.
        A mulher ergueu a vista.
               Eve?
               Temo isso. Era uma profissional. Uma ex-agente do Mossad. Sabia desaparecer e o
        fazia bem. Mas a curiosidade ou o cime a fizeram descuidar-se. Concordou em reunir-se
        com voc e no  casualmente que ento a mataram.
               Eu causei a sua morte?  sussurrou Sarah.
               De certo modo, sim. Devem ter seguido voc at ao pub onde se encontrou com
        ela.
               Oh, meu Deus!  moveu a cabea com ar miservel.  Quase a odiei, Nick. Quando
        pensava em Geoffrey e ela... No podia evit-lo. Mas no quero ser responsvel por sua
        morte.
               A profissional era ela, Sarah, no voc. No pode culpar-se.
              A jovem comeou a tremer.
               Vingana  disse com suavidade.  Por isso a mataram.
               Eu no estou to seguro.
               Que mais poderia ser?
               A vingana  um dos motivos da tortura, sim. Mas suponhamos que havia razes
        mais prticas...
              Sarah logo o compreendeu.
               Conseguir informaes?
               Pode ser que acreditem que Geoffrey continue vivo e esperavam que ela os levasse
        at ele. O que no sabemos  se Eve lhes contou algo.
              Sarah recordou do amor evidente que Eve parecia sentir por Geoffrey e seus olhos
        verdes e duros. Certamente sabia onde busc-lo, mas tambm era uma mulher resistente.
        Jamais havia trado Geoffrey. Havia morrido com seu segredo.
              Seria ela to valente? Pensou na navalha, na dor que uma lmina poderia infligir em
        sua carne e estremeceu. Era impossvel julgar seu autovalor. A coragem somente aparecia
        quando era preciso, quando se via obrigada a enfrentar seus terrores mais escuros.
              Sarah esperava que nunca tivesse que colocar-se a si mesma  prova.
        
        
        
             Sete
        
               Quero respostas, Dan. Comeando por quem ordenou colocar Sarah Fontaine em
        liberdade e por qu.
              Dan Lieberman, chefe de assuntos consulares, olhava Nick com o rosto calmo de um
        funcionrio que estava h muito tempo no Departamento de Estado. Os anos sem deixar
        transparecer nada, tinham deixado a sua marca. Desde que o conhecera, quatro anos
        atrs, Nick jamais tinha visto alguma emoo em seu rosto. Seu trabalho o havia
        convertido num grande jogador de pquer.
               Que acontece com o seu caso?  continuou Nick.  Parece-me que cuida dele de
        um modo muito peculiar.
               Ocorreram irregularidades  admitiu Lieberman.
               Sim. Comeando com a apario do filho da puta do Potter na delegacia.
              Lieberman sorriu fracamente.
               Que existe entre vocs?
               Sokolov. No me diga que j esqueceu.
               Ah, sim, o caso Sokolov. Agora me lembro.
               Voc no o conheceu, no ?
               No.
               Dizem que seus filhos o encontraram no dia de Ano Novo. Tinha dois filhos de uns
        dez anos. Desceram ao poro para encontrar seu pai e o acharam com uma bala na cabea.
        Um belo presente de Ano Novo, hein?
               Essas coisas acontecem. No deveria arruinar a sua carreira por isso.
               Se Potter no me ignorasse, esses meninos estariam a salvo em Montana. E agora
        certamente devem estar congelando na Sibria, perturbados pela KGB.
              Era um traidor. Arriscou-se e perdeu. Mas tudo isso j  histria. No veio queixar-
        se de Potter, no ?
              No. Venho por causa de Sarah Fontaine. Quero saber o que h em seu caso.
             Lieberman balanou a cabea.
              Nick, eu no deveria estar falando com voc. Por isso, antes que eu fale algo, diga-
        me qual o seu interesse nesse caso.
              Chamemos de um ultraje moral. Sarah est agora sentada no meu quarto de hotel,
        perguntando se  viva ou no. Eu acredito que seu marido esteja vivo. Mas, tudo no
        mundo nos diz que est morto. Que deveria dar-lhe os psames e esquecer tudo.
              E por que no faz o que dizem?
              No gosto que mintam para mim. E no gosto que me ordenem que conte
        mentiras. Se h um motivo para mant-la no escuro, quero ouvi-lo. Se for vlido, sairei.
        Mas ela est sofrendo e acredito que tenha o direito de saber a verdade.
             Lieberman suspirou.
              Novamente lutando contra moinhos de vento, no? Sabe como te chamvamos
        aqui? Don Quixote. Porque no se livra de uma lcera e vai para casa?
              Ou ser que no me ajudar.
              No porque no queira. Mas no sei de nada.
              Pode me dizer por que Potter foi  delegacia em seu lugar?
              Sim, isso sim. Esta manh telefonaram-me de cima, para me dizer que Potter
        assumiria o caso e que eu no deveria me misturar.
              Como, de cima?
              Muito.
              Como conseguiram sua libertao?
              Atravs da Inteligncia Britnica, creio.
               um esforo conjunto?
              Tire suas prprias concluses.
              Qual  a participao de Potter?
              Quem sabe?  evidente que a CIA se interessa pela sua viva.
              Estudou o caso Fontaine?
              Brevemente. Antes que me retirassem dele.
              Que lhe parece?
              Que essa acusao de homicdio tinha algumas lacunas importantes. Um bom
        advogado o teria destroado.
              E a morte de seu marido?
              Irregular.
              Sabia sobre Eve Fontaine?
              No muito. Disseram-me que comprou a sua casa h um ano. Que vivia muito
        reclusa. Passava todo seu tempo em Margate. Mas asseguro que voc sabe muito mais do
        que eu. No disse que a viva est em seu quarto?
              Sim. Em minha velha penso, em Baker Street.
              Ah, em Kenmore.  Lieberman guardou a informao sem mudar de expresso. 
        Que tipo de mulher ?
             Nick pensou por um momento.
              Calada  disse por fim.  Inteligente. E neste momento muito confusa.
                Vi a foto de seu passaporte. No me pareceu... Muito especial.
                Muitas pessoas no so o que parecem.
                Posso perguntar qual seu interesse?
                No.
               Lieberman sorriu.
                Olhe, Nick, eu no sei mais nada. Se descobrir algo, te telefonarei. Quanto tempo
        vai ficar em Kenmore?
               Nick se ps de p.
                Alguns dias, suponho.
                E Sarah Fontaine ficar contigo?
               Nick no tinha resposta para isso. Se dependesse dele, Sarah voltaria a Washington
        logo. S de imagin-la sozinha em sua casa bastava para se pr nervoso. A proprietria de
        Kenmore, uma velha conhecida, lhe havia assegurado que seus dois musculosos filhos se
        ocupariam de qualquer problema, mas estava ansioso por voltar. No podia afastar de sua
        mente a terrvel morte de Eve.
                Se Sarah ficar em Londres eu tambm ficarei  disse.
               Apertaram as mos.
                A propsito  perguntou Nick -, j ouviu falar de um tal Magus?
               O rosto de Lieberman no se alterou.
                No me diz nada.
               Nick se deteve na porta.
                Uma ltima coisa. Pode dar uma mensagem para Roy Potter?
                Claro.
                Diga a ele para retirar seus sabujos. Ou pelo menos que nos sigam a uma distncia
        mais discreta.
               Lieberman franziu a testa.
                Direi a ele. Mas em seu lugar, eu me asseguraria de que so eles que te seguem.
        Por que se no forem, a alternativa pode ser bem menos agradvel.
                Menos agradvel que a CIA?  perguntou Nick.  Duvido.
        
        
              Quando Nick voltou para seu quarto, na penso Kenmore, encontrou Sarah
        dormindo. Se havia deitado na cama com o rosto sobre a almofada e o brao cado ao lado.
        Os culos haviam cado no cho e o sol iluminava o seu cabelo ruivo. Olhou-a com ateno.
        Fosse qual fosse a razo, lhe parecia muito charmosa. No no sentido clssico. No como
        Lauren, sua ex-esposa que, com seu cabelo escuro e seus olhos verdes, fazia as pessoas
        virarem a cabea.
              A mulher que tinha diante de si no parecia em nada com Lauren. Espantava-se que
        um homem como Geoffrey tivesse casado com ela. Mas no estava disposta a abandonar o
        marido. Queria acreditar nele. E curiosamente aquela lealdade a Geoffrey era o que mais
        gostava nela.
              Virou-se para a janela. Na rua havia um carro negro parado. A CIA vigiando-os.
        Saudou com a mo, pensando em como podia ter cado to baixo na espionagem. Depois
        fechou as cortinas e se deitou na outra cama.
              A luz do dia era desconcertante. Estava cansado, mas somente poderia fechar os
        olhos e pensar. Por que se havia colocado a si mesmo naquela posio? O inteligente seria
        ir para casa e deixar que a CIA se ocupasse de tudo. Mas se acontecesse algo a Sarah,
        jamais se perdoaria.
        Adormeceu aos poucos. Uma viso penetrou em seus sonhos: uma mulher de olhos cor
        mbar. Desejava toc-la, mas suas mos se enroscavam no cabelo dela. Sarah. Como era
        possvel que algum no a achasse bonita? O rosto dela se desvaneceu e ele ficou s.
        Como sempre.
        
        
             Em uma das salas de Roy Potter soou uma voz no rdio.
              O'Hara saiu do escritrio de Lieberman h 40 minutos.  disse um agente. Voltou
        para Kenmore. Faz uma hora que no vejo a mulher. As cortinas esto corridas. Creio que
        tenham se deitado.
              E certo que no para dormir  murmurou Potter ao seu ajudante.
             O agente Tarasoff apenas sorriu. Ele no tinha senso de humor.
             Vestia-se corretamente e at na maneira como comia o seu sanduche de rosbife
        demonstrava aborrecimento. Dava pequenas mordidas e limpava os dedos entre uma e
        outra. Potter, por outro lado, comia como uma pessoa normal... Sem muito asseio. Ele
        engoliu o ltimo pedao e pegou o microfone.
              Certo, homens; no se movam e se inteirem de quem passar por a.
              Sim, senhor.
              Como esto localizados?
              No nos podemos queixar. H um pub na calada em frente.
              J os viram?
              Temo que sim. Antes nos fez um gesto obsceno.
              J? Que fizeram? Apresentaram-se?
              No, senhor; viu-nos quando samos da delegacia.
              Certo. So uma e meia. Dentro de duas horas podero se retirar.
             Deixou o microfone e jogou no cesto o papel que envolvia o sanduche. Errou por
        pouco, mas no queria levantar-se.
             Tarasoff levantou-se e pegou no papel.
              Que acha de tudo isso, senhor Potter?
             Ele encolheu os ombros.
              No estou muito certo.
              Acredita que esse tal O'Hara possa ser espio de algum?
             Potter deu uma gargalhada.
              O'Hara? No, ele  muito honrado. O tipo de homem que passa o dia preocupando-
        se com baleias mortas e essas coisas  olhou o sanduche meio comido do outro.  Pensa
        em terminar isso?
              No, senhor. Pode ficar com ele.
             Potter aceitou a oferta e deu uma mordida.
              O'Hara no  tolo, mas  pura teoria e nada de prtica. Fala quatro idiomas. No 
        um mau diplomata, mas no vive no mundo real.
              Mas por que se misturou com isto? No tem sentido.
               Nunca esteve apaixonado.
               Esteve casado.
               No, me refiro a apaixonar-se.
               Bem, sim. Suponho que sim.
               Supe. Isso no  amor. Refiro-me a algo apaixonado, algo que te deixa louco e te
        faz arriscar a vida. Inclusive talvez casar-se.
               Est apaixonado por Sarah Fontaine?
               Por que no?
              Tarasoff sacudiu a cabea, gravemente.
               Eu acredito que esteja espionando.
              Potter soltou uma gargalhada.
               No subestime o poder dos hormnios.
               Minha esposa diz o mesmo sempre  Tarasoff franziu a testa e olhou a manga do
        palet de seu superior.  Ser melhor que limpe essa mostarda.
              Potter olhou a gota amarela de sua manga. Dia novo, mancha nova. Buscou um
        guardanapo e acabou conformando-se com um pedao de papel.
              O jogou na cesta. Errou. Levantou-se da cadeira com um grunhido. Estava levantando
        o papel quando a porta se abriu.
               Sim?  perguntou. Em seguida, ficou em silncio.
              Tarasoff se voltou e olhou para o homem que estava na porta. Era Jonathan Van
        Dam.
        Potter pigarreou.
               Senhor Van Dam. No sabia que estava em Londres.
              O recm-chegado se sentou na cadeira que Potter ocupava e afastou uns copos
        plsticos da mesa antes de colocar a sua maleta sobre ela.
               Estou curioso sobre um assunto. Havamos grampeado o telefone de Sarah
        Fontaine... E sabe o que ocorreu h alguns dias? Recebeu uma chamada de seu esposo.
        Uma faanha, no acha? Ou as comunicaes melhoram tanto?
              Potter e Tarasoff se olharam.
               Senhor, posso explicar... Disse o primeiro.
               Sim  respondeu Van Dam, muito srio.  Creio que deve faz-lo.
        
        
        
              Nick e Sarah ofereciam o rosto ao vento nos altos precipcios de Margate. As gaivotas
        se lanavam desde o cu e seus gritos cortavam o ar como carpideiras. O sol brilhava com
        fora e reluzia como vidro quebrado. At Sarah parecia mais viva sob aquele toque mgico.
              Desde que saram de Londres essa manh, havia tirado o casaco e o pulver. Vestida
        agora com uma blusa de algodo branca e uma saia cinza, se deteve sob o sol e levantou o
        rosto para ele. Estava viva. Algo que havia esquecida nas ltimas semanas.
               Sarah?  Nick lhe tocou o brao e apontou o caminho. Com sua camisa e calas
        gastas parecia mais um pescador que um burocrata.  Falta muito?
               No.  sobre a colina.
              O homem ps-se a andar e ela o observou. No conhecia todas as suas razes para
        estar ali, mas confiava nele. Era um amigo, e aquilo era a nica coisa que importava.
              Nick olhou para trs. No havia rastro de nenhum perseguidor. Estavam sozinhos.
               Me pergunto por que no esto nos seguindo.
               Talvez tenham-se cansado.
               Bem, vamos continuar.
               Voc no gosta da CIA, no ?  perguntou ela.
               No.
               Por qu?
               No confio neles. E menos ainda em Roy Potter.
               Que lhe fez o senhor Potter?
               A mim nada. Exceto, talvez, mandar-me de volta para Washington.
               Washington  to ruim?
               No  o lugar ideal para uma carreira diplomtica.
               Qual seria?
               Os lugares quentes de frica, frica do Sul.
               Mas voc estava em Londres.
               No foi minha primeira opo. Ofereceram-me Camares, mas tive de declinar.
               Por qu?
              -Por Lauren. Minha ex-esposa.
               Ah.
              A jovem se perguntou que haveria dado errado entre eles. Rotina? Tdio? No podia
        imaginar que algum se entediasse com Nick. Era um homem de muitas facetas, cada uma
        mais complexa que a anterior. Poderia uma mulher chegar a conhec-lo?
              Cruzaram em silncio a fila de caixas de correio e viram a casa branca por trs da
        cerca de madeira. O velho jardineiro no estava  vista.
                ali  disse ela.
               Vamos ver se tem algum.  disse Nick. Aproximou-se e tocou a campainha, mas
        no houve resposta.  Creio que est vazia. Melhor.
               Nick?  o seguiu para a parte de trs e o encontrou abrindo o trinco. A porta se
        abriu lentamente. A luz do sol iluminou o cho de pedra polida. Aos seus ps jazia um
        pedao de um prato de porcelana. No se via nada mais fora do lugar. As gavetas da
        cozinha estavam fechadas. Na janela havia duas plantas. Uma torneira a pingar era tudo o
        que se ouvia.
               Espere aqui  lhe sussurrou Nick.
              Desapareceu no cmodo seguinte e ela olhou em redor. Estava no corao da casa.
        Eve cozinhava ali, Geoffrey e ela riam juntos. O lugar parecia ressoar com sua presena. E
        ela era uma intrusa.
               Sarah?  Nick a chamou da porta.  Venha ver isto.
              O seguiu para a sala de estar. Nas estantes haviam livros encadernados em couro.
        Estatuetas chinesas decoravam a lareira onde ainda havia cinzas. Somente tinham mexido
        no escritrio. Haviam esvaziado as gavetas e atirado ao cho um monte de
        correspondncias.
               O roubo no foi o motivo  disse ele, apontando as estatuetas antigas da lareira. 
        Creio que procuravam informaes. Uma agenda, talvez. Ou um nmero de telefone.
              A jovem olhou em redor. Um pouco alm viu uma porta aberta. Uma fascinao
        inexplicvel e dolorosa a atravessou. Sabia o que existiria l, mas no pode deter-se.
              Era o quarto. Olhou a colcha de flores da cama de casal com os olhos cheios de
        lgrimas. Era a cama de outra mulher. Quantas noites havia Geoffrey passado ali?
              Quantas vezes tinham feito amor? Sentia falta dela quando no estava ali?
              Eram perguntas que somente ele poderia responder. Tinha que encontr-lo ou nunca
        seria livre. Saiu da casa chorando e um momento depois olhava o mar do precipcio.
        Apenas ouviu os passos de Nick se aproximando. Mas sentiu as mos dele apoiando-se
        com suavidade em seus ombros. No falou; limitou-se a acompanh-la em silncio. E isso
        era o que ela precisava.
              Depois de um tempo, voltou-se para ele.
               Tenho de encontrar Geoffrey  disse.  E voc no pode vir comigo.
               No pode ir sozinha. Veja o que aconteceu a Eve.
               No querem a mim. Querem Geoffrey. E eu sou seu nico vnculo. No me faro
        nada.
               E como ir encontr-lo?
               Ele me encontrar.
              Nick balanou a cabea.
               Isso  loucura. No sabe o que est enfrentando.
               E voc sabe? Se sabe, diga-me.
              Nick no respondeu. Limitou-se a observ-la, com olhos que tinham escurecido at
        adquirir uma tonalidade de prata queimada.
              Sarah tornou a andar e ele a seguiu com as mos nos bolsos. Detiveram-se em frente
        s caixas de correspondncia, onde Whitstable Lane se fundia com o caminho do
        precipcio.
              Um carteiro levou uma mo ao chapu e desceu com a sua bicicleta pelo caminho.
              Acabava de entregar a correspondncia. Sarah enfiou a mo na caixa de nmero 25.
        Havia um catlogo e trs faturas, todas dirigidas a Eve.
               No precisar delas  comentou Nick.
               No, acho que no  guardou as faturas no bolso.  Esperava que tivesse algo
        mais...
               O qu? Que ele tivesse escrito uma carta? No sabe nem por onde comear, no ?
               No. Mas o encontrarei  afirmou teimosamente.
               Como? No se esquea de que a CIA est te esperando.
               Eu os despistarei.
               E depois? E se o assassino de Eve decide ir  sua procura? Acredita que poder lidar
        com ele sozinha?
              A mulher tornou a andar pelo caminho. Nick a tomou pelo brao e a virou para ele.
               Sarah! No seja estpida!
               Tenho que encontrar Geoffrey!
               Pois me deixe ir com voc.
               Por qu?  gritou ela.
              A resposta a pegou desprevenida. Nick a tomou nos braos e, antes que tivesse
        tempo de reagir, beijou-a com fora na boca. O grito das gaivotas desapareceu e o vento
        pareceu transport-los para longe, at faz-la perder a noo de onde estava. O abraou
        por sua vez e abriu os lbios. J no se importava com nada que no fosse o sabor de sua
        boca, o cheiro do mar em sua pele.
              Os gritos das gaivotas retomaram a sua fora  medida que se impunha a realidade.
        Sarah se soltou. A julgar por sua expresso, Nick parecia to surpreso quanto ela.
               Suponho que por isso  murmurou.
              A jovem sacudiu a cabea confusa. Ele a havia beijado. Tinha sido to rpido, to
        inesperado, que no podia entender o que isso implicava. Mas sabia de uma coisa: ela o
        desejava. E o desejo crescia a cada minuto que passava.
               Por que fez isso?
               Foi sem pensar. Eu no pretendia...  voltou-se. No, maldio! Retiro o que disse.
        Eu queria, sim.
              Sarah se retirou, mais confusa que nunca. Que acontecia? Somente alguns dias atrs
        acreditava estar loucamente apaixonada por Geoffrey. E nesse momento, Nick O'Hara era
        o nico homem que desejava. Entretanto podia saborear seus lbios, sentir suas mos
        abraando-a, e no deixava de pensar o quo maravilhoso seria voltar a beij-lo. E nessas
        condies, o melhor seria no t-lo por perto.
               Por favor, Nick  disse.  Volte para Washington. Tenho que encontrar Geoffrey e
        voc no pode vir comigo.
               Espere, Sarah!
              Mas ela j se afastava.
              Silenciosamente, como dois estranhos, foram at ao carro alugado por Nick, que
        estava estacionado numa rua de pequenas lojas. Atrs do veculo estava o mesmo Ford
        negro que os havia seguido desde Londres.
              A silhueta de um dos agentes era visvel contra o vidro escuro. Sarah o olhou atravs
        do para-brisa ao passar; no havia nenhum movimento dentro do carro.
              Nick tambm notou isso. Parou e bateu na janela. O agente no se moveu, nem falou.
        Estaria adormecido. Era difcil saber atravs do vidro escuro.
               Nick?  sussurrou ela.  Acha que tem algo acontecendo?
               Continue andando  respondeu ele suavemente  Quero que entre no carro e no
        se mexa.
               Nick...
              Este se aproximou do Ford cautelosamente. A curiosidade a impulsionou a segui-lo. O
        agente continuava sem se mover. Nick vacilou um segundo e abriu a porta do passageiro.
              Os ombros do agente caram para o lado. Um brao caiu do carro at a rua. Nick
        recuou horrorizado quando as gotas de vermelho brilhante mancharam a calada.
        
        
             Oito
        
        
              Sarah gritou. No momento seguinte, comearam a disparar nas janelas do Ford, e
        Nick jogou-se sobre ela e a empurrou contra o cho. A jovem no podia mover-se, nem
        falar; o impacto a havia deixado sem ar.
              Nick se ps ao lado e a empurrou para frente.
               Suba no carro!  ordenou.
              Sarah se ps em movimento e entrou no MG alugado, como um animal aterrorizado.
        As balas quebravam as janelas, e pessoas gritavam ao redor.
              Nick subiu atrs de Sarah, passou por cima dela e caiu sob o volante. Antes de sentar-
        se no banco, trazia as chaves na mo.
              Ligou o motor. Sarah tentou fechar a porta, mas Nick gritou:
               Agache-se! Agache-se, maldio!
              A jovem se jogou ao cho.
              Nick engatou a r e o carro bateu no Ford. Colocou a primeira, girou o volante para a
        direita e pisou no acelerador. Saltaram para frente. Sarah sentiu-se pressionada contra o
        assento. Teve a impresso de que avanavam s cegas, rumo a uma coliso inevitvel, e se
        preparou para o impacto.
              Mas isso no aconteceu. Somente ouviu o barulho do motor e a ordem de Nick ao
        colocar a terceira.
               Feche a porta!  ordenou.
              Sarah o olhou. Tinha ambas as mos no volante e os olhos na estrada. Estavam a
        salvo. Nick tinha assumido o controle. As ruas de Margate passavam rapidamente pela
        janela.
              Fechou a porta.
               Por que querem nos matar?
               Boa pergunta  apareceu um caminho do nada e Nick manobrou para o lado.
              Atrs deles veio o chiar de pneus e o grito irado do outro motorista.
               O agente...
               Cortaram-lhe a garganta.
               Oh, meu Deus...
              Diante deles havia uma placa com o nome de Westgate. Nick colocou a quarta.
        Tinham deixado Margate para trs e agora se via campos vazios pela janela.
               Mas quem? Quem est tentando nos matar?  perguntou ela.
              O homem olhou pelo retrovisor.
               Espero que no tenhamos que descobrir isso agora.
              A jovem voltou a cabea com horror. Um Peugeot azul se aproximava depressa.
        Somente podiam ver que o motorista usava culos de sol.
               Segure-se  disse Nick.  Vamos dar um passeio  apertou o acelerador e se lanou
        pela estrada a toda velocidade. O Peugeot os seguia implacvel. Era um carro maior e
        desajeitado; passou para a contramo e esteve a ponto de chocar-se com uma van. O erro
        lhe custou alguns segundo e ficou para trs. Mas cada vez havia menos trfego e em
        campo aberto no poderiam competir. O Peugeot era mais rpido.
               No consigo despist-lo!
              Sarah percebeu o desespero em sua voz. Estavam condenados e ele no podia fazer
        nada.
               Coloque o cinto  disse Nick.  Estamos ficando sem opes.
              Sarah prendeu o cinto e o olhou. O seu perfil havia endurecido e tinha o olhar fixo na
        estrada. Estava muito ocupado para parecer assustado, mas as suas mos o traam. Tinha
        os ns dos dedos brancos.
              A estrada se bifurcava.  esquerda, uma placa indicava Canterbury. Nick a seguiu. O
        Peugeot esteve a ponto de saltar o desvio, mas girou no ltimo momento e avanou para
        eles.
              A voz de Nick atravessou a nuvem de medo que se tinha formado no crebro dela.
               Comearo a disparar a qualquer momento. Abaixe a cabea. Eu me manterei na
        estrada o tempo que puder. Se pararmos, saia e corra o quanto for possvel. Podero
        explodir o tanque de gasolina.
               No te deixarei.
               Far isso.
               No, Nick.
               Maldio!  gritou ele.  Faa o que te digo!
              O Peugeot estava to perto que Sarah podia ver os dentes do condutor, que sorria.
               Por que no atiram?  perguntou.
              O Peugeot bateu no para-choque traseiro. A jovem agarrou com fora a porta.
               Por isso  respondeu Nick. Querem nos tirar da estrada.
              Houve outra batida, desta vez do lado esquerdo. Nick manobrou o carro. O Peugeot
        ficou a seu lado. Sarah, paralisada pelo terror, pegou-se olhando atravs da janela o rosto
        do motorista. Seu cabelo loiro  to claro que era praticamente albino  caa quase sobre
        os culos de sol. Tinha as faces encovadas e a pele plida como cera. Sorria-lhe.
              A jovem s percebeu vagamente o obstculo que teria adiante. Estava hipnotizada
        pelo rosto do homem, por seu sorriso mortfero. Ouviu o suspiro de Nick e olhou a curva...
        E o carro parado na estrada.
              Nick virou para a direita e entrou na contra mo. Os pneus chiaram. Sarah viu campos
        verdes e se fixou logo nas mos de Nick, que lutavam para controlar o volante. Apenas
        ouviu o choque metlico e o som de vidros quebrados atrs de si.
              Ento, o mundo parou. Estavam olhando um campo de vacas surpresas. O corao de
        Sarah comeou a bater novamente. Nick apertou o acelerador e guiou o MG at a estrada.
               Isso os atrasar um pouco  disse.
              Sarah voltou o olhar. O Peugeot estava tombado de lado no campo. A seu lado, de p
        na lama, estava o motorista loiro, o homem do sorriso mortal. A fria era visvel em seu
        rosto apesar da distncia. Depois, o Peugeot e ele se perderam de vista.
               Est bem?  perguntou Nick.
               Sim. Sim  tentou engolir o n seco que tinha na garganta.
               Uma coisa  evidente. No poder ir sozinha.
              Sozinha? A simples ideia a atemorizava. No, no queria estar sozinha. Mas at que
        ponto teria direito de contar com ele? No era um soldado, era um diplomata. Recorria ao
        instinto, no ao treino. Mas era o nico que se colocava entre os assassinos e ela.
              A estrada se bifurcou novamente. Cantebury e Londres ficavam a oeste. Nick virou-se
        para leste, a estrada at Dover.
               Que est fazendo?  perguntou Sarah, fraca.
               No vamos para Londres.
               Mas precisamos de ajuda.
               J tivemos e no serviu de muito, no ?
               Londres ser mais seguro.
              O homem balanou a cabea.
               No. Ali estariam nos esperando. O que houve hoje mostrou que no podemos
        contar com o nosso pessoal. No sei se so somente incompetentes ou se  algo pior...
              Algo pior? Referir-se-ia a uma traio? Ela acreditava que o pesadelo havia
        terminado, que somente teriam que chegar  porta da Embaixada em Londres e cair nos
        braos protetores da CIA. No tinha considerado a possibilidade de que eles mesmo
        quisessem a sua morte. No fazia sentido.
              A CIA no mataria seu prprio agente  comentou.
              Pode ser que no. Mas sim algum de dentro. Algum com outros contatos.
              E se estiver enganado?
              Vamos, pense. O agente no ficou quieto enquanto lhe cortavam a garganta? O
        pegaram de surpresa. Algum a quem conhecesse. Tem que existir uma pessoa dentro,
        misturada. Algum que nos quer matar.
              Mas eu no sei de nada.
              Talvez voc saiba e no se tenha dado conta.
             Sarah sacudiu a cabea.
              No. Isto  loucura. Uma loucura. Nick, sou uma mulher comum. Trabalho, fao
        compras, preparo o jantar... No sou espi. No sou como Eve.
              Mas  o momento de comear a pensar como ela. Eu tambm sou novo neste jogo.
        E me parece que estou to envolvido quanto voc.
              Podemos voltar para casa... Para Washington?
              E acredita que ali estaria mais segura?
             No. Ele tinha razo. No tinham para onde ir.
              E para onde iremos?  perguntou desesperada.
             O homem olhou o relgio.
               meio-dia. Deixaremos o carro em Dover e pegaremos a balsa at Calais. E ali, um
        trem para Bruxelas. Em seguida, ns desapareceremos por um tempo.
             Sarah olhou a estrada sem responder. Quanto tempo era um tempo?
             Teria que passar a viver como Eve, sempre fugindo, olhando sempre por sobre o
        ombro?
             Viu que Nick apertava com fora o volante e compreendeu que ele tambm tinha
        medo. E isso era o que mais a aterrorizava.
              Suponho que tenho que confiar em voc  disse.
              Parece que sim.
              Em quem mais podemos confiar, Nick?
             O homem a olhou.
              Em ningum.
        
        
             Roy Potter levantou o fone no primeiro toque. O que ouviu a seguir lhe fez apertar o
        boto de gravao. Era a voz de Nick O'Hara.
              Tenho algo a dizer.
              O'Hara? Onde diabos...?
              Estamos fora, Potter. Esquea nosso rastro.
              No podem sair assim. Precisamos de vocs.
              Seus narizes.
              Acredita que podero continuar vivos sem nossa ajuda?
              Sim, eu acredito. E escute-me bem, Potter. Investigue seu pessoal. Porque algo
        cheira mal. E se descobrir que o responsvel  voc, juro que acabo com sua vida.
              Espere, O'Hara...
              A linha ficou muda. Potter desligou xingando. Olhou de m vontade para a mesa de
        Jonathan Van Dam.
               Esto vivos  disse.
               Onde esto?
               No disse. Esto localizando a chamada.
               Viro para c?
               No. Vo esconder-se.
              Van Dam se inclinou sobre a mesa.
               Eu os quero, senhor Potter. Os quero agora. Antes que algum mais chegue at
        eles.
               Senhor, esto com medo. No confiam em ns.
               No me surpreende, considerando o ltimo golpe. Encontre-os.
              Potter pegou o telefone amaldioando silenciosamente Nick O'Hara.
               Tarasoff? Tem o nmero? Como esto em algum lugar de Bruxelas? Eu sei que
        esto em Bruxelas. Quero o endereo, maldio.
               Simples vigilncia  disse Van Dam.  Era esse seu plano, no? E que aconteceu?
               Destaquei dois excelentes agente para seguir a senhora Fontaine. No sei o que
        falhou. Um de meus homens continua desaparecido. E o outro est no necrotrio...
               No posso me preocupar com os agentes mortos. Quero Sarah Fontaine. Que me
        diz das estaes de trem e aeroportos?
               O escritrio de Bruxelas est no caso. Eu voarei para l esta noite. Ocorreram
        atividades em suas contas bancrias. Grandes retiradas. Parece que pensam ficar
        escondidos por muito tempo.
               Vigie as contas. Passe suas fotos para a polcia, a Interpol, a todos que puderem
        cooperar. No a detenham, apenas a localizem. E precisamos de um perfil psicolgico de
        O'Hara. Quero saber seus motivos.
               De O'Hara?  Potter sorriu com desdm.  Eu posso dizer tudo o que precisa saber.
               Que acha que ele far em seguida?
                novo nisto. No sabe como tirar outra identidade. Mas fala francs muito bem.
        Pode movimentar-se por Bruxelas sem levantar suspeitas. E est pronto. Podemos
        demorar a encontr-lo.
               E a mulher? Pode misturar-se igualmente bem?
               Que eu saiba no fala outros idiomas. Nenhuma experincia. Sozinha estaria
        perdida.
              Tarasoff entrou no escritrio.
               Tenho um endereo.  uma cabine no centro da cidade. Impossvel localiz-lo l.
               Quem conhece O'Hara na Blgica?  perguntou Van Dam.  Algum em quem
        possa confiar?
        Potter franziu a testa.
               Teria que ver seu histrico.
               E o senhor Lieberman do departamento consular?  sugeriu Tarasoff.  Ele
        conhecer os amigos de O'Hara.
              Van Dam deu-lhe um olhar satisfeito.
               Bom comeo. Alegra-me que algum pense. Que mais?
               Bem, senhor, me pergunto se deveramos estudar outros ngulos da vida deste
        homem...  o agente notou o olhar sombrio que Potter lhe direcionava.  Claro que o
        senhor Potter o conhece melhor  terminou.
               A que histria voc se refere, senhor Tarasoff?  insistiu Van Dam.
               No paro de pensar se... Bem, se trabalhar para algum.
               Nada disso  disse Potter.  O'Hara  independente.
               Mas seu homem tem razo  disse Van Dam.  E se passamos sobre algo quando
        investigamos O'Hara?
               Passou quatro anos em Londres  disse Tarasoff.  Pode possuir muitos contatos.
               Olhe, eu o conheo bem  insistiu Potter.  Ele est sozinho.
              Van Dam no parecia escut-lo. Potter tinha a sensao de estar falando para o vazio.
        Porque sempre se sentia como um vagabundo com mostarda na roupa velha?
              Havia trabalhado duro para ser um bom agente, mas no era suficiente. Para homens
        como Van Dam, sempre lhe faltaria estilo.
              Tarasoff o tinha. E Van Dam usava roupa de Savile Row e um Rolex. Tinha sido
        bastante esperto para casar-se por dinheiro. Supostamente, era isso que Potter deveria ter
        feito. Ter-se Casado com uma mulher rica. E agora daria uma penso a ele, e no vice-
        versa.
               Espero resultados logo, senhor Potter  disse Van Dam, colocando o sobretudo. 
        Avise-me quando souber de algo. O que far com O'Hara depois  assunto seu.
              Potter franziu a testa.
               Como assim?
               Eu o deixo em suas mos. Mas seja discreto  Van Dam saiu da sala.
              Potter olhou perplexo a porta fechada. Oh, ele sabia o que gostaria de fazer a O'Hara.
        Ele era apenas um diplomata de carreira, daqueles que depreciavam o servio de
        espionagem. Nenhum deles apreciada o trabalho sujo que Potter tinha que fazer.
              Mas algum tinha que faz-lo. Quando as coisas iam bem, ningum se dava por
        informado. Mas quando iam mal, a quem dirigiam a culpa?
              Os insultos que O'Hara tinha-lhe dirigido, um ano atrs, ainda doam. Em parte
        porque no fundo sabia que o diplomata tinha razo. A morte de Sokolov tinha sido culpa
        sua.
              Desta vez no podia permitir-se erros. J tinha perdido dois agentes. Pior ainda, tinha
        perdido o rastro da senhora Fontaine. No podia haver mais falhas. Os encontraria ainda
        que tivesse que revistar todos os hotis de Bruxelas.
        
        
              Jonathan Van Dam estava igualmente decidido a encontr-los. O'Hara tinha
        conseguido estragar o que deveria ser uma simples operao. Ele era o fator inesperado, o
        detalhe que ningum havia previsto, o tipo de coisa que causa pesadelos aos agentes. E
        preocupava-o que Tarasoff tivesse razo, que O'Hara fosse algo mais que um homem
        apaixonado. E se trabalhasse para algum?
              Van Dam olhou seu prato de carne assada pensando nesta possibilidade. Estava
        sozinho em seu restaurante preferido em Londres. A comida era boa. Gostava da luz das
        velas e do murmrio das conversas. Gostava de ver outras pessoas ao seu redor. Isso o
        ajudava a concentrar-se em seus problemas.
             Terminou a carne e bebeu um clice de porto. Sim, o jovem Tarasoff tinha uma certa
        razo. Era perigoso assumir que as coisas eram o que pareciam. E ele o sabia melhor que
        ningum.
        Durante dois anos havia suportado o que desde sempre considerava um casamento feliz.
        Durante dois anos havia compartilhado a cama com uma mulher a quem apenas suportava
        tocar. Tinha cuidado dela em suas bebedeiras, suportado seus ataques de raiva e seus
        remorsos posteriores. A morte de Cludia tinha surpreendido todos e sobretudo, talvez, a
        prpria Cludia. Aquela puta pensava que viveria para sempre.
             Sim, o porto era excelente, assim pediu outro. Uma mulher sentada duas mesas
        depois o olhava repetidamente, mas ele a ignorou certo de que ela tambm gostaria de
        lcool. Como Cludia.
             Tornou a pensar no assunto de Sarah Fontaine. Sabia que seria impossvel encontrar
        um homem como Nick, um homem que falava bem o francs em uma cidade to grande
        como Bruxelas. Mas a mulher era outra histria. Somente teria que abrir a boca no
        momento inoportuno e estaria tudo acabado. Sim, era melhor concentrar-se em procurar
        por ela. E afinal, ela era o que importava.
        
        
              Sarah, sentada no colcho duro com as pernas cruzada, olhou seu relgio uma vez
        mais. Nick estava fora h duas horas e ela tinha passado todo esse tempo, sentada como
        um zumbi, procurando ouvir seus passos. E pensando. Pensava no medo e se voltaria a
        sentir-se segura novamente.
              No trem de Calais tinha lutado contra o pnico, contra a premonio de que algo
        terrvel estava a ponto de acontecer. Estava suspensa em cada som, em cada detalhe que
        via. Suas vidas poderiam depender de algo to trivial como o olhar de um estranho.
              Chegaram a Bruxelas sem problemas. Passaram as horas e o terror cedeu espao 
        ansiedade. Por enquanto estava segura.
              Levantou-se e se aproximou da janela. Uma chuva fina molhava os telhados, dando-
        lhes um aspecto fantasmagrico.
              Acendeu a nica lmpada nua que tinha. O quarto era minsculo e desorganizado,
        uma espcie de caixa no segundo piso de um pequeno hotel. Cheirava a p e umidade.
        Algumas horas atrs no havia se importado com o aspecto do quarto, mas agora as
        paredes a estavam deixando louca. Sentia-se presa. Precisava de ar fresco e comida. Mas
        tinha que esperar o retorno de Nick.
              Voltou-se.
              Ouviu uma porta fechar-se no pavimento inferior e depois rudos de passos que
        subiam as escadas. Uma chave entrou na fechadura e algum abriu a porta. Sarah ficou
        petrificada.
              Na passagem estava um desconhecido.
              Nada nele era familiar. Usava um gorro preto de pescador cado sobre os olhos, um
        toco de cigarro pendendo na boca. Cheirava a peixe e vinho. Mas quando levantou o olhar,
        Sarah soltou uma gargalhada de alvio.
              -Nick!
              O homem franziu o cenho.
               Quem mais seria?
                que esta roupa...
              Nick olhou a jaqueta preta com desgosto.
               No  asquerosa? O cheiro  um fedor  apagou o cigarro e estendeu um pacote
        envolvido em papel marrom.
               Sua nova identidade, senhora. Garanto que ningum a reconhecer.
               Me d medo de olhar  abriu o pacote e tirou uma peruca negra curta, um pacote
        de grampos de cabelo e um vestido de l especialmente feio.  Creio que ficava melhor
        nas ovelhas  comentou.
               Ei, no reclame. Alegre-se de que no a tenha trazido uma minissaia e meias de
        seda. E eu pensei nisso, acredite.
              A mulher olhou a peruca com dvida.
               Preta?
               Estava barata.
               Nunca usei peruca. Como se coloca? Deste lado?
              Nick comeou a rir.
               No,  o contrrio. Deixe comigo.
              Sarah a tirou.
               Isto no dar certo.
               Claro que sim. Ei, sinto ter rido, mas tem que coloc-la direito  pegou os grampos
        na cama.  Vamos, vire-se. Primeiro tem que esconder seu cabelo.
              Sarah se voltou e o deixou recolher seu cabelo. Quando suas mos a tocaram, alguma
        coisa quente e alegre pareceu percorrer seu corpo; no queria que aquela sensao
        terminasse. Um homem tocando seu cabelo era to reconfortante e sensual, sobretudo
        um homem com mos to suaves como as de Nick!
              A tenso que abandonava os ombros de Sarah se concentrava no corpo de Nick.
        Enquanto lutava com os grampos, olhava a pele suave do pescoo da jovem. As mechas de
        cabelo pareciam fogo lquido em sua mo. O calor subia como uma corrente por seus
        dedos acima e se instalava em seu ventre. Uma fantasia se apoderou dele: Sarah de p em
        seu quarto, com os seios nus e o cabelo solto pelos ombros.
              Forou-se a se concentrar no que fazia e comeou a prender os grampos no cabelo.
               No sabia que fumava  murmurou ela, sonolenta.
               J no fumo. Parei h anos. Hoje foi apenas uma interpretao.
               Geoffrey fumava. No pude faz-lo parar. Era o nico motivo por que discutamos.
              Nick engoliu a saliva quando uma mecha de cabelo se soltou e caiu em seu brao.
               Ai. Esse grampo machuca.
               Desculpe  colocou a peruca e a virou para ele. A expresso de seu rosto, uma
        mistura de dvida e resignao, a fez sorrir.
               Pareo uma idiota, no ?  suspirou ela.
               No. Est muito diferente, mas  isso que queremos.
              A mulher concordou.
               Pareo idiota.
               Vamos, experimente o vestido.
               Que  isso?  perguntou ela.  Tamanho nico?
               Sei que est grande, mas no podia ignor-lo. Estava...
              No me diga. Barato, no ?  ela riu.  Bem, se somos um casal, vamos jogar 
        olhou a roupa estropiada dele.  De que vai? De vagabundo?
              Pelo cheiro dessa jaqueta, eu diria que sou um pescador bbado. E voc tem que
        ser minha esposa. Somente uma esposa suportaria um tipo como eu.
              Certo. Sou sua esposa. E tenho fome. Podemos ir comer?
             Nick se aproximou da janela e olhou a rua.
              Acho que j est bastante escuro. Por que no se troca?
             Sarah comeou a tirar a roupa. O homem continuou olhando a rua e lutando para
        ignorar os rudos que escutava s suas costas: o murmrio da blusa, o sussurro da saia ao
        passar pelos quadris...
             E de repente pensou que estava numa situao ridcula.
             Durante quatro anos, tinha conseguido manter-se independente e livre. E tinha
        fechado o seu corao s mulheres. E de repente chegava Sarah Fontaine e entrava pela
        porta dos fundos. Precisamente Sarah, que continuava apaixonada por Geoffrey.
             Sarah, que em duas semanas e meia havia conseguido que o tirassem de seu trabalho
        e tentassem mat-lo. Um comeo espetacular.
             Estava desejando ver o que viria a seguir.
        
        
             Nove
        
        
             Sentaram-se numa taberna cheia de risadas, fumaa e dividiram uma garrafa de
        vinho tinto. Um vinho forte e indisciplinado, "vinho de campons", o definiu Sarah quando
        tomava o terceiro copo e a sala se tornara muito mais quente e brilhante.
             Na mesa ao lado, alguns ancios tomavam cerveja, contavam histrias e riam. Um
        gato passou entre as cadeiras e ps-se a beber leite num prato que estava perto do bar.
        Sarah observava todos os detalhes, escutava todos os sons. Era um prazer estar fora de seu
        esconderijo e voltar ao mundo, ainda que fosse por uma noite.
             Atravs da fumaa dos cigarros viu que Nick lhe sorria. Tinha os ombros cados e uma
        barba de um dia. Era difcil de acreditar que se tratava do mesmo homem que havia
        conhecido, no escritrio do Governo, duas semanas atrs. Mas ela tambm no era a
        mesma mulher. O medo e as circunstncias os haviam transformado.
              Seja feita a justia  comida  Nick apontou seu prato vazio.  Sente-se melhor?
              Muito melhor. Estava morta de fome.
              Caf?
              Daqui a pouco. Antes, quero terminar o vinho.
             O homem sacudiu a cabea.
              Talvez devesse deix-lo. No podemos nos permitir o menor descuido.
              Nunca fiquei bbada  protestou ela, irritada.
               um mau momento para comear.
             A jovem bebeu um gole do copo.
              Isso de dar ordens  costume seu?
              Que quer dizer?
              Desde que nos conhecemos voc tem controlado tudo.
               Absolutamente. Ir a Londres foi ideia sua, lembra?
               Ainda no me disse por que me seguiu. Estava zangado, no ?
               Sim.
               Veio por isso? Para me torcer o pescoo?
               Eu pensei nisso  levou o copo de vinho aos lbios e a olhou sobre ele.  Mas
        mudei de ideia.
               Por qu?
               Por v-la indefesa na delegacia.
               Talvez eu seja mais forte do que voc acredita.
               Est certa?
               No sou uma menina, Nick. Sempre cuidei de mim mesma.
               No estou dizendo que  incompetente.  uma mulher muito inteligente. Uma
        investigadora altamente considerada.
               Como sabe disso?
               Li seu histrico.
               Ah, sim. A ficha misteriosa. E que mais sabe?
              O homem se recostou na cadeira.
               Vejamos. Sarah Gillian Fontaine, estudou na Universidade de Chicago. Participou de
        meia dzia de projetos de investigao em microbiologia.  evidente que  inteligente  fez
        uma pausa.  E tambm que precisa de ajuda  terminou, com suavidade.
              Guardaram silencio enquanto o garom fechava a conta. Quando voltaram a ficar
        sozinhos, Nick disse, srio:
               Sei que pode se cuidar sozinha em circunstncias normais. Mas estas no o so.
              A jovem no podia discutir esse ponto.
               Concordo  suspirou.  Confesse que tenho medo e que estou cansada de ter que
        estar atenta a todo momento. Mas no me subestime. Vou fazer tudo para permanecer
        viva.
               Fico contente. Porque antes que isto termine, pode ser que voc se transforme em
        uma dzia de mulheres diferentes. Lembre-se que j no  Sarah Fontaine. No pode ser
        voc em pblico, ter que deix-la para trs.
               Como?
               Invente algum. At ao ltimo detalhe. Converta-se em um personagem. Comece
        se descrevendo. Quem voc ?
              Sarah pensou um momento.
               Sou a mulher de um pescador que luta para chegar ao fim do ms.
               Continue.
               Minha vida no e fcil. Canso-me muito. E tenho seis filhos que no param de
        chorar.
               Bom. Continue.
               Meu marido... No para muito em casa.
               O bastante para lhe dar seis filhos  apontou com um sorriso.
               Temos uma casa pequena. Todos gritam uns com os outros.
               So felizes?
               No sei. Somos?
              O homem inclinou a cabea, pensativo.
               Sim, somos felizes. Quero bem a minhas cinco filhas e meu filho. E tambm a minha
        esposa. Mas me embriago muito e no sou muito amvel.
               Me bate?
               Quando voc merece. Mas logo estou muito, muito arrependido  adicionou
        suavemente.
              Se olharam nos olhos como o fazem dois desconhecidos que compreendem pela
        primeira vez que se conhecem bem. Os olhos dele se suavizaram e Sarah se perguntou
        como seria fazer amor com ele. Ainda que Geoffrey houvesse sido um amante gentil, havia
        algo frio e desapaixonado nele. Sentia que Nick seria muito diferente. Tomaria-a como um
        homem faminto.
              Pegou o copo com a mo trmula.
              -H quanto tempo estamos casados?  perguntou.
               Quatorze anos. Eu tinha vinte e quatro, voc... Apenas dezoito.
               E estou certa de que minha me no gostou.
               Nem a minha. Mas no nos importamos  passou um dedo pelo dorso da mo dela.
         Estvamos loucamente apaixonados.
              Algo em sua voz a fez silenciar. O jogo parecia ter mudado. Deixou de perceber a sala
        cheia de estranhos, as risadas e a fumaa. Somente existia o rosto de Nick e seus olhos,
        que brilhavam como prata.
              -Sim  repetiu com voz apenas audvel.  Estvamos loucamente apaixonados.
              O barulho do copo ao chocar-se na mesa a devolveu  realidade. Um rio de vinho
        corria pela toalha. Os sons da taberna a envolveram de repente.
              Nick estava de p com um guardanapo na mo. Limpou o vinho e a olhou com
        curiosidade.
               Sarah? Que aconteceu?
              A jovem se levantou e saiu correndo da taverna. O ar frio da noite aoitou seu rosto.
        Na metade do beco ouviu os passos de Nick atrs dela. No parou at que ele a alcanou e
        a virou para si. Estavam de p no meio de uma praa e os edifcios reluziam como ouro 
        luz dos postes.
               Sarah, me escute.
                um jogo, Nick  disse ela, lutando para se soltar.  Somente um jogo idiota.
               No. J no  um jogo. Para mim no.
              Abraou-a to bruscamente que ela no teve tempo de debater-se nem surpreender-
        se. Pareceu-lhe que caa atravs da escurido e aterrava em seu peito.
              No teve tempo de recuperar-se, nem to pouco de respirar.
              Nick cheirava a vinho e ela se movia como uma bbada. Tentou compreender o que
        sentia, mas aquele momento era ilgico. Abriu os lbios, se abraou ao pescoo dele e
        sentiu a umidade de seu cabelo.
               Sarah. Sarah  gemeu ele, afastando-se ao olh-la. No  um jogo.  mais real que
        j senti.
               Tenho medo de cometer outro erro, Nick.
               Eu no sou Geoffrey. Que diabos, no sou mais que uma pessoa comum, quase
        quarento e no sou rico. Certamente no sou muito inteligente. No tenho nada a
        esconder. Somente estou sozinho e desejo voc. O bastante para me meter nesta
        baguna...
              A puxou para si com um suspiro. A jovem escondeu o rosto em seu casaco, sem se
        importar que cheirasse mal. Somente lhe importava que quem o usava era Nick, que era
        seu ombro que a apoiava em seus braos, que a sustentavam com fora.
              O chuvisqueiro deu lugar  chuva, e Nick e Sarah correram de mos dadas.
              Quando chegaram ao hotel, estavam encharcados. Nick a observou tirar a peruca e
        soltar o cabelo em silncio. A luz criava sombras estranhas em seu rosto. Do cabelo dele
        caam gotas de gua nas suas bochechas.
              Se aproximou dela com olhos ardentes. Tocou seu rosto e Sarah estremeceu. Beijou-
        a. Cheirava a vinho e chuva. Levou as mos  gola do vestido e comeou a abrir os botes.
        Sem deixar de beij-la, introduziu os dedos sob o tecido do vestido e apalpou um seio.
        Ambos tremiam, mas sob a roupa empapada de chuva ardia um fogo descontrolado.
              Nick tirou sua jaqueta. A camisa molhada parecia gelo contra os seios desnudos dela.
        Deixaram-se cair sobre o colcho e as molas rangeram. O homem tirou a camisa e a jogou
        no cho. Sarah lembrou-se do que tinha pensado antes, que ele no a possuiria
        gentilmente e sim como um homem faminto.
              Mas ela queria que assim o fizesse?
               Est tremendo  sussurrou ele.  Por qu?
               Estou com medo.
               De qu? De mim?
               No sei. De mim mesma, creio... Tenho medo de me sentir culpada.
               Por fazer amor?
              A jovem fechou os olhos com fora.
               Oh, meu Deus! Que estou fazendo? Meu marido est vivo, Nick...
              As mos dele se afastaram de seu peito e pousaram em seu rosto, obrigando-a a
        olh-lo. Observou-a, tentando penetrar em sua mente atravs de seus olhos. Seu olhar
        afastava suas defesas. Sarah nunca havia se sentido to nua.
               Qual marido? Simon Dance? Geoffrey? Um fantasma que nunca existiu?
               Um fantasma no. Um homem.
               E voc chama de casamento o que tinha?
              A jovem negou com a cabea.
               No. No sou estpida.
               Ento o esquea . Beijou-lhe a testa.  Suas lembranas no so reais. Siga com
        sua vida.
               Mas h uma parte em mim que ainda questiona...  suspirou.  Aprendi algo sobre
        mim de que no gosto. Amava uma iluso. Ele no era mais que um sonho. Mas eu queria
        que fosse real. O fiz real porque precisava dele  sacudiu a cabea com tristeza.  A
        necessidade nos destri. Faz-nos cegos a tudo o mais. E agora preciso de voc.
               E isso  to ruim?
               J no estou certa quanto a meus motivos. Estou me apaixonando? Ou apenas
        estou me convencendo disso porque preciso muito de voc?
              Nick comeou a abotoar-lhe o vestido lentamente, de m vontade.
               Voc no ter uma resposta para isso at que esteja a salvo e seja livre para se
        afastar de mim. Ento o saber.
              Sarah tocou-lhe os lbios.
               No  que no te deseje. Somente...
              Nick via a luta em seus olhos, aquelas janelas abertas que no escondiam segredos.
        Desejava-a, mas o momento e as circunstncias no eram os adequados.
              Ela continuava em choque.
               Est decepcionado  murmurou ela, suavemente.
               Confesso  sorriu ele.
               Mas  que...
               No, no. No tem que explicar nada. Deite-se ao meu lado e deixe-me abra-la.
              A jovem escondeu o rosto na nudez quente do ombro dele.
               Nick, meu anjo da guarda.
              O homem soltou uma gargalhada.
               E eu que queria macular minha aurola de santo!
              Deitaram-se em silncio.
               Que vamos fazer?  sussurrou ela, por fim.
               Estou trabalhando nisso.
               No podemos fugir sempre.
               No. Ainda que o dinheiro durasse para sempre e no ser assim, teramos
        eternamente essa nuvem sobre nossas cabeas. Nunca seria livre de tudo  a olhou
        intensamente.  Tem que fechar essa parte de sua vida. E para isso tem que encontr-lo.
               Mas no sei por onde comear.
               No  respondeu Nick.  Hoje telefonei para Roy Potter.
              Sarah o olhou.
               Para ele?
               De uma cabine. Olhe, j sabe que estou em Bruxelas. Possivelmente esteja vigiando
        as contas bancrias. J sabem que sacamos dinheiro esta tarde.
               Por que telefonou? Pensava que no confiasse nele.
               E no confio. Mas e se estiver errado em no confiar? Ento comear a investigar
        seu pessoal, se j no tiver comeado.
               Estar nos procurando.
               Bruxelas  uma cidade grande. E sempre podemos ir a outro lugar  seu olhar era
        insistente.  Sarah, voc foi casada com Geoffrey. Pense. Aonde ele iria?
               Tenho pensado muito nisso. Mas no sei.
               Pode ter deixado uma mensagem em algum lugar onde voc no tenha olhado?
               Tenho somente a minha bolsa.
               Pois comece por ai.
              Sarah pegou a bolsa na mesa e esvaziou seu contedo sobre a cama. Havia apenas o
        que sempre levava, mais as contas fechadas que havia tirado da caixa de correspondncia
        de Eve.
        Nick pegou sua carteira e a olhou com ar inquiridor.
               Abra  disse ela.  No tenho segredos com voc.
              O homem tirou os cartes de crdito e as fotos. Olhou a foto de Geoffrey alguns
        segundos antes de deixa-la sobre a cama. Havia tambm fotos de sobrinhos.
               Voc praticamente carrega um lbum completo  observou.
               No posso tir-las da. Voc no anda com nenhuma foto?
               Somente a da minha carteira de motorista.
              Continuou repassando os pedaos de papel que ela havia enfiado em vrias
        reparties... nmeros de telefone, bilhetes, anotaes.... Sarah colocou os culos e
        comeou a abrir a correspondncia de Eve.
              Havia trs faturas. Depois de olhar a da companhia eltrica, passou para a do carto
        de crdito. Eve apenas o tinha usado duas vezes no ms anterior. Em ambas as ocasies
        para pagar produtos de beleza comprados na Harrod's.
              Abriu a terceira conta. Era do telefone. Olhou rapidamente a lista de chamadas e
        estava a ponto de deix-la de lado quando viu a palavra Berlin no fim da pgina. Era uma
        chamada a longa distncia feita duas semanas atrs.
              Apertou o brao de Nick.
               Olhe isso. O ltimo da lista.
              Nick abriu muito os olhos.
               Essa chamada foi feita no dia do incndio!
               Me disse que havia tentado lhe telefonar, lembra-se? Tinha que saber onde se
        hospedava em Berlim.
               Mas que descuido deixar um rasto assim.
               Talvez no seja o seu nmero e sim o de um intermedirio. Um contato. Ela no
        sabia o que tinha acontecido com ele e nem onde estava. Devia estar enlouquecida, por
        isso telefonou para Berlim. De quem ser o nmero?
               Podemos ligar. Mas no agora.
               Por qu?
               Uma chamada de longa distncia espantaria o suposto contato. Telefonaremos de
        Berlim  comeou a guardar as coisas na bolsa.  Amanh tomaremos um trem at
        Dusseldorf e, dali, iremos para Berlim. Eu comprarei todas as passagens. Acredito que 
        melhor que embarquemos separados e nos encontremos no trem.
               E o que faremos quando chegarmos a Berlim?
               Telefonaremos para esse nmero e vemos o que acontece. Eu tenho um velho
        amigo no consulado de Berlim. Wes Corrigan. Talvez nos ajude.
               Podemos confiar nele?
               Acho que sim. Estivemos juntos em Honduras.
               Voc disse que no poderamos confiar em ningum.
              Nick concordou, srio.
               No temos opo.  um risco a correr. Vou apostar em uma velha amizade.
              Viu a preocupao expressa nos olhos dela e a apertou contra si.
                uma sensao horrvel esta de sentir-se presa, sem futuro  sussurrou ela.
               Voc tem a mim  murmurou ele.
              Sarah lhe tocou o rosto e sorriu.
               Sim. Por que tenho tanta sorte?
               Pelos moinhos de vento, suponho?
               No entendi.
               Lieberman costumava me chamar de Don Quixote.
               E eu sou outro de seus moinhos?
               No . Beijou seu cabelo.   mais do que isso.
              A jovem o beijou nos lbios.
               Por Berlim  sussurrou.
              Sim  murmurou ele, abraando-a.  Por Berlim.
        
        
              Um amanhecer brilhante e charmoso. Os trilhos do trem, que pouco antes
        mostravam uma cor cinza molhada, brilhavam de repente como ouro na luz da manh.
              Nuvens de vapor subiam desde os trilhos. Nick e Sarah estavam separados na
        plataforma. Nick, com o gorro abaixado e um cigarro pendendo nos lbios, se apoiava em
        um poste da plataforma e estava irreconhecvel.
               distncia ouviu o rudo do trem que se aproximava. Foi como um sinal que fez as
        pessoas se levantarem dos bancos. Avanaram como uma onda at a beira da plataforma
        esperando que o trem de Anturpia parasse. Formou-se uma fila de passageiros: homens
        de negcios com ternos, estudantes com jeans e mochilas, mulheres bem vestidas que
        voltavam para casa com sacolas de compras.
              De seu lugar quase no final da fila, Sarah viu Nick apagar o cigarro com o sapato e
        subir no trem. Segundos depois o seu rosto apareceu na janela. No se olharam.
              A fila diminua. Mais alguns metros e tambm estaria a bordo.
              Ento viu algo pelo canto dos olhos e uma premonio de medo a fez voltar-se
        devagar. O que tinha visto era o sol refletindo-se em um par de culos de sol prateados.
              Ficou paralisada. Ao lado da bilheteira estava um homem de cabelo plido, um
        homem que tinha a vista cravada na porta do trem. O corao de Sarah parou.
              Era o mesmo que a havia olhado pela janela do Peugeot azul. O de sorriso mortal. E
        ela avanava diretamente para sua linha de viso.
        
        
        
             Dez
        
        
             Seu primeiro impulso foi correr, perder-se entre os passageiros na plataforma. Mas
        um movimento sbito atrairia a ateno dele. Tinha que seguir em frente, esperando,
        contra todas as chances, que ele no a reconhecesse.
             Procurou no trem a janela onde tinha visto Nick com a inteno de lhe pedir ajuda.
        Mas a janela havia ficado para trs e ela j no a via.
              Senhora?
             Sobressaltou-se ao sentir uma mo em seu brao. Um velho puxava a sua manga. O
        olhou e ele comeou a falar num francs muito rpido. Tentou soltar-se, mas ele
        continuou agitando um leno. Repetiu a pergunta e apontou o cho. A jovem, que por fim
        entendeu, negou com a cabea e disse-lhe, por gestos, que o leno no era seu.
             O velho encolheu os ombros e se afastou.
             Quase chorando, voltou-se para subir a bordo, mas algo lhe cortou o caminho.
        Ergueu a cabea e viu seu rosto aterrorizado refletido nos culos de sol.
             O homem loiro sorriu.
              Senhora?  disse suavemente.  Vamos...
              No, no!  sussurrou ela, recuando.
              O albino avanou at ela e em suas mos brilhou uma navalha. Sarah pensou no arco
        que se formaria no ar... Quase pode sentir a dor na carne.
              Pensou que se estava movendo para trs e compreendeu, como numa nuvem, que
        no era ela que se movia e sim o trem. Partia sem ela.
              Viu a porta do trem se afastando lentamente do fim da plataforma... Era sua ltima
        oportunidade de escapar.
              Notou que o homem se colocava  sua frente para cortar o caminho da sua presa,
        pois acreditava que ela comearia a correr.
              E comeou a correr. Mas em direo contrria. Em vez de procurar a rua, perseguiu o
        trem.
              O movimento inesperado a fez ganhar um segundo precioso. O trem aumentava sua
        velocidade. S restavam mais uns dez metros de plataforma e estaria fora de seu alcance.
        Seus ps pareciam chumbo; ouviu os passos dele atrs de si.
              Com o corao a ponto de explodir correu os ltimos metros. Seus dedos tocaram no
        ao frio. Lutou para se segurar na barra... Para subir a bordo.
              Subiu as escadas e caiu, abrindo a boca para tomar flego. Casas e jardins passavam
        com rapidez ao seu lado, convertidos em imagens velozes de luz e cor. A dor na garganta
        se dissolveu em um soluo de alvio. Havia conseguido!
              Uma sombra cortou a luz do sol. A escada rangeu com um novo peso e um calafrio
        percorreu seu corpo anunciando a morte. No lhe restavam foras para lutar nem um
        lugar para se esconder. No podia fazer nada exceto ficar quieta enquanto ele se
        aproximava dela.
              Paralisada pelo terror, viu-o inclinar-se para ela, cobrindo os ltimos pedaos de luz
        solar. Esperou ser tragada por sua sombra.
              Ento, de algum lugar atrs dela, chegou um grunhido de raiva. Captou um
        movimento, mais do que o viu, um p que golpeava selvagemmente um corpo. A sombra
        que a cobria caiu para trs com um grunhido.
              O homem loiro pareceu ficar suspenso em uma queda interminvel. Precipitou-se
        lentamente pela escada e o barulho do trem abafou seu ltimo xingamento.
              E ela continuava viva, respirando; o pesadelo havia terminado por um momento.
               Sarah! Meu Deus...
              As mos a ergueram do solo, afastando-a da borda, afastando-a da morte. Trmula,
        abraou-se a Nick. Este a apertou com tanta fora que pde ouvir o batimento de seu
        corao.
               J terminou  murmurava de vez em quando. J terminou.
               Quem ?  chorou ela.  Por que no nos deixa em paz?
               Sarah, escute-me, escute-me. Temos que sair desse trem. Temos que mudar de
        rumo antes que ele nos intercepte.
              A jovem queria gritar, mas se conteve. Abraou-se mais a ele.
              Nick olhou a paisagem. Iam muito depressa para saltar.
               A prxima parada  disse.  Temos que seguir viagem de outra maneira. Andando.
        De carona. Quando cruzarmos a fronteira com a Holanda, podemos tomar outro trem para
        o leste.
        Sarah continuava abraada a ele e ouvia as suas palavras. O perigo havia adquirido
        propores irracionais. O homem de culos de sol tinha se tornado algo mais que um
        humano. Era sobrenatural, um horror superior a tudo o que existia no mundo real. Fechou
        os olhos e o imaginou esperando-a na prxima estao de trem ou logo na seguinte. Nick
        no poderia espant-lo sempre.
        Olhou para o caminho de ferro e rezou para que a prxima paragem chegasse logo.
        Tinham que sair antes que fossem capturados.
              Mas a ferrovia parecia estender-se de maneira interminvel. E dava-lhe a impresso
        de que o trem se tinha tornado num atade de ao que os levava diretamente s mos do
        assassino.
        
        
             Kronen examinou o hematoma no rosto atravs do espelho e um olhar de raiva o
        envolveu como magma quente. A mulher havia escapado pela segunda vez. Teve-a nas
        mos e havia fugido.
        Socou o espelho. Esse homem, Nick O'Hara, se havia colocado j por duas vezes em seu
        caminho. No sabia quem era, mas jurou mat-lo quando voltasse a encontr-lo. Ainda
        que isso talvez no fosse to fcil, j que tinham desaparecido.
             Quando os homens de Kronen interceptaram o trem em Anturpia, a mulher e seu
        acompanhante j tinham desaparecido. Podiam estar em qualquer parte. No sabia para
        onde iam nem por que.
             Teria que pedir ajuda ao velho outra vez. E essa ideia o enfureceu. Contra a mulher,
        por escapar e contra seu acompanhante, por intrometer-se. Ela pagaria muito caro por
        tudo o que lhe havia causado.
             Colocou os culos de sol. O hematoma era bem visvel acima da ma direita do
        rosto. Uma lembrana humilhante de que havia sido derrotado por uma criatura to
        pattica como Sarah Fontaine.
             Mas era s um contratempo passageiro. O velho a buscaria e ele tinha olhos em
        todas as partes, incluindo os lugares menos suspeitos. Sim, a encontraria.
             No podia esconder-se eternamente.
        
        
              O piar das pombas despertou Sarah. Abriu os olhos e a luz do entardecer iluminou as
        paredes de pedra e as ps de madeira do moinho que giravam lentamente. Uma pomba
        pousou numa janela alta e comeou a piar. As ps do moinho rangiam e chiavam como
        madeira de um barco velho. Deitada na palha sentia-se tomada por uma sensao de paz,
        e de medo, de que lhe restassem poucos momentos como aquele para viver. E gostava
        tanto da vida!
              Virou-se para Nick, que dormia a seu lado na palha, com as mos unidas atrs do
        pescoo e o peito subindo e descendo no ritmo de sua respirao. Tinham pedido carona
        at cruzar a fronteira com a Holanda e, em seguida, caminharam por muitas horas.
              Estavam a um quilmetro da estao de trem mais prxima e haviam decidido
        esperar que escurecesse. Encontraram aquele moinho no meio do campo e adormeceram
        imediatamente.
              Deitou-se ao lado de Nick. Este despertou com um estremecimento e a apertou
        contra si.
               Logo ir escurecer  sussurrou ela.
              Hummm.
              Gostaria de no ter que sair daqui.
              Eu tambm  suspirou ele.
             Sentaram-se e Nick comeou a tirar pedaos de palha de seu cabelo.
              Estou com medo  disse ela.
             Ele a abraou.
              Viveremos no presente, um dia de cada vez. No podemos fazer outra coisa.
              Eu sei.
              Voc  forte, Sarah. De certo modo, mais forte do que eu.
             Beijou-a com fora, como um homem sedento de seu sabor. Os pssaros piavam
        acima deles, despedindo-se da ltima luz do dia. A noite caiu sobre os campos com seu
        manto de escurido protetora.
             Nick se afastou com um gemido.
              Se continuarmos assim, perderemos o trem. No que eu me importe, mas...
        Apertou os lbios uma ltima vez sobre os dela.  Temos que ir. Est pronta?
             Sarah respirou fundo e assentiu.
              Estou pronta.
        
        
              O velho estava sonhando.
              Nienke estava de p  sua frente, com o comprido cabelo recolhido em um leno
        azul. Seu rosto largo estava manchado da terra do jardim e sorria.
               Frank  disse  tem de construir um caminho de pedra entre as roseiras para os
        nossos amigos poderem passear entre as flores. Agora tm que andar em redor dos
        arbustos, no no meio deles, onde esto as rosas de cor lavanda e amarelo. Esto
        desperdiadas. Tenho que lev-los e sujam os sapatos de barro. Um caminho de pedra,
        Frank, como o que tnhamos na casinha de Dordrecht.
               Claro  disse ele.  Eu direi ao jardineiro que o faa.
              Nienke sorriu. Aproximou-se dele. Mas quando estendeu uma mo para toc-la, o
        leno azul desapareceu. O que tinha sido o cabelo de Nienke era agora um halo de fogo
        brilhante. Tentou arranc-lo antes que lhe chegasse ao rosto e nas suas mos ficaram
        mechas grossas de cabelo. Quanto mais tentava apagar as chamas, mais cabelo e carne
        arrancava. Destrua a sua mulher pedao por pedao tentando salv-la.
              Olhou para baixo e viu que os seus braos estavam em chamas, mas no sentia dor;
        um grito silencioso explodiu em sua garganta ao ver que Nienke o deixava para sempre. O
        homem era alto, de cabelos grisalhos, sem os pentear. A mulher usava um vestido
        indefinido e uma capa cinza.
        
        
              Que aconteceu  sua antiga virtude da hospitalidade?  perguntou Nick.
             Wes sobressaltou-se.
              Que diabos...?  voc?
              Podemos entrar?
              Claro. Claro  Corrigan, ainda atordoado, lhes indicou a cozinha e fechou a porta.
        Era um homem baixo e atarracado de uns trinta e tantos anos.  luz fria da cozinha, sua
        pele era amarelada e tinha os olhos toldados de sono. Olhou seus visitantes e balanou a
        cabea, confuso. Seu olhar caiu sobre o cabelo branco de Nick.
               Quanto tempo se passou?
              O interrogado sacudiu a cabea e comeou a rir.
                talco. Mas as rugas so todas minhas. Tem mais algum em casa?
               Somente o gato. Que diabo est acontecendo?
              Nick passou a seu lado, saiu da cozinha e entrou na sala de estar. No respondeu.
        Wes virou-se para Sarah, que tirava a capa neste momento.
               Ah, ol. Sou Wes Corrigan. E voc?
               Sarah.
               Encantado em conhec-la.
               A rua parece limpa  disse Nick, voltando para a cozinha.
               Claro que est limpa. A varrem todas as quintas.
               Quero dizer que no est sendo vigiado.
              Corrigan pareceu triste.
               Bem, levo uma vida muito maante. Bem, e ento, o que est acontecendo?
              Nick suspirou.
               Estamos numa confuso.
              Corrigan assentiu.
               Sim, j tinha chegado a essa concluso. Quem os segue?
               A CIA. Entre outros.
              Wes o olhou incrdulo. Aproximou-se da porta da cozinha, olhou para fora e fechou o
        trinco.
               A CIA est atrs de vocs? Que fizeram? Venderam segredos do pas?
                uma longa histria. Precisamos de sua ajuda.
              Wes concordou, com cansao.
               Era isso que eu temia. Vamos, sentem-se, sentem-se. Vou fazer um caf. Esto com
        fome?
              Nick e Sarah olharam-se sorridentes.
               Muita  disse ela.
              Corrigan se aproximou da geladeira.
               Saindo ovos com bacon.
              Demoraram uma hora para contar tudo. Quando terminaram a cafeteira estava vazia.
        Nick e Sarah tinham comido, ambos, meia dzia de ovos e Corrigan estava totalmente
        acordado e preocupado.
               Por que acha que Potter est no meio disto?  perguntou.
                evidente que est encarregado do caso. Foi ele quem libertou Sarah. E devia
        comandar os dois agentes que nos seguiram a Margate. Mas ali tudo saiu errado. E ainda
        que a CIA no seja muito competente, to pouco so de se envolverem sem alguma ajuda.
        Algum matou aquela gente. E depois comeou a disparar contra ns.
               O homem de culos de sol, quem quer que seja  Wes balanou a cabea.  No
        gosto disso.
               Eu muito menos.
              Corrigan pareceu pensativo.
              E quer que eu investigue a ficha de Magus. Pode ser difcil.  considerada muito
        secreta, no poderei chegar a ela.
              Faa o que puder. No podemos fazer isso, sozinhos. At que Sarah encontre
        Geoffrey e consiga algumas respostas, no temos nada.
              Sim, compreendo. Os acompanhou at a porta dos fundos. L fora brilhavam as
        estrelas em um cu claro.
              Onde iro dormir?
              Temos um quarto perto de Kudamm.
              Podem ficar aqui.
               muito arriscado. Cruzamos a fronteira, ento devem saber que estamos aqui.
             Se forem espertos, no demoraro em vigiar a sua casa.
              E como posso me comunicar com voc?
              Eu telefonarei. Irei me identificar como Barnes.  melhor que no saiba onde
        estamos.
              No confia em mim?
             Nick vacilou.
              No  isso, Wes.
              Ento o que ?
               um assunto muito feio.  melhor que no se envolva muito.
             Nick e Sarah afastaram-se na escurido, mas no sem antes ouvir Wes dizer:
              J estou envolvido.
        
        
             Ao amanhecer, Sarah estava encolhida nos braos de Nick. Apesar do seu cansao,
        nenhum dos dois pde dormir. Muitas coisas dependiam do que acontecesse naquele dia.
        Pelo menos j no estavam sozinhos. Contavam com Wes Corrigan.
             Nick se mexeu e o seu hlito aqueceu o cabelo dela.
              Quando isto terminar  sussurrou -, quero que fiquemos como estamos agora.
        Assim mesmo.
              No sei se isto terminar algum dia  suspirou ela.  Se voltarei para casa.
              Voltaremos. Juntos. Prometo. E Nick O'Hara sempre cumpre as suas promessas.
             Sarah escondeu o seu rosto na curva do ombro dele.
              Nick, desejo muito voc, mas j no sei se estou cega ou se o amor me d medo.
        Estou muito confusa. Voc no?
              Sobre voc? No. Parece uma loucura, mas acredito que a conheo bem. E  a
        primeira mulher de quem posso falar isso.
              E sua esposa? No a conhecia?
              Lauren? Sim. Suponho que sim. No fim.
              O que houve de errado?
             Nick se recostou no travesseiro. Encolheu os ombros.
              Suponho que no foi culpa de ningum, mas no posso esquecer o que fiz  a olhou
        com tristeza.  Estvamos casados h trs anos. Ela gostava do Cairo. Gostava da vida nas
        embaixadas. Era uma grande esposa de diplomata. Creio que foi um dos motivos porque se
        casou comigo. Porque pensou que poderia mostrar-lhe o mundo. Infelizmente, minha
        carreira inclua ir a lugares que no lhe pareciam muito civilizados.
              Como Camares?
              Exato. Eu queria aquele posto. Somente teria sido um par de anos. Mas ela se
        negou a ir. Ento me ofereceram Londres, de que ela gostava. Talvez tudo tivesse sado
        bem se no fosse...  interrompeu-se e Sarah notou que ele ficou rgido.
              No tem que contar-me se no quiser.
              Ela ficou grvida e eu me encontrava em Londres. Ela no me disse isso e sim o
        mdico da Embaixada. E durante seis horas fui to feliz que acreditava estar flutuando. At
        que cheguei em casa e descobri que ela no queria o beb.
             Sarah no podia dizer nada para diminuir sua dor; somente confiar que, quando
        terminasse de contar, encontrasse o consolo em seus braos.
              Eu queria ter aquele filho. Supliquei para que o tivssemos. Mas Lauren o
        considerava uma inconvenincia  olhou para Sarah.  Uma inconvenincia! Imagina isso?
              No.
              Eu tambm no. Ento me dei conta de que no a conhecia. Brigamos e ela voltou
        para casa e... Resolveu o problema. No voltou. Um ms depois me enviou os papis do
        divrcio. Isso h quatro anos.
              A procurou?
              No. Foi quase um alvio receber os papis. E tenho estado sozinho desde ento.
        Assim  mais fcil. No sofro  tocou-lhe o rosto e nos seus lbios nasceu um sorriso.  Em
        seguida, voc entrou em meu escritrio com seus culos graciosos e... No princpio no
        prestei muita ateno em sua aparncia, mas logo tirou os culos e vi seus olhos. E ali
        comecei a desej-la.
              Vou tirar esses culos.
              Jamais. Encantam-me.
             Sarah comeou a rir, grata pelas coisas alegres que habitualmente dizem os
        apaixonados. Pela primeira vez em sua vida se sentia quase bonita.
              Sarah? Tem pensado no que acontecer quando o encontrarmos?
              Eu no posso pensar tanto nisso.
              Ainda o ama.
             A jovem balanou a cabea.
              J no sei a quem quero. A Simon Dance no. Talvez o homem que eu queria nunca
        tenha existido. Nunca foi real.
              Mas eu sim  sussurrou Nick.  Eu sou real. E no tenho nada a esconder.
        
        
             Onze
        
        
              Seria ali onde o encontraria?
              Sarah no podia deixar de pensar nisso enquanto o nibus circulava pelas avenidas
        de lojas na direo oeste.
              Meia hora antes havia telefonado para o nmero da fatura de Eve e tinham
        descoberto que era de uma floricultura. A mulher do outro lado se mostrou amvel e
        desejosa de ajud-los. Indicou-lhes o caminho at a floricultura.
              No era um bom bairro. Sarah notou que as ruas amplas davam lugar a ruelas
        cobertas de vidro partido, num bairro de casas em runas. As crianas brincavam na rua e
        os velhos se sentavam em bancos nas varandas.
              Geoffrey estaria escondido em uma daquelas casas? Estaria esperando no sto da
        floricultura?
              Desceram do nibus numa esquina. Um quarteiro  frente encontraram o endereo
        que procuravam. Era uma loja pequena, de vitrinas sujas. Na calada se viam baldes de
        plstico cheios de rosas. Uma campainha de bronze soou quando a porta se abriu.
              O perfume de flores era esmagador. Uma mulher robusta, de uns cinquenta anos,
        lhes sorriu do outro lado do balco cheio de laos, rosas e verdes. Estava fazendo arranjos.
        Olhou para Nick.
               Guten tag  disse.
              O homem assentiu.
               Guten tag.
              Andou pela loja, olhando os refrigeradores com suas portas de vidro e as estantes
        com jarras, estatuetas e flores de plstico. Perto da porta havia uma coroa de flores,
        embrulhada em plstico, pronta para ser entregue. A vendedora tirou os espinhos das
        rosas e comeou a enrolar a fita em torno dos talos. Era um buqu de noiva. Enquanto
        trabalhava, cantarolava uma msica nem um pouco incomodada pelo silncio de seus dois
        visitantes. Afinal deixou o ramalhete e olhou para Sarah.
               Sim?  perguntou com suavidade.
              Sarah tirou a fotografia de Geoffrey e a deixou sobre o balco. A mulher a olhou, mas
        no disse nada. Nick apontou para a foto com a cabea e lhe perguntou algo em alemo.
              A mulher negou com a cabea.
               Geoffrey Fontaine  disse ele.
              A mulher no demonstrou nenhuma reao.
               Simon Dance.
              A mulher o olhou sem entender.
               Mas tem que conhec-lo  interveio Sarah.   meu esposo. Tenho que encontr-lo.
               Sarah, deixe comigo...
               Ele est me esperando. Se souber onde est, chame-o. Diga-lhe que estou aqui.
               Sarah, ela no entende voc.
               Tem que entender. Nick, pergunte por Eve. Ao menos conhece a ela.
              A mulher respondeu  pergunta encolhendo os ombros. Ou no sabia nada sobre
        Geoffrey ou no pensava em dizer.
              Sarah guardou a foto. Sentia uma grande desiluso. A mulher alem voltou a sua
        ateno aos buqus.
              A jovem olhou para Nick.
               Que faremos agora?
              O homem olhava a coroa de flores frustrado.
               No sei  murmurou.  No sei.
              A vendedora comeou a cortar pedaos de papel de seda.
               Por que Eve telefonaria aqui?  perguntou Sarah.  Tinha que haver um motivo.
              Aproximou-se do freezer e olhou para os baldes de cravos e rosas. O cheiro das flores
        comeava a dar-lhe nuseas. Recordava-lhe o doloroso dia, duas semanas atrs, no
        cemitrio.
               Por favor, Nick. Vamos embora.
              O homem olhou a vendedora e lhe agradeceu em alemo.
              A mulher sorriu e estendeu uma rosa para Sarah, embrulhada em papel fino. Seus
        olhos se encontraram. Foi um olhar breve, mas bastou  para a jovem foi o suficiente para
        compreender o seu significado. Acabava de passar-lhe algo.
              Aceitou a rosa e lhe agradeceu. Voltou-se e seguiu Nick para fora da loja.
              Uma vez na rua, apertou o cabo com fora. Teve que recorrer a toda sua fora de
        vontade para no rasgar o papel e ler a mensagem que, estava certa, existia dentro dele.
        Mas os olhos da mulher lhe tinham transmitido tambm uma mensagem de advertncia.
              Ainda que a nica pessoa que havia por perto fosse Nick. Seu amigo, seu protetor. O
        homem que a tinha seguido at Londres e desde ento no havia se separado dela. Por
        qu?
              No queria acreditar, mas a razo poderia ser que queria vigi-la.
              No, no podia estar segura. E ela o queria.
              Mas no podia esquecer o olhar de advertncia da mulher.
              A viagem no nibus pareceu eterna. Quando chegaram ao hotel, foi para o banheiro
        no final do corredor e fechou a porta. Separou o papel com mos tremulas e leu a
        mensagem. Estava em ingls e havia sido escrita apressadamente a lpis.
              "Postdamer Platz, amanh  uma hora... No confie em ningum."
              Olhou as trs ltimas palavras. Seu significado era inconfundvel. Tinha sido muito
        descuidada, mas no poderia se permitir a cometer mais erros. A vida de Geoffrey
        dependia dela.
        Rasgou o bilhete em pedaos e o jogou no vaso.
              Saiu do banheiro e foi para o quarto com Nick.
              No podia deix-lo ainda. Antes tinha que estar segura. O queria e em seu corao
        estava certa de que jamais lhe causaria mal. Mas tinha que saber para quem trabalhava.
              No dia seguinte encontraria finalmente respostas em Potsdamer Platz.
        
              Comevamos a pensar que no viria  disse Nick.
             Wes Corrigan parecia nervoso. Sentou-se numa cadeira de frente para os outros dois.
              Eu tambm  murmurou, olhando sobre o ombro.
              Problemas?
              No estou certo. Isso  o que me preocupa.  como um desses filmes de horror em
        que nunca se sabe se o monstro ir pular em cima de voc ou no.
             Haviam escolhido um caf escuro para o encontro. Sua mesa estava iluminada
        apenas por uma vela; estavam rodeados por pessoas que falavam aos sussurros e no se
        preocupavam com os assuntos dos outros. Ningum olhou em sua direo.
              Te garanto que todo este assunto me assustou  disse Wes, depois de pedir uma
        cerveja.
              Que aconteceu?
               Para comear, tinha razo. Estou sendo vigiado. Pouco depois de sarem chegou um
        furgo que no se moveu da frente da minha casa. Tive que sair pela porta dos fundos.
        No estou acostumado com isto. Fico nervoso.
               Descobriu alguma coisa?
              Wes olhou ao seu redor e baixou a voz.
               A primeira coisa que fiz foi buscar meu arquivo sobre a morte de Geoffrey Fontaine.
        Quando te liguei h uma semana, tinha o relatrio do legista e da polcia, cpia de seu
        passaporte...
               E?
               Desapareceram.  Olhou para Sarah.  Sumiu tudo do computador.
               E o que tem?
               Sobre ele, nada.  como se esse arquivo nunca tivesse existido.
               No podem apagar a vida de um homem  apontou Sarah.
              Wes encolheu os ombros.
               Algum est tentando. No sei quem. Pode ter sido uma dzia de pessoas
        diferentes.
        Ficaram em silncio enquanto a garonete lhes servia po, um prato de caracis com alho,
        manteiga e queijo Gouda.
               E sobre Magus?  disse Nick.
              Wes limpou uma gota de manteiga do queixo.
               Nem tampouco existe algo com esse nome.
               No me surpreende  disse Nick.
               Eu no tenho acesso aos papis mais secretos. E acredito que Magus possa estar
        nessa categoria.
               Ou seja, no temos nada  disse Sarah.
               Bem...
              Wes tirou um envelope de sua jaqueta e o colocou sobre a mesa.
               Encontrei algo sobre Simon Dance.
              Nick pegou o envelope. Dentro havia duas pginas.
               Meu Deus, olhe isto!  passou as pginas para Sarah.
              Era uma fotocpia de uma solicitao de visto feito seis anos antes. Inclua uma cpia
        da foto do passaporte. Os olhos eram estranhamente familiares. Mas se Sarah houvesse
        encontrado aquele homem na rua, teria passado direto sem not-lo.
              O corao batia forte.
               Este  Geoffrey  disse com suavidade.
              Ele assentiu.
               A aparncia que tinha h seis anos, quando se chamava Dance.
               Como o encontrou?  perguntou Nick.
               No haviam apagado este arquivo. Talvez pensassem que era muito antigo e no se
        incomodaram.
              Sarah olhou a pgina seguinte. Simon Dance tinha um passaporte alemo com um
        endereo em Berlim. Sua profisso havia sido arquiteto e estava casado.
               Por que solicitou este visto?  perguntou.
               Era de turista  respondeu Wes.
               Mas por qu?
               Talvez quisesse fazer turismo.
               Ou estudar outras possibilidades  completou Nick.
               Investigaram esse endereo em Berlim?
              Wes assentiu.
               J no existe. O demoliram no ano passado para dar lugar para um arranha-cu.
               Ento estamos sem pistas  disse Nick.
               Tenho uma ltima fonte  comentou Wes. -Um velho amigo que trabalhou para a
        CIA. Saiu no ano passado porque estava farto do trabalho. Pode ser que saiba alguma coisa
        de Simon Dance e Magus.
               Tomara.
              Wes ficou de p.
               No posso demorar muito. O furgo continua esperando em frente a minha casa.
        Telefone-me amanh ao meio-dia e talvez eu tenha algo.
               O mesmo procedimento?
               Sim. D-me quinze minutos depois que ligar. Nem sempre posso ir para uma cabine
        na hora. Olhou Sarah.  Espero que tudo isso se resolva logo. Deve estar cansada de fugir.
              A jovem concordou.
              Olhou para os dois homens e pensou que no era a falta de sono nem as refeies
        irregulares que lhe esgotavam e sim a ansiedade de no saber em quem confiar.
        
        
              Est muito calada  disse Nick.  Est acontecendo algo?
             Voltaram andando para o hotel. Nick tinha entrado numa rua iluminada, mas ela
        ansiava pela escurido, um lugar longe do trnsito e das luzes de neon.
              No sei  suspirou. Parou e o olhou nos olhos. Os dele eram impenetrveis, escuros,
        olhos de um desconhecido.  Posso confiar em voc de verdade?
              Vamos, Sarah. Que pergunta ridcula!
              Se ns tivssemos conhecido de outro modo!
             O homem acariciou-lhe o rosto, suavemente.
              Isto no podemos mudar. Mas tem que confiar em mim.
              Confiava em Geoffrey  sussurrou ela.
              Mas eu sou Nick.
              E quem  Nick? s vezes me pergunto.
             O homem a tomou nos braos.
               normal. Mas com o tempo deixar de perguntar. Aprender a confiar em mim.
             Sarah deixou-se abraar, pensando que talvez essa fosse uma das ltimas lembranas
        que teria de Nick.
             Quando chegaram ao hotel, em algum lugar do prdio tocava uma balada alem
        interpretada por uma mulher de voz triste.
             Nick apagou a luz. A msica era cheia de pesar; era uma cano de partidas, do adeus
        de uma mulher. Sarah levaria sempre aquela cano em seu corao.
             Nick aproximou-se dela. A msica aumentou de volume e ela se enterrou em seus
        braos. Sentia que se esforava para entender e queria contar-lhe tudo. O amava. Disso
        estava certa.
             A msica terminou. Somente se ouvia a respirao dos dois.
               Vamos fazer amor  sussurrou ela. -Por favor. Agora. Vamos fazer amor.
              Os dedos dele baixaram sobre seu rosto e se detiveram na bochecha.
               Sarah, no entendo... Sei que h algo com voc.
               No me pergunte nada. Vamos fazer amor. Faa-me esquecer. Quero esquecer.
              Nick deu um gemido e tomou seu rosto nas mos.
              Um instante depois desfrutava do sabor de sua boca. Sentiu a mo dele sob sua blusa
        e sua boca se fechar sobre seu seio. Apenas deu-se conta de que ele tirava sua saia, estava
        mais consciente do que ele lhe fazia com a boca.
              Deixou-se cair na cama e ele deitou-se por cima dela, deixando-a sem ar.
               Te desejei desde o primeiro dia  sussurrou Nick.  No pensei em outra coisa.
              Tirou sua camisa, um dos botes saltou pelo ar e pousou no seu ventre nu. Nick o
        afastou e beijou com reverncia o lugar onde havia cado. Depois ficou de p e terminou
        de tirar a roupa.
              A luz dos faris que entrava pela janela iluminava seus ombros nus. Sarah apenas via
        a linha de seu rosto. Ele no era mais que uma sombra que adquiriu fogo e substncia
        quando seus corpos se encontraram. Suas bocas beijaram-se com paixo; Nick invadia sua
        boca, devorando-a; ela lhe retribua com toda sua alma.
              A penetrao foi lenta, vacilante, como se temesse machuc-la. Mas no demorou a
        esquecer de todo o cuidado, at que j no era Nick O'Hara e sim uma criatura selvagem,
        indomvel. Mas, inclusive o momento final, houve uma ternura entre eles que ia alm do
        desejo.
        At cair exausto a seu lado, no tornou a pensar no silncio dela.
              Sabia que o havia desejado; sua resposta tinha superado todas as suas fantasias. Mas
        algo lhe ocorria. Tocou-lhe a face e percebeu-a mida. Algo havia mudado.
              Perguntaria mais tarde. Quando tivessem dado vazo  sua paixo, ele a obrigaria a
        contar-lhe por que chorava. Agora no. No estava preparada. E ele a desejava
        novamente. No podia esperar mais.
              Quando a penetrou pela segunda vez, esqueceu todas aquelas perguntas. Esqueceu-
        se de tudo, menos da suavidade e do calor dela. No dia seguinte se lembraria do que tinha
        que perguntar.
              No dia seguinte.
        
        
               Bom dia, senhor Corrigan. Podemos falar um momento com o senhor?
              Pelo tom de voz, Wes soube imediatamente que no se tratava de uma visita de
        cortesia. Olhou os dois homens que acabavam de entrar em seu escritrio. Um era baixo e
        robusto. O outro era alto e magro. Nenhum sorria.
              Wes clareou a garganta.
               Ol, senhores. O que desejam.
              O homem alto se sentou e o olhou nos olhos.
               Onde est Nick O'Hara?
              Wes sentiu que sua voz se congelava. Demorou alguns segundos para recuperar a
        compostura, mas ento era muito tarde. Havia se trado. Afastou um monte de papis e
        disse:
              -Ah... No est em Washington?
             O homem baixo respondeu.
              No brinque conosco, Corrigan.
              Quem est brincando? E quem so vocs?
              Me chamo Van Dam  disse o mais alto.  E ele  o senhor Potter.
             Wes se colocou de p tentando parecer indignado.
              Olhem, hoje  sbado. Tenho coisas para fazer. Podem pedir uma entrevista para
        algum dia nesta semana, como todo mundo?
              Sente-se, Corrigan.
              Queremos O'Hara  disse Potter.
              No posso ajud-los.
              Onde esto?
              Em Washington. Eu mesmo lhe telefonei h duas semanas devido a um assunto
        consular.
        Van Dam suspirou.
              No vamos continuar mais tempo com essas idiotices. Sabemos que est em Berlim
        e que ontem esteve pesquisando algo nos computadores para ele.  evidente que esto
        mantendo contato.
              Isso  pura especula...
              Vamos, senhor Corrigan; todos sabemos por que pesquisou ontem os arquivos de
        Geoffrey Fontaine e de Simon Dance. E ns queremos o senhor O'Hara.
              Por que o querem?
              Nos preocupamos com sua segurana  respondeu Van Dam. E da mulher que viaja
        com ele.
              Sim, claro.
              Olhe Corrigan  interveio Potter.  Suas vidas dependem de os encontramos a
        tempo.
              Contem-me outra histria.
             Van Dam se inclinou para frente com os olhos fixos nele.
              Esto metidos em algo grave. Precisam de proteo.
              Por que devo acreditar?
              Se no nos ajudar, ter o sangue dele em suas mos.
             Wes balanou a cabea.
              No posso ajud-los.
              No pode, ou no quer?
              No posso. No sei onde ele est. E  a verdade.
             Van Dam e Potter se olharam.
              Est bem  disse o primeiro.  Coloque seus homens. Teremos que esperar.
             Potter concordou e saiu do escritrio.
             Wes comeou a levantar-se. Van Dam lhe fez sinal de que voltasse a se sentar.
              Temo que no sair deste edifcio por um bom tempo. Se tiver que usar o banheiro,
        avise-nos e lhe enviaremos uma escolta.
              Maldio! Que est acontecendo?
             Van Dam sorriu.
              Vamos esperar, senhor Corrigan. Ficaremos todos aqui at que toque seu telefone.
             Doze
        
        
              s 12:45 do dia seguinte Sarah descia de um txi na Potsdamer Platz. Estava sozinha.
        Despistar Nick havia sido mais fcil do que pensava.
              Esperou que ele sasse para telefonar a Wes Corrigan, pegou a sua bolsa e saiu pela
        porta.
        Cruzou a praa esforando-se para no pensar nele. Havia visto num mapa que a
        Potsdamer Platz era um ponto de interseco dos setores: ingls, americano e sovitico. O
        muro de Berlim cruzava a praa. Parou prxima a um grupo de estudantes e fingiu escutar
        o professor, mas procurava incessantemente um rosto.
              Onde estava a mulher?
              De repente, ouviu uma voz feminina.
               Siga-me. Mantenha alguma distncia.
              Voltou-se e viu a mulher da floricultura afastando-se com uma sacola de compras no
        brao. A mulher se dirigia para o noroeste, em direo  Bellevuestrasse.
              Sarah a seguiu a uma distncia discreta.
              Trs quadras depois, a vendedora desapareceu em uma loja de velas. A jovem
        hesitou um momento do lado de fora. Uma cortina cobria a vitrina e no podia ver o
        interior. Finalmente, optou por entrar.
              A vendedora no estava  vista. O cheiro de lavanda e pinho das velas acesas
        impregnava o cmodo. Nos balces havia criaturas estranhas feitas de cera. Uma chama
        ardia em um velho gnomo, derretendo-lhe lentamente a face.
              Sobre o balco havia uma vela em forma de mulher. A cera derretida caa por seus
        seios como se fossem mechas de cabelo.
              Sarah olhou surpresa para o homem velho que apareceu do outro lado do balco.
        Fez-lhe um sinal para se aproximar.
              A jovem obedeceu. Entrou em um pequeno depsito com o corao disparado e saiu
        pela porta dos fundos.
              O sol ofuscou-lhe a vista. A porta fechou-se e ela encontrou-se de p em um beco. 
        direita estava Potsdamer Platz. Onde estava a mulher?
              O som de um motor levou-a a virar-se. Um Citroen preto se dirigia diretamente para
        ela. No podia fugir. A porta da loja estava fechada. O beco era um tnel interminvel de
        edifcios contnuos. Apoiou-se aterrorizada contra a parede, olhando fixamente o carro
        que se aproximava.
              O veculo se deteve e abriu a porta de trs.
               Suba  disse a mulher.  Depressa.
              Sarah se afastou da parede e subiu no carro.
              O veculo colocou-se em marcha. Virou primeiro  esquerda, em seguida  direita e
        depois outra vez a esquerda. A jovem no sabia onde estava. A vendedora olhava
        continuamente para trs.
              Quando pareceu convencida de que ningum os seguia, virou-se para Sarah.
               Agora podemos conversar  disse.
              A jovem olhou o motorista, questionando.
               Podemos conversar  repetiu a mulher.
               Quem  voc?
               Uma amiga de Geoffrey.
               E sabe onde ele est?
              A mulher no respondeu. Disse algo em alemo ao motorista e este deixou a rua que
        levava ao centro e entrou num parque. Pouco depois, estacionou entre as rvores.
               Vamos caminhar um pouco  disse a vendedora.
              Cruzaram, juntas, a grama.
               Como conheceu meu marido?  perguntou a jovem.
               Trabalhamos juntos anos atrs. Ento se chamava Simon. Era um dos melhores.
               E voc tambm est... Nesse negcio?
               Estava. At cinco anos antes.
              Era difcil imaginar que fora outra coisa que no uma dona de casa gorducha. Ainda
        que talvez sua fora estivesse precisamente ali... Parecia muito normal.
               No, j sei que no o aparento  murmurou.  Os melhores nunca no aparentam o
        que so.
              Caminharam em silncio.
               E era boa, como Simon  disse.  E agora at eu tenho medo.
              Pararam e se olharam nos olhos.
               Onde ele est?  perguntou Sarah.
               No sei.
               E por que me trouxe aqui?
               Para avis-la. Como um favor a um velho amigo.
               Refere-se a Geoffrey?
               Sim. Neste mundinho temos poucos amigos, mas os que temos so tudo para ns.
        Comearam a andar de novo. Sarah olhou para trs e viu que o Citroen as esperava na rua.
               Eu o vi h pouco mais de duas semanas  continuou a mulher.  Estava preocupado.
        Pensava que as pessoas para quem trabalhava o haviam trado. Queria desaparecer.
               Trado? Por quem?
               Pela CIA.
              Sarah parou, atnita.
               Ele trabalhava para a CIA?
               O obrigaram. Era muito bom. Mas muitas coisas comearam a dar errado e Simon
        queria desligar-se. Veio ver-me e pediu um passaporte novo e outros papis que precisaria
        para sair de Berlim quando trocasse de identidade  sacudiu a cabea.  Conversamos
        algumas horas e me entregou uma foto sua. Por isso a reconheci na loja.
              Fez uma pausa.
               Me disse que voc era uma pessoa muito... Delicada. Que se arrependia por causar-
        lhe algum mal. Prometeu-me que voltaria a v-lo algum dia. Mas naquela noite soube do
        fogo. Ouvi dizer que tinham encontrado um corpo.
               Acredita que ele esteja morto?
               No.
               Por que no?
               Se estivesse morto, porque iram seguir voc?
               Mencionou uma operao da CIA. Tem algo a ver com um homem chamado
        Magus?
              A mulher mostrou-se surpresa.
               No deveria lhe ter falado sobre Magus.
               No foi ele. Foi Eve.
               Ah  a olhou com ateno.  Vejo que conhece Eve. Espero que no esteja com
        cimes. No podemos permitir isso neste ramo  sorriu. A pequena Eve! Suponho que j
        ter perto de 40 anos. E suponho que continue muito bonita.
               Voc no soube?
               O qu?
               Eve morreu.
              A mulher parou. Empalideceu.
               Como foi?  sussurrou.
               Aconteceu num beco em Londres... H poucos dias.
               A torturaram?
              Sarah confirmou com a cabea.
              A mulher observou o parque rapidamente.
              Alm do motorista do Citroen, no havia ningum  vista.
               Ento no h tempo a perder  disse. Viro atrs de mim. Escute o que tenho para
        te dizer por que no nos tornaremos a encontrar. H duas semanas, seu marido estava
        envolvido em um assunto muito srio.
              -Magus?
               Sim. O que resta dele. Deram a ns os trs uma misso h cinco anos. Nosso
        objetivo era Magus. Simon colocou os explosivos em seu carro. O velho sempre ia dirigindo
        para seu trabalho. Mas naquela manh, ficou em casa. E sua esposa usou o carro.
              A voz da mulher hipnotizou Sarah. Tinha medo de ouvir o resto; podia adivinhar o
        que havia acontecido.
               A mulher morreu na hora. Depois da exploso, o velho saiu correndo da casa e
        tentou tir-la do carro. As chamas eram terrveis. Mas conseguiu sobreviver. E agora busca
        vingana.
               Vingana  murmurou Sarah. Trata-se disto.
               Sim. Contra Eve, contra mim. E, sobretudo, contra Simon. J pegaram Eve.
               E o que eu tenho a ver com tudo isto?
               Voc era a esposa dele.  seu nico vnculo com Simon.
               Que devo fazer? Ir para casa?
               Agora no pode voltar. Talvez nunca possa  olhou para o Citroen.
               Mas no posso passar a vida toda fugindo! Eu no sei viver assim. Preciso de ajuda.
        Se pudesse me dizer onde encontr-lo...
              A mulher a observou por um momento, calculando as suas possibilidades de
        sobrevivncia.
               Se Simon est vivo, estar em Amsterd.
               Em Amsterd? Por qu?
               Porque  l que Magus est.
              O telefone continuava tocando. Nick tamborilava a cabine, nervoso. Onde havia se
        metido a telefonista?
               Consulado Americano.
               Gostaria de falar com o senhor Wes Corrigan.
               Um momento, por favor  houve uma pausa. Procura pelo senhor Corrigan?  disse
        outra voz.  Creio que esteja almoando. Vou procur-lo para o senhor. No desligue, por
        favor.
        Saiu sem dar tempo para respostas e Nick esperou cinco minutos, estava a ponto de
        desligar quando a mulher voltou  linha.
               Desculpe, no responde. Mas tem que voltar a qualquer momento para uma
        reunio. Quer deixar uma mensagem?
               Diga-lhe que Steve Barnes telefonou.  um problema com meu passaporte.
               E o nmero de seu telefone?
               Ele j o tem.
              Segundo seu acordo, Wes teria que sair da Embaixada e telefonar para a cabine da
        rua. Nick lhe daria quinze minutos. Se no telefonasse neste tempo, tentaria de novo mais
        tarde. Mas algo lhe dizia que era um risco esperar tanto tempo ali. Algum bateu na
        cabine. Uma mulher jovem agitava uma moeda do lado de fora. Queria usar o telefone.
        Nick saiu praguejando e esperou que esta terminasse. Quando viu que o assunto se
        prolongava, tornou a praguejar e comeou a andar rua acima. Mas j tinha esperado
        muito.
              Um homem com terno escuro avanou para ele de uma esquina. Ps a mo no palet
        e tirou uma pistola, apontando-a para Nick.
               Quieto, O'Hara!  gritou Roy Potter as suas costas.
              Nick virou para a direita, disposto a comear a correr pela rua. Apareceram mais duas
        pistolas; o cano de uma delas apertou sua jugular. Ouviu o rudo que faziam ao destravar.
        Por alguns segundos ningum se moveu. A poucos metros deles, parou uma limusine e
        algum abriu a porta.
              Nick se virou para Potter, que lhe apontava a arma para a cabea.
               Guarde isso  disse.  Est me deixando nervoso.
               Suba no carro  ordenou o outro.
               Onde vamos?
               Falar com Jonathan Van Dam.
               E depois disso?
              Potter sorriu sem vontade.
               Isso depender de voc.
        
        
              Onde est Sarah Fontaine?
             Nick olhou mal humorado para Van Dam.
              Senhor, O'Hara, estou ficando impaciente. Fiz-lhe uma pergunta. Onde ela est?
             Nick encolheu os ombros.
              Se se importar com ela, nos dir onde ela est agora mesmo.
              Me importo. Por isso no lhes direi nada.
              No durar nem uma semana sozinha. No tem experincia. Est assustada. Temos
        que traz-la aqui.
              Por qu? Precisam dela para praticar tiro ao alvo?
               um estorvo, O'Hara  murmurou Potter.  Sempre foi e sempre ser.
              Eu tambm gosto muito de voc  grunhiu Nick.
             Van Dam ignorou os dois.
              Senhor O'Hara, essa mulher precisa de nossa ajuda. Estar melhor sob nossa
        guarda. Diga-nos onde est e talvez lhe salve a vida.
              Estava sob sua guarda em Margate e por pouco no a matam. Que est
        acontecendo?
              No posso dizer.
              Querem Geoffrey Fontaine, no ?
              No.
              Voc fez com que a soltassem em Londres e depois a seguiu. Pensou que o levaria
        at Fontaine, no ?
              J sabemos que ela no pode.
              Que quer dizer?
              No procuramos por Fontaine.
              Conte-me outra histria.
             Potter no pde continuar calado.
              Maldio!  gritou, golpeando a mesa.  Ser que no entende? Fontaine era um
        dos nossos.
             A revelao deixou Nick atnito. Olhou para Potter.
              Quer dizer que... Ele trabalhava para a CIA?
              Exatamente.
              E onde ele est?
             Potter suspirou, cansado.
              Est morto.
             Nick tentou assimilar a informao. Toda sua busca havia sido em vo. Haviam
        cruzado a Europa em perseguio a um morto.
              E quem persegue Sarah?  perguntou.
              No estou certo de que posso...  interveio Van Dam.
              No temos escolha  disse Potter. Tem que dizer a ele.
             Van Dam assentiu depois de uma pausa.
              Est bem. Prossiga.
             Potter comeou a andar pela sala.
              H cinco anos, Simon Dance era um dos melhores agentes do Mossad. Formava
        parte de uma equipe de trs pessoas. Os outros dois eram mulheres: Eve Saint-Clair e
        Helga Steinberg. Deram-lhes uma misso e fracassaram. Seu objetivo sobreviveu. Em seu
        lugar, mataram sua esposa.
              Dance era um assassino de aluguel?
             Potter se interrompeu e resfolegou como um touro.
              s vezes, O'Hara, voc tem que combater fogo com fogo. O alvo neste caso era o
        chefe de um cartel terrorista. Esses tipos no trabalham por ideologias e sim por dinheiro.
        Por cem mil dlares pe uma bomba. Por trezentos mil afundam um barco pequeno. Se
        preferir, te vendem o equipamento para que voc mesmo o faa. Fuzis ou msseis terra-ar.
        Tudo o que desejar. Somente h um modo de lidar com um clube assim. O trabalho tinha
        que ser feito e a equipe de Dance era a melhor.
               Mas o alvo escapou.
               Infelizmente, sim. Antes de um ano tinham posto a cabea dos trs agentes do
        Mossad a prmio, que ento haviam desaparecido. Acreditamos que Helga Steinberg
        continue na Alemanha. Dance e Eve Saint-Claire desapareceram e durante cinco anos
        ningum soube onde estavam. Em seguida, h trs semanas, um de nossos agentes estava
        sentado em um pub de Londres e ouviu uma voz conhecida. Havia trabalhado com Dance
        por anos e reconheceu sua voz. Assim descobrimos a sua nova identidade.
               E como comeou a trabalhar para a CIA?
               Eu o convenci.
               Como?
               Prometi o de sempre. Dinheiro. Uma nova vida. Recusou ambas as coisas. Mas
        queria uma: poder viver sem medo. Mostrei-lhe que o nico modo era terminar o trabalho
        de Magus, o homem que devia ter eliminado. Eu levara anos tentando encontrar Magus
        sem xito. Precisava da ajuda de Dance e ele aceitou.
               No poderia voc mesmo fazer o trabalho e contratar um pistoleiro?  disse Nick.
        Que aconteceu? Por que no fez o trabalho?
              Potter sacudiu a cabea.
               No sei. Em Amsterd, Dance ficou... Nervoso. Saiu correndo como um coelho
        assustado. Foi para Berlim e se meteu nesse hotel. Nessa noite, houve um incndio. Mas
        isso voc j sabe. E no voltamos a ter notcias de Simon Dance.
               O corpo no hotel era o dele?
               No podemos afirmar, mas me inclino a pensar que sim. No foi anunciado nenhum
        desaparecimento em Berlin. Dance no apareceu em nenhum outro lugar. No sei como
        aconteceu. Assassinato? Suicdio? Ambas as hipteses so possveis. Estava deprimido.
        Cansado.
              Nick franziu a testa.
               Mas se ele morreu naquele hotel, quem telefonou para Sarah?
               Eu.
               Voc?
               Foi uma montagem que fizemos com sua voz gravada. Havamos intervido no seu
        quarto de hotel em Londres.
              Nick se colocou tenso.
               Queria que ela viesse para a Europa? Vai me dizer que a queria como alvo?
               Alvo no, O'Hara. Isca. Soube que Magus continuava com a cabea de Dance a
        prmio. No acreditava que estivesse morto. Se pudssemos faz-lo crer que Sarah sabia
        de alguma coisa, talvez pudssemos atra-lo para a luz. Ns no a perdemos de vista em
        nenhum momento. At que nos despistaram, claro.
               Bastardos!  gritou Nick. Estavam brincando com sua vida!
               Existem coisas mais importantes em jogo...
                merda com suas coisas importantes!
              Van Dam se mexeu incomodado na cadeira.
               Senhor O'Hara, por favor, sente-se. Tente compreender a situao...
              Nick se voltou para ele.
               Foi ideia sua?
               No, foi minha  admitiu Potter. O senhor Van Dam no teve nada a ver com isso.
        Foi informado depois, quando apareceu em Londres.
              Nick olhou para Potter.
               Devia ter adivinhado. Cheira a coisa sua. O que pensa fazer em seguida? Amarr-la
        em praa pblica com um cartaz de tiro ao alvo?
              Potter balanou a cabea.
               No. A operao terminou. Van Dam quer que volte.
               Para que?
               Logo estar claro para todos que Fontaine est morto. Eles a deixaro em paz e ns
        procuraremos Magus de outra maneira.
               E o que houve com Wes Corrigan? No quero que nada acontea a ele.
               No acontecer nada. No ficar nenhum rastro em algum lugar.
              Nick tornou a sentar-se. Olhou para Potter com dureza. Sua deciso dependia de uma
        coisa.
        Poderia confiar naqueles homens. E que opo tinha se no o fizesse? Sarah estava
        sozinha, fugindo de um assassino. No poderia sobreviver s.
               Se for uma armadilha...
               No h necessidade de me ameaar, O'Hara. J sei do que  capaz.
               No  disse Nick.  Acredito que no sabe. E espero que no descubra jamais.
        
        
               Onde posso encontr-lo em Amsterd?  perguntou Sarah  mulher.
              Passeavam entre as rvores em direo ao Citroen. O cho estava molhado e os
        saltos de Sarah afundavam na grama nova.
               Est certa de que quer encontr-lo?  perguntou a mulher.
                preciso.  o nico a quem posso pedir ajuda. E ele est me esperando.
               Talvez no sobreviva a esta busca. Sabe disso, no?
              Sarah estremeceu.
               Eu j apenas sobrevivo. Tenho sempre medo. No deixo de pensar quando tudo
        isso terminar e se vai doer ou no  estremeceu. Com Eve usaram uma navalha.
              Os olhos da mulher escureceram.
              -Uma navalha? A assinatura de Kronen.
               Kronen?
                o favorito de Magus.
               Usa culos de sol e tem o cabelo loiro quase branco?
              A mulher assentiu.
               J o viu. Ele a estar procurando. Em Amsterd. Em Berlim. Onde quer que v,
        estar esperando.
               O que voc faria em meu lugar?
              A mulher a olhou pensativa.
               Em seu lugar e com sua idade? O mesmo que voc. Tentaria encontrar Simon.
               Ento me ajude. Diga-me como faz-lo.
               O que eu lhe dizer poder mat-lo.
               Terei cuidado.
              A mulher observou o rosto de Sarah, calculando sem dvida as suas possibilidades.
               Existe um clube em Amsterd... Casa Morro. Na rua Oude Zijds Voorburgwal. A
        proprietria  uma mulher chamada Corrie. Era amiga do Mossad e de todos ns. Se Simon
        estiver em Amsterd, ela saber encontr-lo.
               E se ela no souber?
               Ento ningum mais saber.
              A porta do Citroen j estava aberta. Subiram e o motorista partiu at Kudamm.
               Quando vir a Casa Morro, no se escandalize  disse a mulher.
               Por qu?
              A outra riu, suavemente.
               Voc ver  inclinou-se e falou com o motorista em alemo.
               Podemos deix-la perto de seu hotel.  o que quer?
              Sarah concordou. Precisava de dinheiro para chegar at Amsterd e Nick carregava
        quase tudo. Quando estivesse dormindo essa noite, tiraria uma parte da carteira dele e
        sairia de Berlim. Pela manh estaria muito longe.
              -Estou hospedada ao sul de...
               Sabemos onde   disse a mulher. Uma ltima coisa. Tenha cuidado em quem
        confia. O homem que a acompanhava, como se chama?
               Nick O'Hara.
               Poderia ser perigoso. H quanto tempo o conhece?
               Algumas semanas.
              A mulher assentiu.
               No confie nele totalmente. V sozinha.  mais seguro.
               Em quem posso confiar?
               Somente em Simon. No diga a mais ningum o que eu lhe contei. Magus tem olhos
        e ouvidos em todas as partes.
              Se aproximaram do hotel. A rua parecia to exposta, to perigosa, que Sarah se
        sentia mais segura no carro. No queria descer. Mas o Citroen j havia parado. Disps-se a
        abrir a porta quando o motorista soltou uma praga e apertou o acelerador.
               Nach rechts!  gritou a mulher, com o rosto tenso.
               Que est acontecendo?  perguntou Sarah.
               A CIA! Esto por toda a rua.
               A CIA?
               Olhe voc mesma.
              O hotel era, como as demais casas da rua, uma caixa de cimento cinzento com um
        letreiro roxo na fachada. Na calada estavam dois homens. Sarah os reconheceu. O
        atarracado de pernas curtas era Roy Potter. E a seu lado, com o olhar incrdulo no rosto,
        estava Nick.
        Parecia incapaz de mover-se, de reagir. Limitou-se a olhar fixamente o Citroen quando
        passou a seu lado. Por um instante seus olhos se encontraram atravs da janela. Pegou
        Potter pelo brao e os dois correram pela rua atrs do veculo numa v tentativa de abrir a
        porta. Ento, ela compreendeu tudo. Afinal, estava claro.
             Nick estava trabalhando com Potter desde o incio. Juntos, haviam elaborado um
        plano que a tinha enganado completamente. Nick era da CIA. Acabara de ter a prova.
        Quando voltou ao quarto e o encontrou vazio, fez soar um alarme.
             Afundou-se no assento. Ouviu a voz de Nick gritando seu nome e em seguida apenas
        o barulho do motor do carro. Encolheu-se contra a porta como um animal perseguido.
             Era um animal perseguido. Era procurada pela CIA, era procurada por Magus. E
        algum terminaria encontrando-a.
              Ns a deixaremos no aeroporto  disse a mulher. Se pegar um avio
        imediatamente, talvez possa sair de Berlim antes que a detenham.
              Mas para onde voc ir?  perguntou Sarah.
              Longe. Seguiremos rotas diferentes.
              E se eu precisar de voc? Como posso encontr-la?
              No pode.
              Mas nem sequer sei o seu nome!
              Se encontrar seu marido, diga-lhe que quem a mandou foi Helga.
             A placa que indicava o aeroporto surgiu rpido, no lhe dando tempo para pensar, de
        tomar coragem. O Citroen parou e ela teve que descer. Nem sequer pode despedir-se. O
        veculo se afastou no momento em que seus ps tocaram o cho.
             Sarah estava sozinha.
             No caminho para o balco de passagens, olhou para a carteira. Tinha dinheiro apenas
        para comer, e dessa forma, no chegava a ser o suficiente para pagar uma passagem de
        avio. No tinha outra maneira a no ser usar o carto de crdito.
             Vinte minutos depois havia subido em um avio com destino a Amsterd.
        
        
             Treze
        
              Quando saiu do aeroporto Tegel, o Citroen preto se dirigiu para o sul, at Kudamm.
        Helga tinha que fazer uma ltima parada antes de abandonar Berlim.
              Sabia que corria um grande risco. A CIA tinha seu nmero de identidade e poderia
        localizar seu endereo. A morte pairava sobre ela. Eve j havia cado. Teria que telefonar
        para Corrie e pedir-lhe que avisasse Simon. E perguntaria sobre aquele homem, Nick
        O'Hara.
              Perguntou-se quem seria ele. No gostava de caras novas. O inimigo mais perigoso do
        mundo  aquele que no se conhece.
              Teria que abandonar o carro e subir num trem at Frankfurt. Dali seguiria para Itlia
        ou para o sul da Espanha. No importava. Mas antes teria que pegar algumas coisas. Os
        espies tambm podiam ser sentimentais. E ela precisava das fotos de sua irm e seus
        pais, mortos na guerra, meia dzia de cartas de amor de um homem que nunca esqueceria
        e o pingente de prata de sua me. Objetos que a lembravam quem era e sem os quais no
        fugiria, mesmo sob a ameaa de morte.
              O motorista compreendeu porque paravam na casa. Sabia que era intil discutir,
        assim ficou esperando, enquanto ela corria para dentro.
              Seus objetos estavam, junto com uma pistola, no fundo falso de uma mala de viagem.
        Colocou algumas peas de roupa dentro desta e saiu para a rua. O sol a cegou ao sair.
              Permaneceu alguns segundos na varanda e esperou que os seus olhos se adaptassem
        antes de fechar a porta. Esses segundos lhe salvaram a vida.
              Da rua veio um chiar de pneus. Quase no mesmo instante comearam a disparar.
        Helga se jogou no cho, atrs de uma fileira de vasos de tulipas. Atiraram novamente e
        comeou a chover vidro das janelas de cima.
              Virou-se desesperada sob a varada, jogando-se sobre o leito de flores atrs do
        prtico, arrastando a bolsa consigo. Tinha apenas alguns segundos antes que o assassino
        avanasse para completar seu trabalho.
              Havia escutado a porta do carro se fechar e sabia que ele se aproximava.
              Enfiou a mo na mala e tirou a pistola.
              Os passos se aproximaram. J subia as escadas. Helga ergueu a pistola, apontou e
        disparou. Uma mancha vermelha apareceu sobre o olho direito do homem.
              Em seguida, caiu para trs.
              A mulher no se incomodou em verificar seu estado. Sabia que estava morto. O
        acompanhante do homem tampouco se preocupou. Estava no assento do motorista. Ps o
        carro em marcha e desapareceu.
              Um olhar para o Citroen lhe disse que o motorista no podia ter sobrevivido.
        Segurou a mala com fora e se afastou rua abaixo. Uma quadra depois comeou a correr.
              Ficar mais tempo em Berlim seria uma loucura. Havia cometido um erro e
        sobrevivido; da prxima vez talvez no tivesse tanta sorte.
        
        
             Havia sangue por toda a parte.
             Nick abriu caminho pela multido de curiosos em direo ao Citroen Negro.
             Na calada em frente, a equipe de uma ambulncia se ajoelhava ao lado de um
        corpo. Um policial lhe barrou a passagem, mas estava prximo o bastante para ver o
        homem morto na calada.
              Potter!  gritou. Mas havia muitas vozes, muitas sirenes. Seu gritou perdeu-se no
        barulho. Ficou paralisado, olhando o sangue. O homem que estava ao seu lado caiu de
        joelhos e comeou a vomitar.
              O'Hara!  gritou a voz de Potter da calada.  No est aqui. H apenas dois
        homens, o motorista e outro... Dois mortos.
              E onde ela est?  gritou Nick por sua vez.
             Potter encolheu os ombros e voltou-se para Tarasoff.
             Nick abriu espao entre a multido e comeou a andar rua abaixo. No importava
        onde fosse, no podia suportar a viso de sangue.
             Alguns metros depois sentou-se na calada e enterrou a cabea entre as mos. No
        podia fazer nada. Havia depositado toda a sua esperana na habilidade de um homem em
        quem nunca tinha confiado e numa organizao que sempre havia desprezado.
              O'Hara?  Potter o chamava, agitando um brao.  Vamos. Temos uma pista.
              Qual?  Nick se colocou de p e seguiu, ele e Tarassof, para trs do carro.
              Companhia Area KLM. Ela usou seu carto de crdito.
              Quer dizer que saiu de Berlim? Roy, tem que deter esse avio.
               tarde demais. Faz dez minutos que eles pousaram em Amsterd.
        
        
              Dizem que os holandeses nunca fecham as cortinas, pois isso significaria segredos a
        ocultar. De noite, quando se acendem as luzes, qualquer um que passe pelas ruas de
        Amsterd pode aproximar-se das janelas e ver as mesas onde se sentam as crianas,
        enquanto as suas mes lhes servem batatas e molho de ma. Passaro as horas, as
        crianas iro para a cama e os pais para suas poltronas, onde assistiro televiso ou iro ler
         vista de todos.
              Este costume de cortinas abertas se estende inclusive ao distrito de Wallen em
        Amsterd, onde os membros da profisso mais antiga do mundo mostram seus encantos.
        Nas vitrinas dos bordeis, as mulheres costuram, leem romances ou sorriem para os
        homens que as olham da rua. Para elas  um trabalho como qualquer outro e no tm
        nada a esconder.
              Foi nesse bairro onde Sarah encontrou a Casa Morro. J caa a tarde quando cruzou a
        pequena ponte de Oude Zijds Voorburgwal. E com a escurido chegaram as luzes de neon,
        a msica e toda a gente incomum que no dorme de noite. Sarah era mais uma em uma
        rua de visitantes.
              Parou na sobra da ponte de pedra e observou as pessoas que passavam. Na vitrine,
        diante dela, se viam quatro mulheres em diferentes estados de nudez: a oferta humana da
        Casa Morro. Pareciam mulheres comuns. A mais alta olhou em volta quando ouviu que
        pronunciavam seu nome. Deixou o livro que lia, levantou-se e desapareceu atrs das
        cortinas azuis. As outras trs nem sequer ergueram os olhos.
              Sarah observou durante meia hora o fluxo constante de homens que entravam e
        saam pela porta. As trs mulheres da vitrine acabaram saindo tambm pela cortina e
        foram substitudas por outras duas. A Casa Morro parecia ser um negcio prspero.
              Por fim, decidiu entrar.
              Nem sequer o cheiro de perfume conseguia ocultar o cheiro de coisa velha do
        edifcio, que pendia como uma cortina velha sobre o que havia sido uma elegante manso
        do sculo XVII. Uma estreita escada de madeira levava a um corredor na penumbra.
        Tapetes persas gastos pelo uso abafavam os passos de Sarah do vestbulo at  sala.
              Uma mulher levantou o olhar detrs de uma mesa. Tinha uns quarenta e tantos anos,
        o cabelo escuro e era alta e esbelta. Observou a jovem com ateno.
               Kan ik u helpen?
               Procuro por Corrie.
              A mulher assentiu depois de uma pausa.
                americana, no ?  perguntou em um ingls perfeito.
              Sarah no respondeu. Examinou a sala... O sof baixo, a lareira, as estantes que
        continham objetos erticos. Por fim, voltou o olhar para a mulher.
               Foi Helga quem me enviou  disse.
              O rosto da outra permaneceu sem qualquer expresso.
               Quero encontrar Simon. Onde ele est?
              A mulher ficou em silncio um momento.
               Talvez Simon no deseje que o encontre, disse.
               Por favor.  importante.
             A outra encolheu os ombros.
              Com Simon tudo  importante.
              Ele est na cidade.
              Talvez.
              Ele vai querer me ver.
              Por qu?
              Sou sua esposa. Sarah.
             A mulher pareceu perturbada pela primeira vez.
              Me d sua aliana  disse. E volte  meia-noite.
              Ele estar aqui?
              Simon  um homem cauteloso. Vai querer provas antes de aproximar-se de voc.
             Sarah tirou o anel do dedo e o entregou a ela.
              Voltarei  meia-noite  disse.
              Senhora!  chamou a mulher, quando se virou para sair.  No lhe garanto nada.
              Eu sei  murmurou a jovem.
             A advertncia da mulher era desnecessria.
             Havia aprendido que nada est garantido. Nem sequer a respirao seguinte.
        
        
             Corrie esperou um momento quando Sarah saiu. Depois deixou a casa e foi andando
        at uma cabine telefnica, onde discou um nmero em Amsterd.
              A mulher que Helga mencionou chegou  disse.  Cabelo comprido, olhos
        castanhos, uns trinta anos. Tenho sua aliana.  de ouro, com a inscrio Geoffrey, 2-14.
        Voltar  meia-noite.
              Veio sozinha?
              No vi mais ningum.
              E o homem que Helga mencionou... O'Hara... O que seus amigos descobriram?
              No pertence  CIA. Sua participao parece apenas... Pessoal.
             Houve uma pausa. Corrie escutou atentamente as instrues que se seguiram.
        Quando desligou, voltou  Casa Morro, onde colocou a aliana em um pedestal diante da
        janela, onde seria facilmente vista da rua.
             Sorriu ao pensar no que aconteceria quando a mulher voltasse. Sarah parecia
        puritana e ela estava cheia do desdm das "mulheres virtuosas". Essa noite a mar
        mudaria. O plano era algo atrevido, mas Corrie no discutia suas instrues.
             E menos ainda quando gostava delas.
        
              Sarah estava sentada em um caf tranquilo, a um quilometro dali. O cheiro da traio
        de Nick continuava muito vivo em seu interior. Nunca se recuperaria de uma ferida to
        profunda. Mas encontraria foras para seguir em frente. Sobreviver tinha-se tornado em
        algo automtico, instintivo. Havia abandonado seus sonhos de amor e somente lhe restava
        um objetivo: viver o suficiente para ver o fim daquele pesadelo.
              Dentro de algumas horas estaria com Geoffrey e ele cuidaria de sua segurana.
              Estava acostumado a mover-se naquele mundo de sombras. E ainda que no a
        amasse, estava certa de que se importava um pouco. Era a esperana que lhe restava.
              Deixou a cabea cair, cansada. Havia andado quilmetros pelas ruas de Amsterd e
        desejava dormir, esquecer. Mas quando fechava os olhos, as recordaes voltavam: o
        sabor da boca de Nick, sua risada quando faziam amor. Afastou com raiva as imagens de
        sua mente. O que antes era amor comeava a converter-se em fria. Contra Nick, por sua
        traio. Contra si mesma. Por ser incapaz de renunciar s lembranas. Ou ao desejo.
              Ele a havia usado e jamais o perdoaria. Nunca.
        
        
               Nenhuma notcia de Sarah  disse Potter, quando entrou no quarto de Nick, em
        Amsterd. Fechou a porta com o p e lhe estendeu uma xcara.
              Nick viu-o sentar-se em uma poltrona e esfregar os olhos, cansado. Os dois estavam
        esgotados e famintos. Desde que saram de Berlim somente haviam tomado caf.
              Potter olhou seu relgio.
               Maldio! A lanchonete ao lado acaba de fechar. No cairia mal um sanduiche 
        tirou um pacote de bolachas salgadas do bolso.  Quer?
              Nick negou com a cabea.
              Potter acendeu um cigarro e procurou um cinzeiro no quarto.
               Vamos, O'Hara. Deite-se. Procurar por ela  um trabalho nosso.
               No posso  Nick se aproximou da janela.  Ela est a fora em algum lugar. Se eu
        soubesse onde!
               Ainda no confia em ns, no ?
               No. Por que iria faz-lo?
              Potter sentou-se e soprou uma baforada de fumaa.
               Talvez te interesse saber que acabo de falar com Berlim. Temos uma informao
        sobre os mortos.
               Quem eram?
               O motorista do Citroen era alemo, relacionado em outros tempos com o Mossad.
        Os vizinhos pensavam que Helga Steinberg e ele eram irmos, mas somente eram
        companheiros de trabalho.
               Helga  murmurou Nick, pensativo.   esse vnculo que precisamos. Se pudermos
        encontra-la...
               Impossvel. Ela  muito esperta. Conhece todos os truques do ofcio.
               E o outro homem?
              Potter recostou-se na poltrona.
               O outro era holands.
               Alguma relao com Helga?
               No. Somente queria mat-la, mas ela se adiantou a ele  sorriu.  Que tiro!
        Gostaria de conhecer essa mulher algum dia. Embora no em um beco escuro.
               O homem no tinha antecedentes?
               Nenhum. Segundo seus documentos, era representante comercial de uma
        companhia de Amsterd. Viajava muito. Mas h algo estranho. H dois dias houve uma
        transferncia de fundos de uma conta sua. Muito dinheiro. A transferncia era de outra
        companhia de Amsterd, a F. Berkman. Importam e exportam caf h dez anos. Tem
        escritrios numa dzia de pases e apenas tem lucros. Curioso, no ?
               E quem  F. Berkman?
              Ningum sabe. A companhia  dirigida por uma junta diretora. Ningum conhece o
        dono.
             Nick olhou para Potter.
              Magus  disse.
              , foi o mesmo que eu pensei.
              E Sarah est justamente em seu territrio. Em seu lugar eu comearia a correr na
        direo contrria.
              Eu acho que ela tem feito muitas coisas inesperadas. No se comporta como uma
        garota assustada.
              No  Nick se deitou cansado na cama.  Ela  inteligente.
              Est apaixonado por ela.
              Suponho que sim.
             Potter o olhou com curiosidade.
               muito diferente de Lauren.
              Voc se lembra de Lauren?
              Sim. Quem poderia esquec-la? Todos os homens na embaixada o invejavam. Foi
        um azar o divrcio.
              Foi um grande erro.
              O divrcio?
              No. O casamento.
             Potter riu.
              Vou te contar um segredo, O'Hara. Depois de dois divrcios, finalmente descobri
        que os homens no precisam de amor. Precisam que lhes preparem a comida, passem suas
        camisas e de um pouco de ao trs vezes por semana. Mas no de amor.
             Nick balanou a cabea.
              Tambm pensava assim. At algumas semanas atrs...
             O telefone ao lado da cama tocou.
              Certamente  para mim  disse Potter, apagando o cigarro.
             Nick chegou antes ao aparelho. Por um momento apenas ouviu o silncio. Em
        seguida, uma voz de homem perguntou.
              Senhor Nick O'Hara?
              Sim.
              A encontrar na Casa Morro. A meia-noite. Venha sozinho.
              Quem fala?
              Tire-a de Amsterd, O'Hara. Conto com voc.
              Espere!
             A linha ficou muda. Nick praguejou e correu para a porta.
              Aonde vai?  perguntou Potter.
              A um lugar chamado Casa Morro. Ela estar l.
              Espere  Potter levantou o telefone.  Deixe-me telefonar para Van Dam.
        Precisamos de reforos...
              Desta vez irei sozinho!
              O'Hara!
             Mas Nick j havia desaparecido.
             Cinco minutos aps Nick ter deixado o hotel, o velho recebeu um telefonema de um
        de seus informantes.
              Ela est na Casa Morro.
              Como sabe?  perguntou ele.
              Telefonaram para O'Hara. No sabemos quem. Ele j saiu. A CIA o seguir logo. No
        tem muito tempo.
              Enviarei Kronen  sua procura.
              O'Hara estar no meio.
             O velho fez um rudo de desprezo.
              O'Hara no  importante  disse. Kronen pode lidar com ele.
        
        
              Jonathan Van Dam desligou o telefone e saiu da cabine. A noite havia esfriado e
        abotoou o casaco. A ideia de regressar ao calor do hotel era tentadora. Mas antes tinha
        que passar por uma farmcia. Precisava de uma desculpa, um frasco de anticido ou de
        qualquer outra coisa, para justificar sua ausncia do hotel.
              Entrou numa farmcia vinte e quatro horas, pegou um frasco de Maalox da
        prateleira, pagou e saiu para a rua.
              Dez minutos depois chegava ao hotel. Abriu o Maalox, despejou uma dose no lavabo
        e colocou o pijama. Depois se deitou e esperou que o telefone tocasse.
              Dentro em pouco algo aconteceria na Casa Morro. No gostava de pensar naquilo.
        Em todos os seus anos na CIA, nunca havia tomado parte num tiroteio ou numa luta. E
        nunca havia matado ningum pessoalmente. Quando a violncia era necessria, utilizava
        intermedirios. At a morte de Cludia havia sido organizada de uma distncia prudente.
        Quando voltou para casa, j tinham limpado o sangue e encerado o cho. Parecia que no
        havia mudado nada, exceto que era livre e muito rico.
              Mas um ms mais tarde recebeu um recado. "O Viking falou comigo", dizia. O Viking
        era um assassino de aluguel, o homem que havia apertado o gatilho. Van Dam ficou
        paralisado de medo. Pensou em fugir para o Mxico ou Amrica do Sul. Mas no podia
        decidir-se em deixar sua casa e suas mordomias. Quando o velho finalmente entrou em
        contato com ele, estava mais que disposto a negociar.
              Apenas lhe pediu algumas informaes. Inicialmente, dados pequenos, o pressuposto
        de um consulado concreto, os horrios de avies de transporte. Teve poucos remorsos.
              Alm de tudo, no trabalhava para a KGB. O velho era um empresrio que no
        poderia considerar um inimigo. Portanto, ele no era um traidor.
              Mas as exigncias cresceram pouco a pouco. E chegavam sempre sem avisar. Dois
        toques do telefone, seguidos de silncio e Van Dam encontraria um pacote no bosque ou
        um bilhete em uma rvore oca. Nunca havia visto o velho e nem conhecia seu verdadeiro
        nome. Tinham-lhe dado um nmero de telefone que somente poderia usar em
        emergncias. Van Dam se encontrava aprisionado por algum que no tinha nome nem
        rosto. Mas no era um acordo ruim. Estava seguro. Tinha suas casas, suas roupas caras e
        seu brandy. Podia-se dizer que o velho era um amo muito bom.
        
               meia noite  disse Sarah  Onde ele est?
             Corrie afastou uma mecha de cabelo negro do rosto e ergueu os olhos de sua mesa.
               Simon que provas.
               Ele viu minha aliana.
               No, quer ver voc. Mas de uma distncia segura. Ter que fazer seu papel. Suba,
        segundo quarto  direita. Olhe no armrio. Acredito que o cetim verde lhe ir bem.
               No entendo...
              A mulher sorriu. A luz batia-lhe em cheio na face e Sarah viu pela primeira vez as
        rugas que tinha ao redor dos olhos e da boca. A vida no havia sido amvel com aquela
        mulher.
               Coloque o vestido  disse. No h outro modo.
              Sarah subiu as escadas e entrou no quarto. Havia uma cama grande de bronze e um
        armrio cheio de roupas. Colocou o vestido de cetim verde e se olhou no espelho. O tecido
        marcava seus seios e os bicos ressaltavam-se claramente. Mas aquele no era o momento
        para modstia. A nica coisa que importava era continuar viva.
              Corrie a observou com olhar crtico quando tornou a descer.
               Est muito magra  murmurou.  E tire os culos. Pode ver sem eles, no?
               O suficiente.
              Corrie apontou a vitrina.
               Entre ali. Eu guardarei sua bolsa. Abra um livro, se quiser, mas sente-se com o rosto
        para a rua, para que possa v-la. No ir demorar muito.
              As pesadas cortinas de veludo se abriram e Sarah entrou em uma nuvem de ar
        perfumado. Primeiramente, surpreendeu-se com os rostos de estranhos que a olhavam da
        rua. Estaria Geoffrey entre eles?
               Sente-se  disse uma das prostitutas, apontando uma cadeira.
              A jovem se sentou e lhe passaram um livro. O abriu e olhou atentamente a primeira
        pgina. Estava escrito em holands e ainda que no pudesse l-lo, era um escudo entre ela
        e os homens do lado de fora. O segurou com tanta fora que lhe doam os dedos.
              Permaneceu imvel como uma esttua durante o que lhe pareceu uma eternidade.
              Ouvia risos vindos da rua. Passos na calada. O tempo parecia ter parado. Tinha os
        nervos  flor da pele. Onde estava Geoffrey? Por que demorava tanto?
              Ento, por entre o rudo que a rodeava, ouviu seu nome. O livro caiu de suas mos no
        cho. Empalideceu.
              Nick a olhava incrdulo do outro lado do vidro.
               Sarah?
              Sua reao foi instintiva: comeou a correr. Abriu as cortinas de veludo e correu
        escada acima at ao quarto onde havia encontrado o vestido. Era uma fuga instintiva, o
        impulso de uma mulher afastando-se da dor. Tinha medo dele. Queria causar mal a ela e a
        Geoffrey. Se pudesse chegar ao quarto e fechar a porta...
              Mas Nick a segurou pelo brao antes que terminasse de entrar pela porta.
              Sarah se soltou e recuou at que suas pernas se chocaram com a cama. Estava presa.
               Fora daqui!  gritou sem deixar de tremer.
              O homem avanou com as mos estendidas.
               Sarah, me escute...
               Bastardo! Odeio voc!
              Nick continuava aproximando-se dela. A jovem o golpeou com fora na face. Quando
        ia desferir outro golpe, ele a segurou pelos pulsos e a afastou de si.
               No. Escute-me. Quer fazer o favor de me escutar?
               Voc me usou.
               Sarah...
               Foi divertido? Ou tinha a misso de se deitar com a viva para a CIA?
               Cale a boca!
               Maldio, Nick!  gritou ela, debatendo-se.  Eu queria voc. Queria voc... 
        conseguiu soltar-se, mas o impulso a jogou sobre a cama. Nick caiu sobre ela, segurando
        seus pulsos e cobrindo-a com seu corpo. Sarah ficou sob ele, soluando e debatendo-se em
        vo at que as foras a abandonaram e ficou imvel.
              Quando viu que ela parou de se debater, soltou-lhe as mos. A beijou com ternura na
        boca.
               Ainda te odeio  disse ela, fracamente.
               E eu te quero.
               No minta para mim.
              Voltou a beij-la, desta vez mais lentamente, fazendo o beijo perdurar.
               No estou mentindo, Sarah. Nunca menti para voc.
               Trabalhava para eles desde o comeo.
               No, est enganada. No estou com eles. Acurralaram-me. E em seguida me
        contaram tudo. Sarah, pode deixar de fugir.
               Quando o encontrar.
               No pode encontr-lo.
               Que quer dizer?
              Nick a olhou com tristeza.
               Sinto muito. Ele est morto.
              Suas palavras a golpearam com um punhal. O olhou atordoada.
               No pode estar morto. Ele me telefonou...
               No foi ele. Foi uma gravao da CIA.
               O que lhe aconteceu?
               O incndio. O corpo que encontraram no hotel, era dele.
              Sarah fechou os olhos.
               No entendo. No entendo nada  soluou.
               A CIA te preparou uma armadilha. Queriam que Magus viesse at voc e sasse do
        esconderijo. Mas logo os despistamos. Desde Berlim.
               E agora?
               Acabou. Cancelaram a operao. Podemos ir para casa.
              Casa! A palavra tinha um som mgico, como um lugar de conto de fadas em cuja
        existncia j no acreditava. E Nick tambm tinha algo mgico. Mas seus braos eram
        reais. Sempre haviam sido reais.
               Vamos para casa, Sarah  sussurrou ele.  Amanh de manh samos daqui.
               No posso acreditar que tudo isto tenha terminado.  murmurou ela.
              Beijaram-se com ternura e saram para o corredor de braos dados. Ao chegar  parte
        superior da escada avistava-se o vestbulo. Nick parou.
        A princpio, ela no soube o por que. Somente via seu olhar sobressaltado. Depois, seguiu
        a direo de seus olhos.
             Abaixo deles, ao p da escada, um lago de sangue manchava um tapete persa azul.
        Sobre ele jazia Corrie.
        
        
             Quatorze
        
              Uma sombra caiu sobre a parede do vestbulo. Algum andava pela sala, fora de seu
        campo de viso. A sombra se aproximava da escada. Nick e Sarah no podiam sair para a
        rua sem cruzar o vestbulo e o campo de viso do assassino. No lhes restava nenhuma
        soluo a no ser seguir pelo corredor de cima.
              Nick a tomou pela mo e a puxou at  escadaria mais afastada. Da sala de estar
        chegou o grito de uma mulher, sons de passos que corriam e dois golpes secos, de balas
        amortecidas por um silenciador. O corredor parecia no terminar nunca.
              Subiram correndo a escada estreita. Haviam chegado ao sto. Nick fechou a porta
        suavemente, mas no tinha fechadura. No acenderam a luz. Pela janela entrava alguma
        claridade. Nas sombras, a seus ps, havia formas vagas: caixas, mveis velhos, um rack.
        Nick agachou-se atrs de um ba e abraou Sarah. Ela apertou o rosto contra o seu peito e
        ouviu as batidas de seu corao.
              De algum lugar abaixo chegou o rudo de madeira partida. Algum abria as portas a
        pontaps, abrindo caminho metodicamente em direo  escada.
              Nick a empurrou contra o cho.
               No se mova  disse.
               Aonde vai?
               Quando chegar o momento, corra.
               Mas...  o homem j havia se afastado na escurido.
              Os passos subiam a escada do sto.
              Sarah permaneceu imvel. Os passos se aproximavam mais e mais. Procurou na
        escurido algo que a ajudasse a se defender, mas no viu nada.
              A porta se abriu, batendo contra a parede. A luz da escada entrou. E nesse mesmo
        instante ouviu o som de um punho se chocando contra um corpo, seguido de um barulho
        surdo. Ergueu-se e viu Nick lutando com o assassino, um homem que nunca havia visto.
        Rodaram pelo cho. Nick deu-lhe um segundo soco, mas o golpe apenas roou a face do
        outro. O assassino conseguiu soltar-se e lhe aplicou um golpe no estmago. Nick grunhiu e
        girou para fora de seu alcance. O assassino atirou-se at uma pistola que estava no cho a
        poucos metros.
              Nick, atordoado pelo golpe, no pde reagir com rapidez. Os dedos do assassino se
        fecharam em torno da pistola. Nick, desesperado, se atirou sobre sua mo, mas apenas
        alcanou seu antebrao. A arma virou-se contra seu rosto. Sarah no teve tempo de
        pensar. Saltou detrs do ba. Seu p formou um arco no ar e golpeou a mo do assassino.
        A pistola saiu voando e caiu atrs de um monte de caixas. O assassino, que no havia
        recuperado o equilbrio, no pde esquivar-se do golpe seguinte.
              O punho de Nick acertou sua mandbula. Caiu para trs e bateu a cabea no ba. Caiu
        no cho, inconsciente.
              Nick se ps de p.
               Vamos!  disse.
              Sarah desceu para o segundo andar. Quando corria para a outra escada, lembrou-se
        do corpo de Corrie no cho. Sentiu-se mal em pensar que teria de pisar o sangue, mas
        precisava alcanar a porta.
              Desceu as escadas, obrigando-se a no pensar. Seriam apenas alguns passos e depois
        estaria fora. A salvo.
              No viu o homem no vestbulo at que fosse muito tarde. Percebeu um movimento e
        uma garra aferrou-se a seu brao. Viu uma mo enluvada e o brilho de um revlver. A
        arma no apontava para ela, e sim para o topo da escada, onde estava Nick.
              A arma disparou.
              Nick caiu para trs, como se houvesse recebido um golpe no peito. Sua camisa se
        encheu de sangue. Sarah gritou seu nome uma vez e outra, enquanto a arrastavam para a
        porta. O ar frio golpeou-lhe o rosto. Em seguida a jogaram no banco traseiro de um carro.
        A porta foi fechada. Ergueu a vista; um revlver apontava para sua cabea.
              Somente ento viu o rosto de Kronen, o cabelo loiro plido, o sorriso de cera. Havia
        esperado por ela em estaes de trem e em cidades diferente. Era o rosto de seus
        pesadelos.
              Era o rosto do inferno.
        
        
              Van Dam continuava ao lado do telefone quando Tarasoff lhe ligou para comunicar o
        duplo desastre. O'Hara estava no hospital. E no tinham encontrado Sarah Fontaine.
              Quando desligou o telefone, comeou a andar pela sala. Estava nervoso. Preocupava-
        lhe o novo vnculo com a companhia F. Berkman. A transferncia de fundos para um
        assassino de aluguel havia sido um descuido inacreditvel. Agora Potter sentiria o cheiro
        de sangue e iria querer investigar. Tinha que afast-lo do rastro. Seu futuro dependia disso.
              Se capturassem o velho, mostrar-se-iam pragmticos e tentariam comprar a sua
        liberdade com informaes. E seu nome seria um dos primeiros a sair.
              Decidiu fazer as malas para caso fosse necessrio. Considerou as suas opes. Fechar
        a porta. Descer as escadas. Parar um txi. Iria diretamente para a embaixada russa. No
        gostava da ideia, mas os russos tinham fama de tratar bem aos desertores. Seria melhor
        que a cadeia.
              Uma batida na porta o sobressaltou.
               Sim?
               Trago um recado. Posso entrar, senhor?
              Van Dam se aproximou da porta com receio.
               Olhe, Tarasoff acaba de telefonar. Se no h nada novo...
               H algo, senhor.
              Van Dam abriu uma brecha. Um pontap do outro lado lanou a porta contra seu
        rosto e a dor o fez recuar. Tentou proteger a cabea.
              No umbral havia um homem vestido de preto, um homem que deveria estar morto.
         Isto  por Eve  disse o recm-chegado.
              Apertou o gatilho trs vezes. Trs balas explodiram no peito de Van Dam.
              O impacto o jogou no cho. Teve uma ltima imagem de luz que se foi apagando
        pouco a pouco, como um entardecer que cedesse a passagem para a noite.
              Sarah agachou-se no cho de madeira e abraou os joelhos. Os dentes batiam. Fazia
        frio no quarto e o vestido de cetim verde aquecia pouco. Estava s escuras. A nica luz era
        proveniente de uma janela pequena, muito alta; era a luz da lua. No sabia que horas
        eram; tinha perdido a noo do tempo.
              O terror havia convertido aquela noite em uma eternidade.
              Fechou os olhos com fora, mas continuava vendo o rosto de Nick, sua expresso de
        surpresa e dor, e em seguida, o sangue estendendo-se pela sua camisa. Uma dor terrvel a
        tomou por dentro. Apoiou o rosto nos joelhos e as suas lgrimas molharam o vestido de
        cetim.
              Um momento depois ergueu o rosto. Estava certa de que iria morrer. E a certeza lhe
        dava uma estranha paz, a convico de que o seu destino era inevitvel e que no podia
        fazer nada. Estava muito cansada e tinha muito frio para que se importasse. Depois de dias
        de terror, sentia uma espcie de calma.
              Essa paz a ajudou a concentrar-se. Sem o pnico que toldara sua percepo, pode
        examinar friamente o quarto, clinicamente, como estudava as bactrias em seu
        microscpio no trabalho.
        Estava presa, num armazm grande, no 4 andar de um prdio velho. A nica sada era a
        porta, que estava fechada. A janela era muito pequena e alta. Cheirava a caf. Lembrou-se
        da plataforma de carga que havia visto no piso inferior e dos sacos marcados com os
        nomes F. Berkman, Koffie, Hele Bonen.
              Pensou que poderia ajud-la estar num local de trabalho, onde cedo ou tarde
        chegariam os operrios. Mas logo se lembrou que era domingo e certamente no veria
        ningum exceto Kronen.
        Ouviu passos que subiam as escadas. Uma porta se abriu e tornou-se a fechar. Dois
        homens falavam em holands. Um era Kronen. A outra voz era baixa e rouca, quase
        inaudvel. Os passos se aproximaram da porta. Ficou imvel. A luz brilhante do cmodo
        contguo entrou. Tentou ver os rostos dos homens parados no portal, mas a princpio s
        pde distinguir as suas silhuetas.
              Kronen acendeu a luz. O que viu a fez encolher-se.
              O homem mais prximo dela no tinha rosto.
        Seus olhos eram plidos, sem pestanas e to mortos como pedras frias. Mas a olhou, seus
        olhos se moveram e ento se deu conta de que usava uma mscara.
              Um escudo de borracha cor de carne cobria o seu rosto. No pescoo usava um
        cachecol vermelho.
              Sups quem era antes de ouvi-lo falar. Tinha Magus diante de si. O homem a quem
        Geoffrey havia sido encarregado de matar.
               Senhora Simon Dance  disse em um sussurro.  Levante-se para que eu a possa v-
        la melhor.
              Estendeu-lhe a mo e ela estremeceu.
               Por favor, no me faa mal. Eu no sei de nada, de verdade.
               Ento porque saiu de Washington?
               Foi a CIA. Eles me enganaram...
               Para quem trabalha?
               Para ningum.
               E por que veio a Amsterd?
               Acreditava que encontraria Geoffrey... Quero dizer, Simon. Por favor, deixe-me ir.
               E por que eu deveria faz-lo?
              Sarah o olhou fixamente, incapaz de pensar em uma nica razo pela qual ele a
        deixaria viver. A mataria, claro. E nenhuma suplica poderia impedi-lo.
              Magus voltou-se para Kronen, que parecia divertir-se.
               Esta  a mulher de quem falava?  perguntou incrdulo.  Esta criatura estpida?
        Precisou de duas semanas para encontr-la?
              O sorriso de Kronen se evaporou.
               Tinha ajuda  respondeu.
               Ela encontrou Eve sem ajuda.
                mais inteligente do que parece.
               Sem dvida  a mscara se voltou para Sarah.  Onde est seu marido?
               Eu no sei.
               Voc encontrou Eve. E Helga. Certamente sabe como encontrar seu marido.
              A jovem inclinou a cabea e olhou para o cho.
               Ele est morto.
               Mentira.
               Morreu em Berlim. No incndio.
               Quem disse? A CIA?
               Sim.
               E voc acreditou neles?
              Sarah assentiu com a cabea e ele se voltou furioso para Kronen.
               Essa mulher no serve para nada! Perdemos nosso tempo. Se Dance sair do
        esconderijo por causa dela  porque  um idiota.
              Sarah ficou rgida ao ouvir o desprezo de sua voz. Para aquele homem, sua vida valia
        to pouco quanto a de um inseto. Mat-la seria fcil... E somente sentiria desgosto.
              Um n de raiva formou-se em seu estmago. Levantou o queixo com violncia. Se
        tivesse que morrer no o faria como uma mosca. Engoliu a saliva.
               Se meu esposo sair  luz espero que o envie diretamente para o inferno  gritou.
              Os olhos plidos da mscara expressaram certa surpresa.
               Ao inferno? Ns nos encontraremos l. Seu marido e eu temos uma eternidade
        juntos. Eu j experimentei as chamas. Sei o que  ser queimado vivo.
               Nada tive a ver com isso.
               Mas seu marido sim.
               Ele est morto! Matar-me no o far sofrer.
               Eu no mato para os mortos. Mato para os vivos. Dance est vivo.
               Eu sou inocente...
               Neste negcio no existem inocentes.
               E sua esposa? Tambm no era?
               Minha esposa?  apertou os olhos.  Sim. Sim, ela era inocente. Nunca pensou
        que...  a olhou.  Sabe como ela morreu?
               Sinto muito. Sei o que ocorreu a ela. Mas eu nada tive a ver com isso.
               Eu assisti a tudo. Eu a vi morrer.
                Por favor, tem que me escutar...
                Eu a vi andar at ao carro da janela do quarto. Ela parou ao lado das rosas e se
        despediu de mim com um aceno de mo. Nunca me esqueci daquele momento. Nem do
        seu sorriso  inclinou-se para frente.   como uma foto fixa em minha cabea. A ltima
        vez que a vi com vida...
               Ficou em silncio. Olhou para Kronen.
                Antes de amanh, leve-a para um lugar seguro onde no possam ouvi-la. Se Dance
        no aparecer para procur-la nos prximos dois dias, mate-a. Lentamente. J sabe como.
        Kronen sorria. Sarah estremeceu.
               Em algum lugar do edifcio soou um alarme. Uma luz vermelha piscava acima da
        porta.
                Algum entrou aqui!  disse Kronen.
               Os olhos de Magus brilhavam como diamantes.
                 Dance  respondeu.  Tem que ser ele.
               Kronen saiu da sala com a pistola na mo. A porta se fechou. Sarah ficou sozinha com
        os olhos fixos na luz vermelha que acendia e apagava.
               Apoiou-se contra a porta e olhou ao redor. Na sua pressa de sair, Kronen e Magus
        tinham deixado a luz acesa e podia examinar a sala.
               O armazm no estava vazio. A um canto se amontoavam caixas de papelo com o
        nome F. Berkman. Viu uma fita adesiva prxima da caixa maior.
               Arrancou-a e a dobrou vrias vezes, experimentando sua resistncia. Se fosse bem
        usada, poderia estrangular um homem. No sabia se seria capaz de faz-lo, mas em sua
        situao qualquer arma era um presente dos cus.
               Em seguida, examinou a janela e a descartou como meio de fuga. Impossvel que
        coubesse nela. Somente restava uma maneira de sair. A porta. Mas como?
               Algumas cadeiras amontoadas lhe deram uma ideia. Poderia golpear com uma delas.
               Bom. Outra arma. Amontoadas pesavam tanto que apenas pde arrast-las pelo
        cho. Seu plano poderia funcionar.
               Levou as cadeiras at um lado da porta e amarrou a fita ao p da primeira de baixo.
        Esticou a fita e se agachou do lado oposto. Puxou seu lado da fita e esta se levantou alguns
        centmetros do cho. Se calculasse bem o momento, tropeariam nela. E isso lhe daria
        alguns segundos, o suficiente para sair pela porta.
               Ensaiou seus movimentos outra vez. Tinha que correr tudo certo. Era sua nica
        oportunidade.
               Estava pronta. Subiu para uma das cadeiras e desenroscou os tubos fluorescentes do
        teto. A sala ficou s escuras. Quando descia da cadeira, ouviu disparos do lado de fora,
        seguidos por gritos e mais tiros. Seria mais fcil fugir com toda aquela confuso.
               Primeiro tinha que chamar a ateno de algum. Aproximou uma cadeira da janela,
        contou at trs e a atirou contra o vidro, que se partiu.
               Ouviu outro grito e passos que subiam a escada. Levou a cadeira at o umbral e
        procurou na escurido o pedao de fita. Onde estava?
               Os passos estavam na sala ao lado e se aproximaram da porta. A fechadura girou.
        Procurou no cho desesperadamente e encontrou a fita no momento em que a porta se
        abria. Um homem entrou na sala com tal rapidez que apenas teve tempo de reagir. Puxou
        a fita, que se enganchou no p dele. Algo caiu ao cho. O homem se inclinou para a frente
        e caiu sobre seu ventre. Em seguida ps-se de joelhos e comeou a levantar-se.
        Sarah no permitiu. Golpeou-lhe a cabea com a cadeira. Sentiu, mais que ouviu, o golpe
        em seu crnio e o horror do que tinha feito a obrigou a soltar a cadeira. O homem no se
        movia. Mas enquanto ela revirava seus bolsos ele comeou a gemer, o que indicava que
        no o havia matado. No levava um revlver. E se o tivesse deixado cair? No tinha tempo
        de procur-lo s escuras, era melhor fugir enquanto podia.
              Saiu do cmodo e fechou a porta atrs dela. Voou at s escadas, mas tinha descido
        apenas dois degraus quando parou imvel. Debaixo dela chegavam vozes. Kronen subia as
        escadas, cortando a sua nica via de escape.
              Entrou no escritrio e fechou a porta. Diferente da outra, no era de madeira slida.
        Apenas os atrasaria alguns minutos. Tinha que encontrar outra sada.
              O armazm era um beco sem sada, mas no escritrio, sobre a mesa, havia uma
        janela.
        Subiu na mesa e olhou por ela. Apenas via nvoa e escurido. Puxou a janela, mas ela no
        se abriu. Tinha que quebrar o vidro.
              Tomou impulso e deu-lhe um pontap. As trs primeiras tentativas foram em vo; o
        calcanhar golpeava o vidro sem resultado. Mas o quarto golpe quebrou a janela. O ar frio
        golpeou-lhe o rosto. Olhou para fora e viu que a janela se abria sobre um telhado que se
        perdia na escurido. Que havia por baixo? Podia sofrer uma queda de trs andares at 
        rua ou podia ser que casse em um telhado adjacente. Tinha visto que, nos velhos edifcios
        de Amsterd, os telhados se juntavam uns com os outros numa linha quase contnua. A
        nvoa a impedia de ver o que a escurido escondia. Teria que se aproximar mais.
              Pensou que as telhas estariam escorregadias, assim tirou os sapatos. Viu assustada
        que havia sangue em seu tornozelo. No sentia dor, mas o sangue saia de um corte em seu
        p. O olhou assombrada e ento teve conscincia de outros rudo: os golpes de Kronen na
        porta do escritrio, e os gemidos do homem que havia deixado inconsciente.
              Seu tempo havia acabado.
              Saiu para o telhado. O vestido se enganchou em um pedao de vidro quebrado e ela
        o puxou com fora, rasgando-o. Sua escolha era muito simples. Uma morte rpida ou uma
        dolorosa. Uma queda na escurido seria prefervel a morrer nas mos de Kronen. Podia
        suportar a ideia de morrer, mas no a de sentir dor.
              Ouviu a porta ceder e o grito de raiva de seu perseguidor. Deslizou pelo telhado
        abaixo. No havia nada para agarrar-se nem nada que parasse a sua queda.
        As telhas estavam molhadas e revalavam sob seus dedos. Suas pernas caram pela borda.
        Agarrou-se por um instante na calha e quando j no pde segurar-se mais, deixou-se cair.
        
        
        
             Quinze
        
               somente um arranho.
              Volte para a cama, O'Hara!  gritou Potter.
             Nick atravessou o quarto do hospital e abriu o armrio. Estava vazio.
              Onde est a minha camisa?
              Voc no pode sair. Perdeu muito sangue.
              Minha camisa, Potter.
              No lixo. Estava cheia de sangue, lembra-se?
             Nick tirou, com um palavro, o camiso do hospital e olhou o curativo em seu ombro
        esquerdo. O efeito do analgsico, que lhe haviam dado no pronto-socorro, comeava a
        diminuir. Sentia como se algum lhe golpeasse o trax com um martelo de pneus. Mas no
        podia ficar ali esperando que algo acontecesse. J tinha perdido muitas horas.
              Por que no fica na cama e deixa que eu me ocupe de tudo?  perguntou Potter.
             Nick o olhou com fria.
              Da mesma maneira como se est ocupando agora?
              E qual a utilidade que ter para ela fora daqui? Quer me dizer?
             Nick sentiu que a sua raiva dava espao para a dor.
              Eu a tinha, Roy. Tinha em meus braos...
              Iremos encontr-la.
              Da mesma forma que encontraram Eve Fontaine?
             O rosto de Potter ficou tenso.
              No, espero que no.
              E que vai fazer para evitar isso?  gritou Nick.
              Continuamos esperando que o homem que derrubou fale. Contudo, no disse
        grande coisa. E estamos investigando outra pista, a da Companhia Berkman.
              Reviste o edifcio.
              No posso. Preciso da permisso de Van Dam e no consigo localiz-lo. E temos
        poucas provas...
               merda com as provas  murmurou Nick, encaminhando-se para a porta.
              Aonde vai?
              Fazer uma invaso.
              No pode ir l sem ajuda  o seguiu at ao corredor.
              J vi seus reforos. E prefiro uma pistola.
              Sabe atirar?
              Aprendo depressa.
              Espere, deixe-me falar com Van Dam.
             Nick fez um gesto de descaso. Apertou o boto do elevador e olhou a roupa de
        Potter.
              Me d sua camisa.
              O qu?
               o suficiente para agir. No quero que me acusem de atentado ao pudor.
              Est louco. No te darei minha camisa. Iria me devolv-la cheia de buracos de bala.
             Nick chamou de novo o elevador.
              Obrigado pelo voto de confiana.
             O elevador se abriu e saiu Tarasoff.
              Senhor, h algo novo. Acabo de ouvir no rdio. Tiros no edifcio Berkman.
             Nick e Potter se olharam.
              Meu Deus!  exclamou o primeiro.  Sarah...
              Onde est Van Dam?  perguntou o segundo.
              No sei, senhor. Continua sem atender ao telefone.
              Acabou. Vamos, O'Hara  entraram os trs no elevador.  No sei por que aposto
        minha carreira por voc. Nem sequer nos damos bem. Mas voc tem razo. Ou nos
        mexemos agora ou, se esperarmos as ordens de Van Dam, acabaremos todos no hospital 
        olhou para Tarasoff.  E eu nunca disse isso. Entendido?
              Sim, senhor.
             Potter olhou seu subordinado.
              Qual o tamanho que usa?
              Senhor?
              A camisa.
              Ah... dezesseis.
              Certo. Empreste-a para O'Hara. Estou cheio de ver seus pelos do peito. E no se
        preocupe, me encarregarei para que no a manchem de sangue.
             Tarasoff obedeceu, mas no parecia confortvel de camiseta e palet. Saram para o
        estacionamento.
              Envie pelo rdio uma equipe para o edifcio.
              Devo tentar localizar Van Dam?
             Potter vacilou um instante. Viu o olhar de advertncia de Nick.
              No  disse. Por enquanto, este ser o nosso segredo.
             Tarasoff o olhou, perplexo.
              Sim, senhor.
             Nick sentou-se no assento traseiro do carro.
              Sabe, Potter? Pode ser que no seja to idiota como eu acreditava.
             O outro balanou a cabea com ar sombrio.
              Ou pode ser que sim  respondeu. Pode ser que sim.
        
        
              Sarah caiu de costas com um golpe surdo.
              A primeira coisa que sentiu foi alegria por estar viva. Viu a janela a uns cinco metros
        acima dela e compreendeu que havia cado em um telhado adjacente. Os gritos de Kronen
        a fizeram mexer. Estava de p sobre a janela, gritando ordens. Outras vozes respondiam da
        escurido abaixo. Seus homens revistavam o cho em busca de seu corpo. Quando no o
        encontrassem, no demorariam a voltar sua ateno para o telhado.
              Colocou-se de p. Seus olhos se haviam adaptado  escurido e podia distinguir a
        linha do telhado contra o cu. De repente notou que no eram somente seus olhos: o cu
        havia clareado. O amanhecer se aproximava. E ela teria que chegar a um lugar seguro
        antes que o sol sasse.
              Abaixo dela havia luzes de lanternas. Passos rodeavam o edifcio. Os homens
        tornaram a gritar. No tinham encontrado o seu corpo.
              Sarah subia por uma ladeira de telhas. Ao chegar acima, deixou-se cair no telhado de
        lado. A nvoa parecia fechar-se em torno dela como um manto protetor. Tinha o vestido
        encharcado das telhas molhadas e o cetim se colava a ela como uma segunda pele gelada.
        Passou das telhas para uma superfcie plana de cimento e correu at uma porta no
        telhado. Estava fechada. Bateu nela com os punhos at que machucou as mos, mas ela
        no cedeu. Voltou-se e procurou outra rota de escape... Outra porta, uma escada... O cu
        clareava cada vez mais. Tinha que sair daquele telhado.
        Um grito distante lhe disse que j a tinham descoberto.
              O telhado seguinte se elevava  sua frente como uma parede de telhas. Exceto por
        uma janela alta e uma antena na parte superior, o resto de sua superfcie era lisa como
        gelo. Jamais poderia escal-la.
              Os gritos soaram novamente, desta vez mais perto. Uma telha solta caiu do teto e se
        espatifou na calada. Voltou-se e viu Kronen saindo por uma janela. Ia at ela. Rodeou sua
        jaula no telhado como um pssaro preso, buscando desesperadamente uma sada. Na
        parte de trs havia apenas uma descida vertical at um beco. Correu para o outro lado e
        olhou sobre a borda. Muito mais abaixo se via a rua. No havia terraos nem escadas que
        diminussem a sua queda se saltasse. Somente o cho mido, esperando seu corpo.
              Ouviu um rudo nas telhas e Kronen praguejou. Sua arma havia cado na rua. Ele j
        estava no segundo telhado. Mais alguns segundos e estaria ao seu lado.
              Voltou a olhar o telhado vertical de um lado, uma barreira intransponvel entre a
        liberdade e ela. Sentiu um chuvisco frio misturando-se com suas lgrimas. Ento, atravs
        das lgrimas, viu um fio negro que descia da antena. Seria forte o bastante para suportar o
        seu peso?
              O som dos passos de Kronen no cimento acabou com suas dvidas. Agarrou-se ao fio
        e comeou a subir o telhado inclinado. Seus ps resvalaram alguns centmetros e logo
        encontraram apoio. Subiu pouco a pouco.
              O palavro de Kronen ecoou nos edifcios. No se atrevia a olhar para baixo para ver
        se ele a seguia. Seu olhar estava firme  frente, na superfcie molhada da ardsia cinza. Os
        dedos lhe doam. Tinha os ps inchados. O telhado parecia estender-se eternamente.
        Somente ouvia o vento e os gritos de raiva de Kronen.
              Seguiu avanando, sem poder ver seu objetivo, nem quanto ainda restava. Continuou
        seu esforo at que finalmente seus dedos se fecharam em torno da antena. O metal
        parecia to slido, to forte! Terminou de subir os ltimos centmetros e se sentou. Tinha
        que descansar alguns segundos.
              Mas quando ergueu a cabea e olhou o que havia do outro lado, deparou-se com o
        nada. Havia chegado ao fim do caminho. Mais abaixo no havia outro telhado, somente
        uma queda at a rua.
              Lgrimas de desespero rolaram por sua face. Baixou a cabea e soluou como uma
        criana assustada. O som de seu pranto afastou tudo o mais. Em seguida, percebeu outro
        som, dbil a princpio, mas cada vez mais forte: uma sirene.
              Kronen tambm a ouviu. Olhou para Sarah como um possudo. Procurou com frenesi
        outra maneira de subir. No encontrou. Agarrou-se ao arame com um palavro e comeou
        a subir at ela.
        Sarah o observou, incrdula. Era alto e se movia como um macaco pelo teto de ardsia. A
        jovem puxou com fora o fio, tentando em vo solt-lo da antena. Tentou ficar de p e
        esper-lo. Ouvia-se a sirene muito prxima. Precisava de mais alguns momentos apenas.
              Os dedos de Kronen agarraram a parte superior do telhado. Sarah viu a sua cabea
        aparecer. Ele a olhou. Em seus olhos no havia nem raiva, nem dio, mas algo mais
        terrvel... Antecipao. Esperava impaciente por sua morte.
               No!  gritou ela.  No!
               Atirou-se contra ele. Seus dedos se cravaram nos olhos, obrigando-o a recuar at a
        borda. O homem lhe segurou a mo e a torceu de tal modo que ela gritou.
               Ao soltar-se, cambaleou e esteve a ponto de perder o equilbrio. Kronen subiu para a
        parte superior e avanou lentamente para ela.
               Olharam-se por um momento, sozinhos no telhado. Um deles no sobreviveria.
               No se deixaria capturar viva.
               O homem tirou uma navalha da jaqueta e ela recuou mais um passo. A lmina
        aproximou-se mais dela. J no pensava em captur-la viva. Queria mat-la. Sarah cruzou
        os braos  frente em um gesto automtico de proteo. Sentiu a dor no brao quando da
        lmina cortou-lhe a carne nua. Deixou-se cair de joelhos. Os sapatos dele rangeram ao
        aproximar-se dela. Cravou o calcanhar no vestido dela, prendendo-a ao telhado.
               No podia escapar. Nem sequer podia levantar-se. Observou em silncio como a
        lmina voltava a levantar-se em um arco mortal.
               Todos os seus instintos primitivos se uniram num ltimo e desesperado ato de
        sobrevivncia. Atirou-se contra os seus joelhos com um grito. Kronen cambaleou e ela
        atacou seu p. O golpe tirou-lhe o calcanhar das telhas. Kronen tentou procurar um ponto
        de apoio. A navalha caiu. O homem se agarrou na borda do telhado, mas apenas por um
        momento. Seus olhos se encontraram com os dela; era um olhar de surpresa infinita. Caiu
        no vazio com os braos erguidos para o cu. A jovem fechou os olhos. Os gritos dele ainda
        ecoavam em seus ouvidos muito depois dele ter chegado  rua.
               Queria vomitar. O mundo dava voltas ao seu redor. Baixou a cabea e apertou a face
        contra as telhas frias e midas para combater a nusea. Estremeceu. Na rua se ouviam
        rudos de sirenes e vozes, mas estava esgotada e sentia muito frio para mover-se. Somente
        o grito de Nick conseguiu faz-la olhar. Estava embaixo, na rua, agitando os braos em sua
        direo, seus olhos cheios de lgrimas.
                No se mova!  gritou ele.  Vamos chamar os bombeiros para te descer.
               A jovem secou as lgrimas e assentiu com a cabea. J tinha terminado tudo.
        Somente teria que esperar.
               Mas havia se esquecido de Magus.
               Um barulho a obrigou a olhar para baixo. Magus estava no trecho de cimento.
               Carregava um rifle. Ela era a nica que podia v-lo. Era invisvel da rua onde estavam
        Nick e a polcia. Era apenas um homem preso num telhado. Um homem que queria fazer
        um ltimo gesto em nome da vingana. Olhou-a por um momento e depois levantou
        lentamente o rifle. Sarah viu que o cano apontava em sua direo e esperou o disparo
        fatal.
               Soou um tiro, mas no sentiu nenhuma dor. Perguntou-se por que.
               Viu ento Magus cambalear com a camisa cheia de sangue. O rifle caiu sobre o
        cimento. O homem emitiu um barulho, um grito mortal que podia ser apenas um nome.
        Caiu de costas, com os olhos muito abertos e no se mexeu mais.
               Algo brilhou em outro telhado. Sarah olhou para l. O sol penetrou finalmente no vu
        de neblina e caiu, em um raio brilhante, sobre a cabea e os ombros de um homem que
        estava de p sobre o telhado. O homem baixou sua arma. O vento balanava sua camisa e
        cabelo. Estava olhando para ela. Sarah no podia ver seu rosto, mas soube nesse instante
        quem era. Tentou levantar-se. Viu que ele comeava a afastar-se e o chamou antes que ele
        desaparecesse para sempre.
              Geoffrey!  gritou.
             O vento arrastou sua voz.
              No! Volte!  gritou ela, mais uma vez.
             Mas somente viu um ltimo brilho do cabelo loiro e depois o telhado vazio brilhando
        sob o sol da manh.
        
        
              O tiro do rifle ressoou como um trovo na rua abaixo. Meia dzia de policiais
        correram para se protegerem. Nick levantou a cabea, alarmado.
               Que est acontecendo l?
              Potter se virou para Tarasoff.
               Quem diabos est atirando?
               No  um dos nossos, senhor. Talvez seja a polcia.
               Era um rifle, maldio!
               No so meus homens  disse um oficial da polcia holandesa, da segurana de um
        umbral prximo.
              Nick viu que Sarah continuava viva. Mas se sentia impotente para ajud-la.
               Faa algo!  gritou para Potter.
               Tarasoff!  gritou este, por sua vez.  Suba l com seus homens. Verifique de onde
        saiu esse disparo  voltou-se para a polcia.  Quando os bombeiros iro chegar?
               Em cinco, dez minutos.
               A mataro antes  disse Nick.
              Comeou a andar para o edifcio. Tinha que chegar at ela!
               O'Hara!  gritou Potter  Antes temos que limpar o edifcio.
              Mas Nick j entrava pela porta. No interior, subiu os degraus de dois em dois. A
        possibilidade de soarem mais disparos, de chegar ao telhado e encontrar Sarah morta, o
        aterrorizava. Mas somente ouviu seus prprios passos.
              Abaixo dele uma porta se fechou. A voz de Potter gritou seu nome. Continuou
        avanando.
        As escadas amplas davam lugar a outra mais estreita que subia ao telhado em espiral.
        Correu pelos ltimos degraus e saiu no telhado.
              L fora o sol brilhava. Parou, atordoado pela luz repentina e pelo horror que havia no
        cimento a seus ps. Os olhos mortos de um homem sem rosto o olhavam. O vento movia
        um cachecol vermelho to brilhante quanto o sangue que saa lentamente do peito do
        homem. A seu lado havia um rifle.
              A porta do telhado se abriu. Potter saiu por ela e quase se chocou com Nick.
               Meu Deus!  exclamou, olhando o corpo.   Magus! Ele atirou contra si mesmo?
              Do telhado acima chegou um lamento repentino, um som de desespero.
              Nick ergueu a cabea, alarmado.
              Sarah tinha as mos estendidas, como se suplicasse ao vento. No os havia visto
        ainda; olhava a distncia, para algo que somente ela podia ver. O que gritou a seguir fez
        Nick estremecer. No fazia sentido. Era o grito de uma mulher aterrorizada  beira da
        histeria. Seguiu a direo de seu olhar, mas apenas viu telhados que brilhavam ao sol.
        Ouviu a voz de Sarah chamando mais uma vez um homem que no existia.
              Quando afinal a desceram do telhado, mostrou-se tranquila. Nick estava ao seu lado
        quando a colocaram na maca. Parecia to pequena e frgil. Havia tanto sangue em seus
        braos! Apenas percebia o que ela dizia, somente sabia que queria estar perto dela.
              Uma ambulncia esperava na rua.
               Deixe-me acompanh-la  murmurou Nick.  Voc precisa de mim.
              Subiu ao lado da maca e a jovem o olhou ternamente.
               Achei que nunca tornaria a v-lo  sussurrou.
               Eu quero voc, Sarah.
              Potter enfiou a cabea na ambulncia.
               Por tudo o que  sagrado, O'Hara; deixe-nos trabalhar!
              Nick se voltou e viu que a equipe da ambulncia o olhava.
               No, por favor!  suplicou a jovem.  Deixem que ele fique. Quero que ele fique.
              Potter encolheu os ombros num gesto impotente. Os enfermeiros decidiram que era
        melhor deixar Nick em paz. Sabiam por experincia que os maridos nervosos podiam ser
        criaturas teimosas e irracionais. E aquele parecia muito, muito nervoso.
        
        
             Dezesseis
        
        
        
             Roy Potter viu a ambulncia afastar-se, aliviado. Reprimiu um soluo e avanou at 
        outra ambulncia, estacionada a poucos metros. Estava esgotado. Mas podia permitir-se. A
        operao havia terminado.
        
             Calculou mentalmente seus ganhos. Magus e seu melhor homem estavam mortos.
        Haviam quatro homens detidos. E Sarah Fontaine estava viva.
        
              Precisava de cuidados mdicos, sim. E tambm de auxlio psiquitrico. Teria
        alucinaes, veria fantasmas no telhado. Mas a histeria era algo muito compreensvel
        nestas circunstncias. E se recuperaria. Disso no tinha dvidas.
              Era feito de uma fibra mais forte do que todos acreditavam.
              Viu que colocavam uma maca na ambulncia. Era Magus. Franziu o cenho e pensou
        em seu suicdio. Ou no havia sido suicdio? Teriam que esperar os resultados do exame da
        balstica. Por hora, era a nica explicao.
               Senhor Potter?
               Pois no?
               Est sendo aguardado, dentro do prdio, por um homem que quer v-lo. Creio que
        seja americano.
               Diga-lhe que fale com o senhor Tarasoff.
               Ele diz que somente ir falar com o senhor.
              Potter reprimiu um palavro. O que ele queria era meter-se na cama. Mas seguiu o
        agente at ao interior do edifcio Berkman. O cheiro de caf impregnava tudo. Recordou-se
        que no havia comido nada desde a tarde anterior. Merecia um bom caf da manh. O
        agente apontou o escritrio  frente.
              Ele est ali?
             Potter passou pela porta e franziu a testa. O homem, de costas para ele, olhava para
        a janela. Estava completamente vestido de preto. Havia algo familiar na cor dourada de
        seu cabelo, e o sol que entrava pela janela roubava-lhe reflexos de luz.
             O agente entrou e fechou a porta.
              Sou Roy Potter  disse. Queria me ver?
             O homem se virou, sorrindo.
              Ol.
             Potter o olhou atnito. Ficou sem voz. O homem era Simon Dance.
        
        
              Uma hora depois, Simon Dance voltou-se novamente para a janela.
               E isso  o que aconteceu, senhor Potter  disse, suavemente.  Mais complicado do
        que voc suspeitava. Pensei que gostaria de conhecer os detalhes. Em troca, somente lhe
        peo um favor.
               Por que diabos no me contou isto tudo antes?
               No incio, foi puro instinto. Em seguida, surgiram os explosivos em meu quarto de
        hotel e soube que no poderia confiar em nenhum de vocs. Havia uma infiltrao e sabia
        que ele teria que estar em um nvel bastante alto.
              Potter no respondeu.
               Van Dam  disse Simon.
               Como pode ter certeza?
              O outro encolheu os ombros.
               Por que algum deixaria o calor de seu hotel  meia-noite para procurar uma cabine
        telefnica?
               Quando foi isso?
               Ontem  noite, justamente depois que eu avisei O'Hara.
               Foi voc quem telefonou?  Potter sacudiu a cabea.  Ento tenho uma parte da
        culpa. Fui eu quem comunicou a Van Dam. Tinha que faz-lo.
              Dance assentiu.
               No compreendi esse passeio ao telefone pblico at que ouvi que Kronen e seus
        homens haviam chegado a Casa Morro pouco depois. Por isso soube que Van Dam havia
        telefonado para Magus.
               Olhe, preciso de mais provas. No posso acus-lo apenas por um telefonema.
               No, no. Esse assunto est encerrado.
               Que quer dizer?
               Logo entender.
               Mas e o motivo? Um homem precisa de um motivo para fazer algo assim.
              Dance acendeu um cigarro calmamente.
               Os motivos so algo curioso. Todos tm segredos e agendas ocultas. Acredito que
        Van Dam fosse um homem rico.
               Sua esposa lhe deixou milhes.
               E era velha quando morreu?
               Quarenta e poucos. Houve algo incomum. Um roubo, acredito. Van Dam estava
        fora do pas na ocasio.
               Claro que sim.
              Potter ficou em silncio. Sim, se procurasse bem, todo mundo podia ter motivos
        ocultos.
               Comearei uma investigao interna  disse.
              Dance sorriu.
               No h pressa. No acredito que ele desaparea.
               E voc?  perguntou Potter.  Agora que tudo terminou, vai reaparecer?
        Dance exalou uma baforada de fumaa.
               Ainda no sei o que farei  disse com tristeza.  Eve era a nica coisa que me
        importava. E eu a perdi.
               Ainda resta Sarah.
              O homem balanou a cabea.
               J lhe causei muita dor  voltou o olhar para a janela.  Seu relatrio de balstica
        provar que Magus no foi morto por seu rifle e sim por uma bala disparada a certa
        distncia. Prometa-me que no dir isso a Sarah.
               Se  o que voc quer...
               Sim, .
               No ir se despedir dela?
               Ser mais amvel no faz-lo. O senhor O'Hara parece ser um bom homem  disse
        suavemente.  Creio que sero felizes juntos.
              Potter concordou. Sim, tinha que admitir que, depois de tudo, O'Hara no era de
        todo mau.
               Diga-me. Alguma vez amou Sarah?
              Dance balanou a cabea.
               Nesse trabalho amar  um erro. No, no a amei. Mas no quero que lhe diga nada.
         olhou Potter com dureza.  Da prxima vez no use inocentes em suas operaes. J
        causamos bastantes desgraas neste mundo sem precisar fazer sofrer tambm os que no
        tm nada a ver com isso.
              Potter desviou o olhar, incomodado.
               Acredito que  hora de ir  disse Dance, apagando seu cigarro. Tenho muito que
        fazer.
               Voltar aos Estados Unidos? Pode procurar uma nova identidade...
               No ser preciso. Sempre me virei melhor sozinho.
              Potter no podia discutir aquele ponto. A breve relao de Dance com a CIA no
        poderia ter sido mais desastrosa para ele.
               Acredito que uma mudana de clima vir bem.  disse Simon da porta.  Nunca
        gostei muito da chuva e do frio.
               Mas como poderei localiz-lo se precisar de voc?
              Dance parou na porta.
               No poder  disse com um sorriso.
        
        
             Quando Sarah acordou j era tarde. A primeira coisa que viu foram as cortinas
        brancas movendo-se ao lado da janela aberta. Depois, viu os vasos de tulipas amarelas e
        vermelhas colocadas em fileira sobre a mesa. E em seguida, em uma cadeira ao lado da
        cama, viu Nick com outro vaso no colo. Dormia profundamente.
              Sua camisa era um mapa de rugas e suor. Seu cabelo tinha mais tons acinzentados do
        que se lembrava. Mas sorria.
              Estendeu o brao e tocou sua mo. Ele acordou com um sobressalto e a olhou com
        olhos vermelhos.
               Sarah  murmurou.
               Pobre Nick. Acho que precisa desta cama mais do que eu.
               Como voc est se sentindo.
               Estranha. A salvo.
               Est a salvo  deixou o vaso e pegou suas mos.  Agora j est.
              A jovem apontou para a mesa.
               Jesus! Quantas flores!
               Talvez eu tenha exagerado. No sabia que duas dzias de vasos ocupariam tanto
        espao.
              Os dois deram risadinhas. Nick a observou em silncio, esperando.
               Eu o vi  disse ela, suavemente  Estou certa disso.
               No importa, Sarah...
               Importa para mim. Eu o vi...
               Quando se est com medo, a mente pode pregar peas.
               Talvez.
               Eu no acredito em fantasmas.
               Eu tambm no acreditava. At hoje.
              Nick ergueu a mo dela at seus lbios.
               Se foi um fantasma, estou em dvida com ele por lhe deixar comigo.
              Parecia to cansado que Sarah sentiu uma forte ternura por ele. Em seus olhos cinza
        via, alm disso, o amor que nunca havia visto nos olhos de Geoffrey.
               Quero voc  disse. E tem razo. Pode ser que tenha imaginado coisas. Estava com
        muito medo e ningum podia me ajudar. Somente um fantasma.
               Ele est morto, Sarah. O fato de v-lo, neste momento, foi a sua maneira de te dizer
        adeus.
              Houve uma batida na porta. A cabea de Potter apareceu por ela.
               Vejo que j esto os dois acordados  disse animado.  Posso entrar?
               Claro que pode  sorriu Sarah.
              O homem olhou os vasos de tulipas e soltou um assobio.
               Que voc fez, O'Hara? Comprou uma floricultura?
               Apenas queria ser romntico.
               Romntico, um casca grossa como voc?  Potter piscou para Sarah.  Diga a ele
        para tomar um banho antes que o prendam por vagabundagem.
              A jovem acariciou o queixo de Nick.
               Para mim, ele est maravilhoso assim.
              Potter balanou a cabea.
               Isso demonstra que o amor  cego  olhou a jovem pensativo.  O mdico disse que
        lhe dar alta amanh. Se sente forte?
               Acho que sim  apontou com a cabea o brao enfaixado.  Di um pouco. Deram-
        me uma dzia de pontos  olhou para Nick, que lhe passou um brao pelos ombros.  Mas
        garanto que estarei bem.
              Potter os olhou um momento em silncio.
               Sim  disse, por fim.  Acredito que tudo correr bem.
               Encerraram a operao?  perguntou Nick.
               Quase. Ainda faltam alguns detalhes. Coisas que eu no esperava. Mas j sabe
        como  este trabalho. Sempre h perdas. Os agentes mortos em Margate, Eve Fontaine.
               E Geoffrey  disse Sarah, suavemente.
              Potter ficou em silncio.
               Bom  disse, depois de uma pausa.  Que vai acontecer com vocs?
               Voltaremos para casa  respondeu Nick. Depois de amanh.
               E depois?
              Nick olhou para Sarah.
               J lhe contarei  respondeu.
              O quarto ficou em silncio. Potter compreendeu que deveria deix-los sozinhos. Deu
        uma tapa nas costas de Nick.
               Muitas felicidades a vocs dois. Falarei com seu chefe... Se quiser recuperar seu
        trabalho, claro.
              Nick no respondeu. Seus olhos continuavam fixos nos de Sarah.
               Certo  murmurou Potter, aproximando-se da porta.  Direi a Ambrose que Nick
        O'Hara o mandou ao diabo.
              Antes de sair voltou-se uma ltima vez e os viu abraarem-se. No disseram nada,
        mas o modo como se apertaram um ao outro dizia tudo. Potter balanou a cabea e sorriu.
        Sim, Simon Dance tinha razo. Nick e Sarah seriam felizes juntos.
        O sol da tarde rompeu as nuvens e, inundou o quarto com tal resplendor que Potter teve
        que semicerrar os olhos. Nesse momento, Nick beijou Sarah nos lbios e o agente teve a
        sensao de que todas as sombras haviam desaparecido, levando consigo para sempre o
        fantasma de Geoffrey Fontaine.
        
        
                                       FIM
